Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-01-28

O grande desafio da cidadania “estrangeira”

Somos um povo habituado a saltar de país em país à aventura, a conviver com “muitas e desvairadas gentes”, a ser aceites e a aceitar os outros no seu próprio ambiente. Ambientes que geralmente também fazemos nossos, gerando quantas vezes comunidades lusófonas que por lá se mantêm por gerações. Em suma, entendemo-nos como um povo de viagem (de viagens), arriscando a distância, mas de fácil adaptação. De facto, encontram-se portugueses pelos quatro cantos do mundo, quando e onde menos se espera. Até se diz que em qualquer parte do mundo se encontrará sempre um português a fazer já parte da paisagem local. E de facto ele lá está, para nos tratar bem e nos dizer de que parte de Portugal veio, tornar-se algo nostálgico e orgulhoso do seu torrãozinho natal, mas sempre para dizer-nos no fim, que dificilmente voltará. Que já ali criou raízes, que já não conseguiria adaptar-se à vida por cá, que isto e que aquilo. Mas que gostaria de voltar de visita, embora definitivamente já pertença a outra realidade. Por outro lado, sente-se normalmente que esse português é respeitado, mesmo amado, e que está integrado e absorvido, fazendo por isso parte da paisagem. Assim uma espécie de Robinson Crusoe algo paternalista, cuja respeitabilidade se funda na longa e sincera aceitação dos outros e dos seus hábitos. E que se traduz reversamente na amistosa e sincera aceitação pelos outros de si próprio.
Mas agora o desafio é outro, e inverso… Agora são os outros que demandam o nosso país para o fazerem de seu! Cabo-verdianos, angolanos e brasileiros, croatas, romenos e russos, paquistaneses, chineses e indianos são gentes da nossa torna viagem na sua maioria, que aqui querem encontrar porto mais seguro que o seu. São o nosso reflexo, cinco séculos volvidos. Mas será que somos capazes de receber e aceitar esses outros que hoje nos procuram, como muitos deles nos aceitaram antes enquanto povo? Será que somos capazes de aceitar de igual para igual (isto é, respeitando as diferenças), aqueles que connosco querem colaborar e portanto com eles usufruir um pouco do nosso país? Será que os portugueses que sempre por cá ficaram têm o mesmo espírito de aceitação dos outros que demandaram paragens exóticas? Será que ainda temos a mesma abertura de espírito dos que por cá habitavam há uns mil, mil e quinhentos anos atrás, quando por cá coexistiam cristãos, judeus e muçulmanos, núcleos vikings e toda uma série de outros povos cujos nomes nos habituamos a papaguear na escola primária, sem muito bem sequer saber o que significavam (celtas, suevos, alanos, visigodos, cartagineses, etc., etc.)? Porque “as invasões” de que nos falavam não eram desembarques de guerreiros, que um belo dia resolviam aportar por cá! Isso seriam as cruzadas, que enaltecidamente ajudaram o Afonso Henriques a conquistar Lisboa, há menos de mil anos, e a firmar-se rei de Portugal. Invasões eram, um pouco como hoje, famílias inteiras que vinham de mansinho (uns mais, outros menos) e por cá iam ficando e criando raízes em comunidades com usos e hábitos próprios. Usos e hábitos esses que, umas dezenas (ou centenas) de anos volvidos, eram já parte do nosso mosaico cultural. Isto é, tornavam-se hábitos com direito de cidadania idênticos a todos os outros hábitos culturais que por cá já havia. Só os romanos tiveram um tratamento mais ríspido. Provavelmente porque, mais do que “para cá”, vinham “cá” buscar o que lhes falava em Roma. E foi a partir de todas essas “muitas e desvairadas gentes” da Europa e do Mediterrâneo que se formou este povo por sua vez demandou –e ainda demanda- as sete partidas do mundo. E já não se lembra de quando -como hoje- eram os outros que para cá vinham. Estou convencido que, com maior ou menor tensão, recuperaremos esse espírito e essa inteligência que é no fundo o que nos diferencia dos outros povos: esse maravilhoso dom de tudo aceitar e absorver, respeitando e esbatendo as diferenças, enaltecendo e tornando nossas as semelhanças. Porque essa é no fundo, a nossa própria marca e origem como povo!
Estamos portanto, como que retornar ao princípio do ciclo, a retemperar energias, a retonificar “a gesta” e antes de re-partir para mais uma aventura de mil anos!
Mas para isso, é preciso aceitar as diferenças e esse é sem dúvida o grande desafio. Empolgante como todos, mas sem dúvida o grande desafio!

2004-01-21

Terceiro Poder e Cidadania

Chama-se normalmente à imprensa o terceiro poder. Para nós, e até há trinta anos atrás, isto é, até ao final de Abril de 1974, a expressão “terceiro poder” não tinha sentido. Havia um único poder (o do governo) que, por vezes, se associava ou se chocava com outros poderes menores, como o da Igreja ou o dos grandes potentados. Estou a lembrar-me da Fundação Gulbenkian e do seu fundador, o Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian, que obrigou o Salazar a libertar da cadeia onde a PIDE o tinha metido, aquele que haveria de ser, uns anos depois, o presidente da própria Fundação: o Dr. Azeredo Perdigão. É o que reza a lenda! Mas esses, já se vê, eram pequenos poderes. Havia ainda o pequeno poder da inteligência, que por vezes conseguia fazer passar através das malhas censórias do poder algumas notícias que de outra forma não conheceriam divulgação. Havia então uma “arte de ler jornais” que nos habilitava a saber um pouco mais que aquilo que o governo queria que soubéssemos. E era tudo. Pois nesse já longínquo ano de 1974, corria o mês de Julho, tive a sorte de poder estar cerca de um mês nos Estados Unidos da América, e assistir (quase em directo) à destituição (formalmente, uma resignação) do presidente da talvez maior potência mundial (na altura, haveria que discutir se era ele ou o presidente da União Soviética). Aí, entendi o que pode ser a força e o poder da imprensa, e porque lhe chamavam já o “terceiro poder”. Por cá, fomos europeiamente aprendendo o poder dessa força. Hoje, é-nos impossível compreender o país e o mundo sem os mass média (ou, em português, os meios de comunicação de massas). Os jornais, a rádio e a televisão põem e dispõem o que pensamos. As coisas só passam a ter existência se forem publicadas num qualquer meio de comunicação. Portanto, o facto de ser notícia já é quase notícia! É que os “média” não se limitam a relatar as notícias: seleccionam-nas, interpretam-nas e atribuem-lhes a importância que querem, conseguindo assim, de certa forma, manipulá-las. E, por vezes, nesta luta absurda e inclemente de audiências, de que os jornalistas são por vezes meros joguetes, tudo é possível. Dão-se mesmo ao luxo de entrar na intimidade de todos e de cada um: é ver o choro reprimido (e portanto íntimo) de uma vítima que um incêndio deixou sem nada, ou as manchas de sangue após um qualquer acidente num qualquer IP, para já não falar de cadáveres, cobertos ou não com um lençol. Que se ganha em termos noticiosos com isso? Nós, nada, mas a exploração da sordidez ou a entrada na intimidade de terceiros, vende publicidade! E isso é o importante porque a nobre missão de informar está dependente do dinheiro obtido pela “venda” dessa mesma informação (eu diria espectáculo). E é assim que cada vez mais os órgãos de informação estão dependentes das empresas de publicidade. Correm portanto mais riscos e facilmente são absorvidos. Os grandes grupos absorveram a grande maioria dos pequenos meios de comunicação, condicionando e massificando assim a informação a que temos de facto direito. Mas em tudo isto, os jornalistas também não estão isentos de culpa, e o caso “Casa Pia” é disso um bom e alargado exemplo. E porque os próprios poderes (económico, político, etc.) se sentiram incomodados com isso, fala-se de novo de censura. Aqui o declaro: serei sempre contra a censura. Nada a justifica em tempo de paz. Não é admissível que tenha que haver alguém que se coloque sobre os outros e tenha como função julgar o que alguém quer transmitir. Mas também é inadmissível que esse alguém, que quer transmitir o que quer que seja, não tenha consciência do que é o limite entre a notícia e o espectáculo. Porque esse limite só pode ser pautado pela consciência cívica de cada um. O que é preciso é que os jornalistas tenham consciência cívica. E isso, infelizmente, é coisa que não abunda.
Nota: Congratulo-me com o facto de o “Diário do Sul” ser, tanto quanto julgo saber, um dos poucos jornais da imprensa regional que não está ligado a nenhum grupo económico de comunicação social. Talvez por isso, nunca qualquer um dos meus 134 textos até agora editados foi cortado ou censurado.

2004-01-14

Eu sou português aqui, nos cordões do desenrasca…

Leio que Portugal é o país menos desenvolvido da Comunidade Europeia e que cada vez menos se aproxima da média de crescimento necessária à plena integração neste espaço que é, por direito geográfico, nosso também. Ou seja, cada vez estamos mais longe dos níveis europeus.
Recordo-me também de dois versos do meu amigo, arquitecto e poeta Zé Fanha
“…Eu sou português aqui/Nos cordões do desenrasca…”
E as coisas não jogam…
Como é possível que enquanto português eu me reveja nestes versos que celebram a criatividade, a inteligência, a liberdade e a imaginação, numa palavra, que celebram o desenrascanço, e me conforme com o facto de habitar, de trabalhar e de pertencer –de pertencermos todos- ao país que cada vez mais se afasta dos padrões de vida em que decidiu apostar como desejáveis e possíveis há mais de quinze anos? E que, se tudo correr como previsto, daqui a três meses se arrisca a passar do actual 15º e último lugar dos países da Comunidade a 25º ou próximo, com a entrada na comunidade de dez novos estados?
Será mesmo este país, este Portugal, que “matou” o terríficante Adamastor, que cruzou o Atlântico Sul, o Índico e o Pacífico “em trabalhos e guerras esforçados, mais do que permitia a força humana”e que fez recuar o Tratado de Tordesilhas até onde quis, contra a vontade do próprio Papa?
Isto, para não falar já do prestígio da qualidade de trabalho e espírito de iniciativa dos emigrantes portugueses na Europa, onde em muitos países contribuem para uma das mais elevadas produtividades mundiais. E nos Estados Unidos. E no Brasil. Enfim, no Mundo!
Há contudo um ponto comum a todas estas nossas glórias: é que todas foram ou são conseguidas no estrangeiro! Então, digo eu, haverá que descobrir cá o mal! Aparentemente, é aqui, é cá que reside o que quer que seja que está mal. Pois se lá fora somos bons, o que será que faz com que dentro não o sejamos? O que muda realmente, quando cruzamos as fronteiras do nosso próprio país? Essa é a descoberta necessária e urgente...
Parece que a saída nos liberta. Nos torna independentes. Arriscados. Autónomos. Que nos torna conscientes, cidadãos. E quem muda? E o que muda? Mudam as condições de trabalho e os seus padrões. Mudam os patrões. Mudam as limitações burocráticas e as pequenas corrupções. Muda portanto a mentalidade e os seus mentores. Mudam as regras e os regulamentos. Isto é, muda tudo quanto não é criatividade, iniciativa ou inteligência, que é o que de melhor temos e a que o poeta chamou “os cordões do desenrasca”!
Então terá de ser pela imaginação, pela criatividade e pela iniciativa que deveremos lutar. E que mude a burocracia, o comportamento-padrão e o espírito dos patrões. Ou seja, teremos de “desenrascar” um país melhor. Como sabemos e podemos fazer.
E então haverá um futuro para Portugal.

2004-01-07

2004 – Por um Ano da Cidadania e do Civismo

Ano novo, vida nova, é costume dizer-se. E embora não me pareça que a vida neste ano que agora começa possa vir a ser muito diferente da do ano que passou, atrevo-me a dizer que será diferente se nós assim o quisermos! Trocando em miúdos, acho que as condições reais e exteriores (custo de vida, nível de vida, expectativas proporcionadas pelo desenvolvimento do país, etc.) não se irão alterar muito, mas também acho que nós podemos fazer a diferença, se assim o quisermos (pela nossa iniciativa, pelo nosso empenho, pela nossa “cabeça”, etc.). Seguindo aquilo que eu próprio aqui escrevi a semana passada, proponho-vos o “Ano da Cidadania”! De facto, acho que temos andado todos muito arredados das nossas funções cidadãs e cívicas. E, pelos vistos, isso não nos deu melhorias nenhumas de vida, antes pelo contrário! Como exemplo de algibeira, ainda no passado sábado, numa sondagem aleatória (e sem valor formal, é certo) publicada pelo Jornal “Expresso” promovida entre os seus leitores (o “Barómetro Expresso”, com votação via Internet), à pergunta “Como justifica a elevada sinistralidade nas estradas portuguesas?”, 73,35% de quem respondeu afirmava ser a falta de civismo. As más condições do piso e a deficiente sinalização eram apontadas por 11,97% dos votantes e finalmente, a permissividade na aplicação da lei (8,45%) e a inadequação do ensino nas escolas de condução (4,23%) recolhiam valores residuais. E se olharmos bem, as quatro causas são quase a mesma… Explico-me: se a população não tem um comportamento civicamente adequado (e não terá), deve ser pouco menos que inútil pensar que a administração pública o terá! E se é essa administração que está encarregada da sinalética e dos cuidados com o piso, não será contraditório deduzir-se que não se preocupe o que se deveria preocupar. Até porque essa administração é (em princípio) composta desse mesmo tipo de “cidadãos com pouco civismo”. E perante uma população que não sabe ou não exerce os seus direitos e deveres de cidadania e civismo, não será preciso uma administração preocupar-se muito… Depois, vem a “permissividade” policial. Há aqui que não confundir “permissividade” com “flexibilidade” ou “compreensão”: se a aplicação da lei pudesse ser cega, não seria preciso treinar ninguém na sua aplicação, e é! A prova disso é que, desde que os agentes policiais são mais instruídos e treinados (e não, como antes do 25 de Abril, recrutados entre militares desempregados das guerras coloniais), a qualidade da prestação policial tem aumentado. Deverá portanto tender a baixar a permissividade e a aumentar a flexibilidade e a compreensão. Mas o facto é que também eles, embora aparentemente formados na área dos direitos cívicos, são produto desta mesma sociedade “des-civilizada” onde um “obrigado” e outras formas de cortesia e civilidade são cada vez mais raras… e já se sabe que os maus exemplos prevalecem normalmente sobre os bons. Finalmente, o ensino das escolas de condução… que dizer dele quando um dos grandes da área (dono de várias escolas e presidente de uma associação do sector) é apanhado a mais de duzentos à hora e afirma publicamente que com frequência o faz, infringindo conscientemente a lei? Nada! Está quase tudo dito! Aparentemente, parece que as escolas de condução se limitam a ensinar a mexer nos comandos de um carro e a bem iludir a polícia… Não será assim, mas o facto é que o senhor “apanhado” foi eleito por alguns dos seus pares para sua representação! Mais uma vez, não surpreende, dado que “todos somos cidadãos pouco civilizados”. Mas também seria interessante saber algo mais sobre os condutores envolvidos em acidentes. Nomeadamente, qual o número de anos de carta que têm e, já agora, também qual a sua média de idades e qual o número de motociclistas envolvidos. A informação a este nível é escassa demais para que se possa saber “quem” tem acidentes, mas no fundo, são quase sempre questões de civismo e de consciência cívica que estão na sua base! E o civismo, embora se pudesse e devessem aprender (também) na escola, depende (também) de nós próprios. Suponho que na primeira República, havia uma disciplina de “Educação Moral e Cívica”. Depois, no salazarismo, foi substituída pela disciplina de “Religião e Moral”. Não estará agora na altura de voltarmos a ter essa “Educação Moral e Cívica” nas escolas? Mas enquanto não volta (se voltar), será melhor que metamos a mão na consciência e reponhamos em prática o civismo que por lá seguramente ainda existe. Acreditem que contribuiremos para um mundo melhor para todos. Um mundo mais solidário, mais equalitário e mais respeitador de cada um. Em suma, um mundo mais civilizado