Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-02-25

Viva o Diário do Sul independente!

O Diário do Sul cumpre hoje mais um aniversário! O “nosso” DS completa hoje trinta e cinco anos! De acordo com a Constituição Portuguesa, a idade mínima para se poder candidatar à Presidência da República! E bem precisávamos disso, pois não se vislumbram candidatos credíveis, e ao menos o DS não depende de estratégias e tácticas traçadas por outrem! Bem sei que ainda é cedo, que ainda faltam dois anos para as próximas presidenciais mas o facto é que o horizonte não se apresenta risonho. Mas deixemos essas tristezas e comemoremos hoje o facto deste jornal completar 35 anos. É tanto mais meritório este aniversário quanto o Diário do Sul se perfila hoje como um dos poucos jornais independentes de qualquer grupo empresarial. E um dos pouquíssimos diários que disso se pode vangloriar. E nós, seus leitores, regozijar! Dos “grandes jornais diários” de âmbito nacional, nenhum resistiu ao apelo dos grandes grupos económicos. Dos jornais regionais, poucos ou nenhuns (de memória, não me recordo de nenhum, mas é possível que haja) são independentes dos grandes gigantes da comunicação social. Recordo com saudade jornais de referência que caíram (uns sem ruído, outros com um pouco mais de barulho): República, Diário de Lisboa, O Século, A Capital, Diário Popular, A Luta, Jornal Novo, só para falar dos diários, além de tantos, tantos outros semanários, bissemanários ou mensários… Os que ainda existem fazem parte de um qualquer sector de imprensa de um dos grupos empresariais “da moda”. É um orgulho (e um bem inestimável) poder-me relacionar e dialogar directamente com os proprietários e decisores do jornal onde escrevo, em vez de saber que o meu interlocutor é um assalariado com uma margem de manobra mais ou menos estreita. E que essa “margem de manobra” é regulada por desígnios muitas vezes incompreensíveis, até para quem a tem de fazer cumprir. As razões dos grandes grupos são frequentemente só compreensíveis para quem decide quais são os objectivos globais desses mesmos grupos. E nesse punhado de decisores raramente (nunca?!) estarão incluídos os directores e chefes de redacção dos jornais. Formalmente, os directores, os jornalistas e os colaboradores escrevem o que querem, pois a censura já acabou (vai fazer trinta anos este ano), mas qualquer um sabe que quem tem a “massa”, manda. E quem recebe, obedece. Se assim não fosse, qual seria o interesse dos grupos económicos em deterem jornais (por definição, empresas com baixas margens de lucro), que bastantes vezes até lhes dão prejuízo? É por isso um luxo poder escrever com liberdade e plena responsabilidade, como eu sempre tenho feito no Diário do Sul! É também um luxo poder ler e dispor de um jornal que é “aquilo que ali está” e não a ponta visível de um qualquer icebergue de perfil desconhecido. Pode-se concordar ou discordar, gostar ou desgostar do que se lê e do que se publica no Diário do Sul. Mas sabe-se que o que lá está foi produzido em clara liberdade, que é um dos bens mais caros (e mais atacados) desde há trinta anos a esta parte: a liberdade de expressão! É por isso que não podia deixar de me associar a este aniversário, saudando os fundadores, os responsáveis e todos os trabalhadores e colaboradores do Diário do Sul. E naturalmente, também todos os leitores, razão de ser destes (e dos outros) escritos! Acho que todos (os que estão de um lado, os que estão do outro e os que –como eu- estão nos dois) estamos de parabéns. E estaremos enquanto o Diário do Sul continuar a afirmar a sua autonomia e independência perante os grupos económicos. Parabéns por isso!

2004-02-18

A não-caça e a não-caca!

Este últimos anos os fins-de-semana estão mais calmos que em anos anteriores. Podemos mesmo passear pelo campo, sem perigo de nos cruzarmos com grupos de caçadores, para quem os que se simplesmente se passeavam eram um estorvo. Não estou evidentemente a falar de todos, mas de muitos caçadores com que me cruzei em muitos anos de tranquila busca da calma e da observação da vida selvagem por montes e vales. Era já de si assustador o contínuo ruído dos disparos, que afastava até os mais temerários pássaros, muito dos quais nem sequer eram visados pelos tiros. Mas o facto é que quintas-feiras e domingos eram dias de tormento. Andar no campo era portanto um jogo perigoso e inglório, pois tudo fugia e os tiros podiam surgir donde menos se esperava! Quanto aos caçadores, muitos olhavam-me como se eu fosse assim uma ave rara e eu, por cuidado, deixei de exercitar esse meu prazer de me passear. Pois se eles andavam aos pássaros e eu era uma ave rara, o melhor era acautelar… e então desde que iniciei essas deambulações com o meu filho, redobrei de cuidados e o encerramento destas nossas actividades passou a coincidir com a abertura da caça. Por precaução. Não falo de todos os caçadores, nem nada me move globalmente contra eles. Conto até com alguns bons amigos que são caçadores, e sei também que estão de acordo comigo. Veio então a lei da não caça! Bem vinda! E essa lei veio devolver a milhões de portugueses vastas áreas de calma e segurança que anteriormente eram semanalmente abaladas por centenas de milhar de caçadores. Com a delimitação de áreas de caça, as condições de segurança de quem simplesmente quer gozar a tranquilidade de uma ensolarada tarde de sábado ou domingo aumentou. E não só por essa lei, mas também pelo apertar das condições exigíveis a quem se passeia com uma arma mortífera, que (sem dúvida) pretende utilizar. E é sabido como bebiam muitos dos caçadores, nas horas frias e entediantes de espera pelos incautos animais. Alguma coisa melhorou neste país!
Já agora, e a talho de foice, não será também altura de passarmos do civismo da caça em meio rural e silvícola ao civismo urbano? Se a situação da caça está bastante melhor nos campos e montes, não será altura de tentar transformar também as ruas das cidades em locais mais aprazíveis? É uma questão de cedilhas e de civismo… Explico-me melhor: se a caça nos montes está regulamentada e mais cívica, não será altura de se pensar em regular a caca urbana? É que muitos dos felizes possuidores de muitos dos infelizes cães (que não os cães de caça, porque esses não são passeados pelas ruas), acham que as ruas das cidades são excelentes para o alívio da tripa dos pobres animaizinhos. E nós, pobres utentes dessas mesmas ruas, temos de nelas progredir com cuidado, e com frequência evitarmos a “caca grossa”. Os mais incautos e mais afortunados, podem safar-se com uma limpeza depois de um destes escorregadios encontros; os menos afortunados podem vir a precisar de “concertar” um osso ou tratar de uma qualquer luxação causada por uma queda mais aparatosa.
Vamos lá… custa pouco ter um mínimo de respeito pelos outros. Os lisboetas tiveram durante bastante tempo, a obrigatoriedade de apanhar os cocós dos seus próprios bichinhos. Acho que a lei deve ter escorregado em qualquer coisa, porque Lisboa está outra vez mais suja. Mas com Lisboa (nós que por outras cidades vivemos) podemos nós bem. É em cada cidade que se deve incrementar essa regra elementar de higiene. E ela começa no civismo de cada um. As multas e outras sanções devem envergonhar quem as paga, mas não substituem o civismo. Esse, parte de cada um de nós. Quem tem cães, que os cuide, sem perturbar quem os não tem, ou quem deles sabe cuidar.
Em resumo, agora que já nos livramos da caça sem regras, é altura de nos livrarmos também da caca sem regras!

2004-02-11

Onde anda a nossa auto estima?

Tenho, nestes últimos tempos, falado sobre cidadania e consciência cívica. Entendo que Portugal e os portugueses têm vindo a perder consciência cívica e cidadã e consequentemente orgulho na sua cidadania. Daqui até à perda da sua consciência cívica e do civismo, foi só mais um passo. A situação é hoje caótica, porque a falta de civismo já afecta as nossas relações interpessoais. Exemplo disso são os múltiplos pequenos diálogos -desde o pedir de uma bica até ao pagar de um jornal- que se reduzem a monólogos (eu diria mesmo “quase-grunhidos”), sem qualquer partícula de simpatia ou reconhecimento do próximo! Esta rispidez e esta falta de respeito pelo próximo (e que portanto representa também falta de respeito por si próprio) parecem ser a forma encontrada por muitos para proclamarem a igualdade adquirida com a já longínqua Revolução de Abril. Explico-me melhor: durante o período da ditadura, havia uns (poucos ou mesmo pouquíssimos) que mandavam e outros (os restantes) que obedeciam. Para fazer cumprir as despóticas determinações dos que mandavam, havia duas instituições fundamentais: a PIDE e as outras polícias e (para os homens mais jovens) a incorporação nos batalhões disciplinares e posterior entrada num dos “cenários de guerra” das “províncias ultramarinas”. É bem verdade que, para a guerra, todos teriam que ir (a não ser que desertassem para o estrangeiro, renunciando para sempre ao convívio das suas famílias e amigos), mas o facto é que um processo disciplinar podia dar direito a duas comissões nos tais cenários de guerra em vez de uma como era normal. As mulheres, regra geral, não votavam e não tinham voz activa. Assim se vivia e, quem agora tem ataques de nostalgia por tais tempos, ou estava então na “mó decima”, ou tem a memória curta, ou ainda, e este é o caso mais comum, não tinha na altura idade para perceber o que se passava. Com o fim do fascismo (há quem diga que ele nunca existiu…), a restauração das liberdades e o fim da guerra colonial, todos os anteriores valores e tipos de relacionamento foram postos em causa. Falava-se então em socialismo, em sistema cooperativo, em auto-gestão, em suma, em novos sistemas de relacionamento de uns com os outros. A anarquia andava no ar e, não fosse o grande respeito (livremente aceite) recém-adquirido pelas Forças Armadas (o célebre Movimento das Forças Armadas ou MFA), e acho que teria havido mesmo uma guerra civil. É que todos andávamos à procura de conceitos e limites para esses conceitos: o que é a liberdade, o que é a cidadania, onde acaba a minha liberdade e a minha cidadania, é legítimo ou não ser-se nacionalista, para se ser cidadão do mundo é ou não preciso rejeitar-se o orgulho nacional. Estas perguntas mais ou menos explicitamente, andavam senão na boca, pelo menos no espírito de toda a gente. A resposta deveria ser dada pela própria evolução dos movimentos sociais. E é aqui que surgem os partidos como entidades organizadoras do nosso próprio pensamento. Neles residiriam todas as respostas necessárias. Mas os partidos, por mais antigos ou novos que fossem, eram também feitos de gente a aprender o que era ser-se democrata, o que era ser-se cidadão de pleno direito, o que era viver em liberdade. Com a súbita importância dada quase exclusivamente aos partidos, na sequência do 25 de Novembro, toda a responsabilidade da definição destes termos e do seu conteúdo passou para eles. Desde então, o jogo dos partidos tem-nos deixado a todos fora da discussão, fora da definição do que queremos ser, fora da discussão do que queremos que o nosso país seja. Hoje, somos um povo à procura de entidade cidadã, que não acredita nem se revê (se calhar felizmente) nos partidos e nos políticos de que dispõe. Neste capítulo, a entrada na União Europeia só veio baralhar as coisas, pois os limites da independência nacional foram postos em causa e tiveram de ser reequacionados. Não está aqui em questão a necessidade ou a bondade da nossa entrada para a Comunidade, mas as suas consequências em termos psicológicos. Porque nada foi feito em contrário, entramos em crise de auto-confiança, de crença nas nossas próprias possibilidades, e de identidade nacional. Logo, entramos também em crise de cidadania e de consciência cívica. Numa expressão, que de tanto utilizada já começa a estar gasta, entramos em crise de auto estima. É aí que estamos, segundo os entendidos. Resta agora saber como a poderemos recuperar. E se a recuperaremos com os partidos. Ou, pelo menos, com estes partidos, na sua actual formulação. A ver vamos… mas os partidos (e os políticos) que se cuidem!

2004-02-04

O elogio do cidadão António Valente

Ouvi há dias num noticiário, suponho que da Antena 1, que o Sr. António Valente, cidadão português da zona de Aveiro, tinha ficado bastante emocionado com o trabalho dos bombeiros durante os terríveis fogos deste último verão. Até aqui, nada de especial: houve milhares e milhares de portugueses a quem aconteceu o mesmo. O Sr. António Valente é um cidadão de 75 anos, com os escassos meios de fortuna próprios de quem trabalhou a vida inteira. Não tem comendas nem grandes estudos, nem qualquer projecção nos meios de comunicação social. Até aqui, e mais uma vez, nada de novo: essa é a posição da maioria dos cidadãos contribuintes deste país.
Então o que torna notável o Sr. António Valente? É que o Sr. António Valente, tal como todos ou quase todos nós, ficou bastante impressionado com os fogos deste último verão e emocionado com o trabalho dos bombeiros, a que assistiu através da televisão. Ficou sobretudo impressionado com as condições de trabalho e a falta de material de que se queixavam os bombeiros, e que era visível através das inúmeras reportagens que então se fizeram. Pois tal foi quanto lhe bastou para consultar a sua consciência, conferir o seu pé-de-meia duramente conseguido, e decidir que tudo o que pudesse fazer para ajudar os bombeiros, o fazia a si e aos outros que um dia precisassem: decidiu oferecer aos chamados Bombeiros Velhos de Aveiro, uma ambulância nova! E demorou até agora a obtenção da ambulância, em função das condições e do dinheiro de que dispunha. E foi agora que a ofereceu! E é exactamente aí, no passar do lamento à prática que o Sr. António Valente se torna diferente de todos nós!
Comoveu-me a atitude deste homem com a vida já feita, sem pretensões a nada nem sequer ao reconhecimento público do seu acto. Ouvi-o falar em breve entrevista e percebi que o que o movia era tão só a sua “boa consciência”! Não a “má consciência” que tantas vezes move gente com muito maior capacidade financeira, e que pretende com gestos aparentemente semelhantes (só aparentemente), uma forma de redimir publicamente os seus “pecados”, obter reconhecimento público e até, quem sabe, receber uma medalhita do poder… Mas este Sr. António Valente não! A ambulância saiu-lhe do trabalho de uma vida e não apenas do seu bolso! Foi a oferta da sua vida de trabalho à comunidade. Estamos habituados a ver os beneméritos, geralmente posteriormente promovidos a comendadores, contribuírem generosamente com uma ambulância ou até duas. Mas nunca, ou raramente, fica a sensação de que para isso tenham feito um grande esforço; antes parece que as suas ofertas são uma espécie de absolvição de remorsos. Não que o acto de oferecer não seja em si meritório, mas parece sempre que antes se fizeram –pelo menos- as contas à folha de impostos…
Confesso, em consciência, que não sei se este acto contribuirá para que o Estado se escuse à sua função de prover os bombeiros (profissionais ou voluntários) com todo o material que necessitam. Mas reconheço que o gesto do Sr. António Valente é um gesto de elevada consciência cívica e de pessoal reconhecimento do valor do trabalho e da acção dos bombeiros, a quem todos, sem excepção, deveríamos estar gratos. A começar pelo próprio Estado, que deveria ele também seguir o exemplo do Sr. António Valente e fazer alguns sacrifícios (neste caso público) e contribuir generosamente para o perfeito apetrechamento dos bombeiros.
Diz-se que em Portugal há pouco espírito cívico e de entreajuda. Mas haverá que questionar essa postura aparente do povo português. É que, se o exemplo do cidadão António Valente pode ser considerado raro, quase único, já o mesmo não se poderá dizer dos bombeiros voluntários. Não conheço país nenhum em que a percentagem de bombeiros voluntários seja tão grande quanto a que existe em Portugal. E não creio haver maior demonstração de entreajuda e de altruísmo, que a que é necessária para alguém se propor, a troco de nada, ajudar os outros nos piores momentos e nas mais dramáticas situações. Diria mesmo que os bombeiros voluntários são eles também, um pouco Sr.s Antónios Valentes! Bem hajam, um e outros!