Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-03-31

O essencial e o acessório, ou o elogio da idade

Ouvi ou li não sei onde, que os orientais se surpreendiam com o facto de nos países ocidentais as empresas e organismos públicos prescindirem dos velhos e os mandarem liminarmente embora. Recordo que o comentário era “Mandam-nos embora logo quando sabem mais!” Tenho pena de já não me lembrar do contexto onde apreendi este comentário, mas este é daqueles que até “fora do contexto” é digno de reflexão. Pois então não é que é verdade? Nas civilizações ocidentais, os velhos são quase matéria descartável em termos produtivos. Fica assim um ténue respeito por eles, mas o que dizem é, em termos gerais, simplesmente ignorado. O facto é que os orientais têm razão: põem-nos a andar logo quando sabem mais! Não estou aqui a advogar a prorrogação da idade da reforma ou sequer a retirada de qualquer direito de quem trabalhou uma vida inteira… Estou tão só a pensar que é um clássico ouvir-se “Imagina que mesmo depois de se reformar ainda continua a passar regularmente pelo emprego” ou, pior ainda, “Sim, ele decaiu muito depois de se reformar”. O que significa isto, de facto? Significa, em minha opinião, que por um lado há falta de enquadramento para os idosos e por outro, que esses mesmos idosos se sentem inúteis, quando acham que ainda poderiam ser úteis. E podiam! Já aqui defendi que os Centros de Dia deveriam ter uma relação mais estreita com os infantários e jardins-de-infância, de forma a assegurar aos mais jovens a ligação com a tradição e a cultura de que muitos carecem. E carecem porque os seus pais têm de facto pouco daquilo que sobra aos velhos: paciência e tempo! E saber! Esse saber de que prescindimos quando liminarmente os reformamos, em vez de os transformarmos em “trabalhadores livres de horário e isentos de responsabilidades executivas”! Ou seja, entendo que se poderia dar um impulso decisivo no avançar desta sociedade, se se levasse em conta (ou ao menos se ouvisse) o que os velhos têm para dizer (nomeadamente sobre os seus antigos postos de trabalho). É interessante observar que a figura típica do sábio é sempre um velho de grandes e brancas barbas! Mas também é verdade que se atribui a esses sábios um saber pouco rentável ou eficaz. Nada de mais falso! Basta recordar que nas actividades criativas em que a idade não dá direito à reforma (pintores, arquitectos, músicos, etc.), os mais velhos são os mais inovadores, criativos e eficazes. Vale a pena perguntar-mo-nos porquê. E a resposta é simples: a criação não se faz do nada, mas de uma sábia decantação de muita coisa vista, de muitos saberes, de muita vida. E aí, os velhos levam a palma a quaisquer novos! E isto que é válido para as actividades criativas, também é válido para o resto. Há uma serenidade ligada à experiência que os torna sábios. Não será por acaso que na língua francesa, por exemplo, as palavras “sabedoria” e “serenidade” são uma e a mesma! E é isso que as nossas sociedades perdem quando “se vêm livres dos velhos” mal eles chegam aos sessenta, sessenta e cinco ou setenta anos. “Logo quando sabem mais”, como diriam os orientais. Não se lhes peça que façam o que os novos podem fazer, mas sim que sejam o que os novos ainda não podem ser: sensatos, sábios e experientes e portanto inovadores, criativos e modernizadores. Dir-me-ão que nem todos terão estas características, mas o facto é que nesse ponto, os velhos serão o espelho da sociedade: haverá uns que se sentirão muito felizes por nunca mais porem os pés nos empregos (e desses, provavelmente, não rezará a história), mas outros haverá que poderão continuar a contribuir, sempre que queiram ou lhes seja solicitado, com a sua inteligência e a sua imensa sabedoria para a inovação, melhoria e verdadeira modernização dos seus antigos locais, métodos e organizações de trabalho. Se a distanciação nos faz sempre ver melhor o que sempre esteve debaixo dos nossos narizes, imaginem o que é essa distanciação servida por uma longa experiência! Será talvez a fundamental distinção entre o essencial e o acessório. E isso, faz toda a diferença.
País pobre é isso: esbanja sem pensar os recursos mais raros e preciosos. Neste caso, a inteligência, a sabedoria, a experiência, numa palavra: a velhice!
Como poderia ser diferente este país!

2004-03-24

Ai Primavera, Primavera...

Era hoje para vos falar da Primavera. Tinha pensado para hoje, uma crónica levezinha, de celebração de bons augúrios e nova pujança, de bom tempo e nova seiva. Mas a realidade faz-nos repensar a todo o momento o quotidiano, e esse não nos traz aparentemente nada de primaveril. Os governos e as oposições são velhos conhecidos que num país se respeitam, mas noutro logo se digladiam até à morte, ao sabor de si próprios e dos seus interesses; as disputas reproduzem quase sempre velhas quezílias de gestão administrativa e nunca inovações políticas que arrisquem votos. Mantém-se o poder em lume brando, já que a imaginação de lá saiu há bastante tempo, e as ideologias reproduzem verdades pensadas há mais de um século, quando ainda mal havia corrente eléctrica. Ou seja, genericamente, nada de novo e, quando nada há de novo, tudo é velho, no mais bafiento e imobilista que a palavra contém.
De novo, de novo, só o medo. Ou melhor, só um novo tipo de medo: um medo generalizado e cego, dirigido contra nebulosas informes e difusas. São os quixotescos demónios em forma de moinhos, ou de torres, ou de comboios, ou de dancings nocturnos. De novo ainda, o facto desse medo ser vivido à escala mundial, temendo quem não se conhece, quem não se sabe o que pensa, quem não se sabe quem, como e onde ataca, e o que quer com esses ataques. Essas nebulosas, esses moinhos, são tanto o Hamas palestiniano como o actual Governo de Israel, porque exploram o medo cego transformado em ódio ao inimigo. Inimigo esse que é afinal o desconhecido vizinho do lado, com quem teremos que partilhar a vida, ou então a morte. E moinho tanto é o Governo americano e os seus tentaculares interesses, quanto essa tentacular nebulosa a que chamam Al-Qaeda. Desconhecemos quais são os verdadeiros objectivos de uns e de outros! A não ser que acreditemos na heroicidade balofa do Governo Bush que diz querer libertar o Afeganistão do sinistro e misterioso personagem Osama Bin Laden ou na cruzada islâmica de Bin Laden que diz querer libertar o Mundo do satânico Governo Bush! Mas nem o Governo Bush acabou com Bin Laden, nem Bin Laden conseguiu acabar com o Governo Bush! Incompetência de parte a parte, portanto! A Al Qaeda tem desde então povoado os nossos pesadelos. Se era intranquilidade que pretendia infligir-nos, conseguiu! Desde então vivemos na ânsia de que se capture Bin Laden e que o terrorismo cego acabe. Mas acabará? Quem acredita nisso? “Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera”, diz o poeta. Nem o Inverno, nem qualquer pesadelo, digo eu. Disso, podemos estar certos. Porque o problema do terrorismo não existe: o que existe são os problemas (e os anseios, e os sonhos) de quem utiliza o terrorismo como forma de acção. E esses não acabam com a morte de qualquer pessoa, por mais importante que seja. E o que querem essas pessoas que têm vindo deliberadamente a morrer em nome dessa causa que o difuso Bin Laden diz abraçar (sem nunca no entanto, e tanto quanto se sabe, ter sequer sido ferido)? Quem sabe o que querem e como pensam esses milhares ou mesmo milhões de homens e mulheres (com pais, filhos, amigos, amores e desamores, como todos nós)? Que desespero e que força anímica os move? Não creio que o saibamos. Só gostamos ou desgostamos do que se conhecemos. Do que não conhecemos ou não sabemos, temos medo. E se nada sabemos nem os conhecemos, como os queremos combater e vencer? Com a exclusiva força das armas? Só matando-os a todos, um por um. E isso, acho que todos concordamos que é impensável, porque indesejável e impossível. É por isso que não me parece ingénua nem descabida e muito menos capitulacionista, a proposta do Dr. Mário Soares, de estabelecer conversações com a Al Qaeda e com outros movimentos que utilizam o terrorismo. Para tentarmos saber o que querem e porque o defendem. Porque de facto, não sabemos. A não ser que os que lhe criticaram a proposta saibam coisas que todos nós não sabemos. E se sabem, digam-no! Talvez assim a Primavera não tardasse tanto em chegar.

2004-03-17

A violência das armas será sempre menor que a violência da razão

Creio ser hoje inevitável falar e discorrer sobre o já chamado “11 de Março” em Madrid. Terrorismo? Certamente! Condenável? Em absoluto! Sobre quem são os culpados, há demasiadas hipóteses no ar… e quando essas hipóteses caiem por terra, podem trazer governos com elas! Tudo isso serão coisas que mais tarde ou mais cedo deverão vir a saber-se com mais segurança. De uma coisa tenho a certeza: o acto em si, independentemente de quem quer que o tenha imaginado, planeado, pago e executado, é hediondo. E qualquer uma das organizações apontadas poderia ser, neste momento, a autora. Ou seja, estamos perante duas organizações que utilizam métodos terroristas na sua acção. Mas a pergunta que me assalta é o que é de facto o terrorismo? Hoje, ouve-se falar em terrorismo como se ele fosse um objectivo, um novo credo ou uma nova doutrina política, e enquanto tal devendo ser combatido. Mas terrorismo, para mim, é uma forma extrema (e reprovável) de luta para a prossecução (ou afirmação, ou difusão) de uma ideia política (ou religiosa, ou outra) levada a cabo por um grupo de pessoas. Ou seja, o terrorismo é uma forma e não um conteúdo. Condenável, mas uma forma de luta e não um fim em si! Ou seja, pessoas psicologicamente sãs não utilizam a violência e o terror pelo simples prazer de infligir a violência e o terror! Esses serão dementes, tarados, fanáticos profundos ou desesperados em último grau. E mesmo esses, querem qualquer coisa com essa violência. Em minha opinião não há portanto “terroristas” simples, mas militantes ou seguidores de ideias que utilizam determinado tipo de violência (que designamos por terrorismo) como forma de atingir os seus objectivos. Quanto menos sabemos ou conhecemos esses objectivos, mais terroristas nos parecem, porque lhes desconhecemos a origem, e lhes vemos só as consequências. Não quero dizer que tenhamos de concordar ou sequer entendamos (na nossa lógica) as causas que os movem, mas tão só compreender que há de facto causas que os movem. Parece-me portanto demasiado fácil e falso tentar “combater o terrorismo” como um todo, porque o terrorismo serve causas, mas não é uma causa em si. Acreditar que se podem erradicar os terrorismos sem lhes determinar e eliminar as causas, é como acreditar que pode haver ovos sem galinhas ou galinhas sem ovos.
Tal como o coloca geralmente o Presidente Bush, há os “good guys” (que normalmente são os próprios americanos e os seus aliados) e os “bad guys” que são os que se lhes opõem e que lhes querem fazer mal “porque sim”. Como se o Mundo fosse um imenso filme do Arnold Schwarznegger em que uns são bons (porque sim) e os outros são maus (só porque gostam de ser maus) e a violência existisse só por si! Mas não é assim e nós, portugueses, sabemo-lo bem: Em 1961, Salazar anunciou ao Mundo (mas só nós acreditamos) que os terroristas tinham atacado Portugal em Angola. Depois em Moçambique, e depois na Guiné. E terroristas se lhes chamou até ao 25 de Abril, data em que até o próprio papa já tinha recebido esses mesmos “terroristas”, chamando-lhes “combatentes pela liberdade”, em sessão solene no Vaticano. Como terroristas começaram por ser os palestinianos da “Al Fatah” que hoje governam a Palestina com o apoio da Comunidade Europeia, dos Estados Unidos e o reconhecimento agreste do Estado de Israel. O terrorismo é portanto um pau de dois bicos: o bico dos “terroristas” e o bico dos que se lhes opõem. Mas por vezes as ideias de base e as causas já estão de tal forma confusas e difusas, que nada mais são que desespero. Será o desespero que leva a actos inconsequentes como o do dia 11? Horroroso, profundamente chocante e sem sentido. Porque se perdeu já o sentido das coisas e da vida e o respeito pela pessoa humana e por si próprio. Estaremos portanto (quase) no domínio estrito da violência, que contudo não pode ser confundida nem combatida como uma causa, mas como uma consequência que realmente é. Logo, não se pode combater ou desmantelar o terrorismo sem combater e desmantelar as suas causas. Não é portanto uma coisa se “good guys” e “bad guys”, de santuários ou de países “terroristas”, mas de choques políticos, religiosos e ideológicos. Por vezes, ao “terrorismo de grupos”, responde-se com “terrorismo de estado”: o actual governo israelita, retalia qualquer acto que considere agressivo por parte dos palestinianos com a destruição de casas e lares dos que julga próximos dos culpados. Sem julgamento, sem formar culpa, sem nada que não seja a sua presunção imediata. Sem sentido, portanto. Gerará assim mais revoltados e mais actos violentos desesperados e potencialmente sem sentido, porque ditados pela raiva. Porque não há aqui “moeda de troca” ou forma de chamar à razão. Será portanto, enquanto assim se agir, uma guerra de Talião infinita. Como infinita é a resistência dos povos enquanto se sentem injustiçados. A paciência é a melhor, mais terrível e mais aterrorizadora arma dos povos, sobretudo dos pobres. Á sua maneira, o Mahatma Ghandi era um terrorista que não usava armas. Aterrorizou os britânicos e conseguiu o que queria: libertar a Índia do domínio colonial. Jamais a força das armas que contra ele se levantaram, conseguiria derrotá-lo. Porque não era ele, mas a razão que lhe assistia. A força e a violência das armas será sempre menor que a força e a violência da razão, mais tarde ou mais cedo. É o que acontecerá no caso da ETA, das Brigadas de Al Acsa, ou de qualquer outro grupo violento existente ou que venha a ser constituído, que se lembre de utilizar exclusivamente a força e o terrorismo no seu combate político. É o que acontecerá no caso dos israelitas, dos americanos, dos espanhóis ou de qualquer outro poder constituído, que se lembre de utilizar exclusivamente a força no combate ao terrorismo tratando-o como uma causa em si e não como uma consequência.
Mas é ao que estamos assistindo.

2004-03-10

24, 25 ou 26?

Desde sempre, as redacções e testes das escolas foram motivo de riso. Em minha opinião, para além disso e porque as escolas acabam por ser um pouco a imagem futura do país, também foram (e são) motivo de preocupação. Se “rirá melhor quem rir por último”, aqui estamos mal, porque o riso vem primeiro e só depois a tristeza correspondente à asneirada que temos em presença. É também conveniente não esquecer que as asneiras não são coisa nova, nem produto exclusivo do eventual desnorte dos estudantes e das escolas de hoje. Houve mesmo, em tempos, um livro que consistia numa compilação de testes, exames e respostas avulsas de estudantes, chamado “A antologia dos cábulas”. Era infelizmente uma tradução de originais franceses (“La foire aux cancres”, chamava-se no original), o que não significa que por cá não se tenham produzido brilhantes exemplos: a ditadura é que não encorajava tais arrojos. Recordo alguns exemplos avulsos, produzidos e coligidos na região de Aveiro, ainda antes do 25 de Abril de 1974 (pelos inícios dos anos 70). Citarei de memória, pelo que me desculpo desde já de qualquer inexactidão na forma (que não no conteúdo) das peças que convosco quero partilhar. Deixo eventuais comentários ao foro de cada um.
Era a altura da tele-escola, da quarta classe pela televisão e ainda de algumas tímidas tentativas de educação de adultos. Muitos destes adultos queriam tão só obter a sua cara de condução, para isso tendo de passar o exame da quarta classe, escolaridade mínima obrigatória para tal. Em consonância com os valores então vigentes, o tema de uma das redacções foi “A Pátria”. Cabe aqui lembrar que nos livros da Instrução Primária, o conceito de pátria era ilustrado com um pitoresco desenho de grande harmonia e beatitude. Talvez por isso, reza assim um dos exemplos: “A Pátria tem escolas, igrejas e casas. A Pátria é muito bonita. Eu nunca fui à Pátria”. O ditador Salazar era também, e naturalmente, um tema recorrente. Eis dois exemplos: “Salazar fez escolas, pontes e estradas, e até fez a minha professora. É um gajo porreiro” Cabe aqui dizer que a professora deste diligente examinado se tinha formado em Coimbra, tendo aí sido aluna de Salazar. Outra: “Salazar é a draga-chupadeira que anda na Ria”. Como acima informei, estas redacções foram produzidas na região de Aveiro, onde na altura funcionava uma draga (para desassoreamento dos canais) que evidentemente levava o nome de Salazar (como tantas outras coisas como pontes, escolas, bairros, etc.). Não muito longe dali, havia (e ainda há) uma aldeia chamada Mata Mourisca, vá-se lá saber porquê… Tanto bastou para que uma redacção sobre o leite tivesse o seguinte texto:”Os animais que dão leite são a vaca, a cabra, a ovelha e o Senhor Prior da Mata Mourisca mas esse dá leite em pó”. Haverá também aqui que esclarecer que, por essa altura, se começou a fazer distribuição de leite em pó para crianças (mais higiénico que o imediatamente ordenhado), utilizando-se para isso os padres como meio privilegiado de chegar às populações.
Hoje, mais de trinta anos volvidos sobre estes exemplos, o fluxo não para. Valho-me para nosso descontentamento (e pequeno prazer imediato) de excertos de um teste produzido no mês passado (Fevereiro de 2004), na 2ª unidade da Área Interdisciplinar do Ensino Secundário Recorrente, em que se pedia para “caracterizar sinteticamente a situação vivida em Portugal antes do 25 de Abril de 1974, e que directa ou indirectamente conduziu a ele”. Agradeço à mão amiga que colocou este texto nas minhas mãos (que respeito integralmente), escusando-me a mais comentários, ilações ou sequer choro convulsivo:
“Portugal logo antes do 25 de Abril de 1974 era uma monárquia, em que os cidadãos viviam em função de um superior a que se chamava Heil Hitler, o rei era um tal de Salazar que fugiu para a América no 25 de Abril, com um outro chefe chamado Caetano Barroso.
Os cidadãos não podiam votar, nem falar desse mesmo partido, do rei ou uns mal dos outros, pois se falacem erão logo presos e mandados para a cadeia que ficava dentro de um buraco muito longe e fundo.
As pessoas eram obrigadas a trabalhar, a fazer o que lhes mandarem, sem qualquer objecção. E o dinheiro que recebiam ia todo, todo para o estado (trabalhavam propriamente para o estado), o que fazia de Portugal um país rico, mesmo muito rico dos mais ricos do mundo. Esse dinheiro foi roubado pelos militares do 25 de Abril, que eram soldados igenorantes e que fugiram com a massa para Espanha, Estrangeiro e Brasil, mas que deixaram por cá a democracia.
Também havia uma coisa que era a censura feita pelos pais em casa e que liam os jornais, revistas e viam os filmes e depois autorizavam ou não os filhos a ler e a ver. Também não se podia sair depois da meia-noite para a rua, nem havia nada para fazer ou onde ir, nem como, pois os carros ainda não tinham sido inventados."

2004-03-03

IVG, IFG ou IG?

Nos últimos dias e semanas, muito se tem ouvido falar em aborto, interrupção voluntária de gravidez (IVG) e direito à vida… Uns falam em “IVG” evitando por pudor a versão por extenso da expressão, outros tentam chocar-nos com palavras fortes como “aborto” e “morte de bebés” assumindo-se frequentemente uns e outros como se eles fossem donos da verdade e os outros a face visível de obscuros interesses. Para além de preciosismos de carácter técnico (tais como “a partir de quando existe vida”, “a partir de quando se é um ser humano”, “até quando se deve poder praticar a interrupção”, etc.), de uma coisa tenho a certeza: nenhuma mulher interrompe a gravidez “voluntariamente”, isto é, de livre vontade. Assentemos nisto: nunca ouvi o relato de nenhuma mulher afirmando que interrompeu a gravidez “porque sim”. Há sempre condicionantes profundas, graves e aparentemente inultrapassáveis que levam uma mulher a aceitar interromper a gravidez de uma forma tão brutal. Acho portanto surpreendente que a maior parte dos envolvidos na discussão do assunto sejam homens, sobretudo alinhados na opção penalizadora. Entendo que isso é relegar a mulher para um estatuto de absurda e incompreensível menoridade, num tema que não pode ser discutido e resolvido sem o seu pleno concurso. Cheira-me essa atitude a velho e a passadista sendo –além do mais- perigosa. Também não defendo que a mulher seja a única responsável (e responsabilizável) pela opção de interrupção da gravidez. Acho que esse acto tem de ser partilhado, tal como o acto de engravidar não lhe pode ser exclusivamente imputado. Não restam dúvidas que para engravidar são necessários um homem e uma mulher portanto, se aceitarmos que cada um tenha graus de responsabilidade diferentes, estaremos a aceitar para o homem um estatuto de adolescente ligeireza, contrastando com a pesadíssima responsabilidade imputada à mulher, independentemente da idade que tenham. É uma espécie de demonização do estatuto da mulher, que cheira a idade média.
Entendo portanto que toda a questão tem sido deficientemente colocada. O debate da questão da interrupção da gravidez não pode ser exclusiva de mulheres e muito menos de homens, e as posições não se podem situar em “prós” e “contras”. Porque “contra” todos somos, e disso não restam dúvidas. Trata-se tão só de penalizar ou não o acto e de tentar proporcionar ou não condições aceitáveis para a execução desse mesmo acto que ninguém deseja e que a todos traumatiza, e ainda de, conjuntamente, criar condições sociais, psicológicas e outras para que esse mesmo acto não se venha a repetir. Porque ele (o acto), incide em termos físicos, exclusivamente sobre a mulher, ela terá sempre de estar no centro do debate. É também uma aberração que sejam homens (ou pelo menos só homens), por melhor formação humana e jurídica que tenham, que julguem as mulheres acusadas, nos tribunais portugueses. Creio que é a este nível que a questão tem de ser (re)colocada. E sempre nos limites da sociedade civil. Não é em minha opinião compreensível que se alinhem argumentos de carácter religioso neste debate. Se o Estado Português é um estado laico, então as discussões de carácter religioso, além de ter de ficar de fora, não deverão sequer interferir na fundamentação legal a elaborar. Sabem-se quais as consequências da Concordata no tecido social português, pelo simples facto de durante décadas se ter proibido a dissolução civil dos casamentos católicos. Mas isso eram outros tempos, entretanto corrigidos de comum acordo. Não queiramos agora fazer o mesmo com um tema tão (ou mais) delicado do que esse. Não questiono evidentemente a posição da Igreja Católica sobre o assunto. Esse é um assunto que só a essa igreja (tal como a todos os outros sistemas religiosos presentes no tecido social português) compete dirimir. Não se pode é fazer incidir sobre uma população cada vez mais multicultural e multireligiosa a posição de uma única das suas componentes religiosas, qualquer que ela seja. Ou deixaríamos de ser um estado laico e sabemos o que na prática isso pode significar. Se nem a Itália é um estado confessional…
No limite, não creio que haja posições tão extremas que tenham de ser antagónicas, como tem parecido. Porque também não acredito em pessoas infinitamente boas ou infinitamente más nem em pessoas infinitamente sábias ou infinitamente ignorantes (e não necessariamente nesta ordem e agrupamento). Desde o defunto referendo sobre a questão, muita água passou debaixo de todas as pontes, e muitas atitudes foram clarificadas. Não se trata portanto de uma questão de esquerda ou direita, de homens ou mulheres, de religiosos ou laicos. Cada um desses intervenientes tem o seu lugar próprio. Trata-se de uma questão de saúde pública, com fortes incidências sociais, familiares e psicológicas.
Porque não então, em vez deste “circo” a que se tem assistido, e dada aparente sintonia de posições da vasta maioria dos representantes do povo português, a proclamação de uma moratória sobre o crime. Crime esse destinado um dia próximo a deixar de o ser. Porque não é propriamente de uma IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez) que se trata, mas antes de uma IFG (Interrupção Forçada da Gravidez) ou, para ser mais abrangente, de uma IG (Interrupção da Gravidez). E essa, dadas as características dramáticas de que sempre se reveste, não poderá ser humanamente criminalizável por ninguém.