Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-04-28

O Cidadão José Dias

Foi anteontem agraciado com a Ordem da Liberdade, o cidadão José Dias. Para a maioria dos portugueses, este nome pouco ou nada significa. José Dias nunca foi “famoso” (como agora se chama aos que vivem, sem vida própria, nas capas das revistas), José Dias nunca foi mediático (como agora se chama aos que frequentemente aparecem nos telejornais), José Dias foi e é, simplesmente, um cidadão que deveria ser comum. Nem desta vez teve honras de telejornal! Mas muito mais importante, José Dias foi e é, a tempo completo, um Cidadão do Mundo. E enquanto tal, pugna por coisas simples mas difíceis: o direito de cidadania. Foi por isso que o Presidente Jorge Sampaio decidiu (e muito bem) agraciar o Cidadão José Dias. Comecemos pelos seu próprio “Juramento de Cidadania”:
“Eu, José Dias, cidadão português, portador do BI n.º 851493, afirmo defender o Estatuto de Cidadão, assumir os direitos e as responsabilidades daí decorrentes, educar-me e manter-me informado dos assuntos públicos, empenhar os meus concidadãos no estabelecimento da liberdade, da justiça e da dignidade para todos, preservar a Democracia Representativa e lutar pela Democracia Participativa e de Proximidade, servindo quando e onde chamado.”
Escrevi ainda agora que José Dias deveria ser um cidadão comum, mas o facto é que é não é! Poucos cidadãos terão a coerência e a militância cidadã do Zé Dias! Se muitos fossem, provavelmente esta sociedade seria melhor e mais igualitária, seguramente mais solidária, indubitavelmente mais cívica e consciente de si e portanto, menos crispada e mais harmoniosa. Felizmente ainda, temos um Presidente da República que repara e reconhece quem milita, mesmo com sacrifícios da sua vida pessoal, pela causa da cidadania. Eu, para além da admiração e da velha mas sempre renovada estima pessoal que nutro pelo Zé Dias, sinto-me usufrutuário (não deveríamos sentir todos??) da sua militância social e cívica. E, além do mais, a atitude e acção do Zé Dias não é estranha aos meus primeiros textos deste ano, sobre cidadania. Ele e as suas acções inspiraram-me e deram-me alento para esta (também minha) cruzada pelo direito à cidadania. Propus aqui que todos e cada um de nós elegêssemos este ano de 2004 como o ano pessoal da cidadania. Sem ecos ou proclamações públicas, assim como um ano íntimo. Para que em todos nós se interiorize essa natural necessidade de agirmos civicamente para connosco e para com os outros e assim contribuirmos para um mundo melhor. Para os outros e para nós. Uma espécie de celebração íntima dos 30 anos do 25 de Abril.
Fico portanto duplamente feliz por ter sido este o ano em que a acção do Zé Dias foi publicamente reconhecida. A Ordem da Liberdade, atribuída ao Cidadão José Dias em nome de todos nós, é o reconhecimento de que todos somos usufrutuários da sua militância cívica em prol da cidadania. É ainda o reconhecimento (mais que justo) de que o país tem sido usufrutuário da sua militância cívica em prol da cidadania, que implica direitos e deveres.
O facto de o cidadão José Dias ser agraciado com a Ordem da Liberdade numa data como esta, intercalada entre o dia 25 de Abril e o dia 1º de Maio, não pode ser lida como acaso. O Presidente da República Portuguesa é Jorge Sampaio e Jorge Sampaio garante uma elevada ética de procedimento. Ela própria também cívica. Numa altura em que tanto se fala de presidenciais, custa-me divisar no horizonte candidatos que tenham este tipo de prática e postura cívicas, alicerçadas no rigor. Mas isso são outras histórias! Por hoje, celebremos o Cidadão José Dias!

2004-04-21

Abril com "R"

Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.

Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.

Manuel Alegre

Sem dúvida que este 25 de Abril merecia uma atenção especial. E Manuel Alegre em poesia o celebrou, em contraponto com a proposta governamental! Com a devida vénia, aqui o cito, para benefício de todos nós.
Cada ano que passa, o 25 de Abril terá entre nós menos testemunhas, menos protagonistas. Só a grande juventude dos que o fizeram permite que ainda hoje, trinta anos volvidos, a maior parte deles ainda o possam celebrar. É que o 25 de Abril foi isso mesmo: uma revolta de juventude contra a decrepitude balofa de um regime imutável e velho de quase cinquenta anos... Portanto, nada de confusões: o 25 de Abril teve mesmo “R”! E enquanto for celebrado por quem de facto o viveu, “R” terá de ter. Quem o viveu, sabe bem que o regime anterior só aceitaria a evolução à força, com um “R”. Foi portanto uma Revolução. Não tenhamos medo das palavras, nem branqueemos o seu significado! Para medo, bastou-nos o que vivemos até esse glorioso dia de Abril de 1974: medo de ser escutado, medo de ser preso, medo de ser torturado, medo de que um pai ou uma mãe perdessem (ou nem sequer conseguissem) um emprego pelo seu envolvimento político, ou até pelo de outros que lhe fossem próximos, medo de ir para a guerra num esquadrão disciplinar ou medo de ser forçado ao exílio! E outros medos, como o medo de ser diferente, porque a diferença era negada e logo reprimida: medo de perguntar, medo de ser homossexual, medo de ser negro, medo de ser cigano, medo até de ser mulher. Quase medo de ter medo, porque o medo era opaco! E de todos esses medos já quase nos esquecemos: uns porque querem esquecer, outros porque nunca puderam lembrar! Metade dos portugueses já nem soube o que foram esses medos de incertos suores frios, essas angústias negras de nada saber ou esses brancos silêncios de nem sequer perguntar. O nosso mundo era opaco! E tudo isso, meus senhores, não foi banido por uma qualquer evolução! De um Revolução se tratou, sim, de um Revolução! Foram cravos, sim, mas só depois: a Liberdade veio na ponta das espingardas, numa manhã de ténue nevoeiro. E nem um só tiro foi preciso para o dissipar: desapareceu sob um sol glorioso, levando consigo 48 anos de medos e angústias, rasgando prisões e libertando na passagem (e por isso passou) milhões de homens e mulheres nos quatro cantos do Mundo.
Evolução, só a que a Revolução permitiu! Viva o 25 de Abril!

2004-04-14

O sentido da vida

Ouço frequentemente a expressão “criar postos de trabalho”. É uma expressão não só ouvida em Portugal, mas um pouco por todo o Mundo. Até Bush, na mais liberal economia do Mundo, é louvado por criar postos de trabalho! E a imagem com que se fica é que se criam “postos de trabalho” para que as pessoas tenham “trabalho” e não pela necessidade real que possa haver do trabalho ou dos bens que elas possam produzir. Será assim? Francamente, não creio. Recordo-me de um episódio da excelente série inglesa “Yes Minister (Sim, Sr. Ministro)” em que havia um hospital que funcionava na perfeição, sendo até dado como exemplo a seguir, em termos de organização. Esse hospital tinha contudo um detalhe curioso: não tinha doentes! E o ministro era aconselhado a não obrigar o hospital a fazer admitir doentes, porque senão o seu símbolo de excelência poderia ser beliscado e passar a funcionar mal. Ou seja, funcionava bem mas para nada servia. É esta imagem que me ocorre quando se fala em criar postos de trabalho…algo que se faz para que haja trabalho, não para que globalmente se viva melhor. A imagem que se tem é que são as empresas que fecham fábricas (mesmo sem falir) ou fazem “downsizing” (despedindo trabalhadores) e os governos é que criam postos de trabalho! Parece ser uma questão de imaginação, essa de criar de postos de trabalho, e não uma forma de aumentar o conforto ou melhorar o padrão de vida de todos nós. Aparentemente, um non sense, um absurdo. Parece que a organização social e do trabalho corre permanentemente atrás da possibilidade de criar objectos, eventos, coisas prescindíveis; mas no entanto algo que permita às pessoas trabalhar para terem dinheiro para viver. Como se trabalhar fosse o objectivo, independentemente do seu fim. Como se fosse um objectivo viver para trabalhar e não trabalhar para viver! E no entanto, da esquerda à direita, todos se atropelam na ânsia de criar ou ajudar a criar postos de trabalho, “quantos mais, melhor”, que dentro de alguns anos serão objecto de “redimensionamentos”, de “racionalizações da força de trabalho” e de “melhoria da rentabilidade por trabalhador” e passarem a ter “quantos menos trabalhadores melhor”. Então, um novo ciclo se iniciará de invenção de novos “postos de trabalho”, “quantos mais melhor”, etc., etc…
Subitamente, recordo-me das minhas antiquíssimas leituras históricas e políticas, da minha incipiente formação teórica. Lembro-me de ter lido, em escritos do início da Revolução Industrial que, com o surgimento e ampliação da utilização da máquina, se deveria abrir uma nova era de bem-estar, em que o homem viria a trabalhar menos horas e a ter mais tempo livre para si e para o seu próprio desenvolvimento. Recordo até de um livrinho de Paul Lafargue chamado “O elogio da preguiça”, prefaciado por Lenine! Sim, esse mesmo, o Vladimir Ilich Ulianov, o Lenine da Revolução Soviética! Hoje, quando aparentemente tal situação é aparentemente possível (muitos de nós são pouco mais que operadores de máquinas), todos se atropelam para inventar postos de trabalho, que deixarão literalmente sem tempo e sem forças os seus privilegiados beneficiários. Há de facto qualquer coisa de ilógico na organização mundial do trabalho e da produção. O Homem e a Mulher deixaram de ser o objecto e a medida de todas as coisas, para se tornarem essencialmente num “factor de produção” enquanto trabalhadores, e num “factor de consumo” durante o resto do tempo. A dimensão humana de uma “sociedade dos lazeres”, do tempo para si próprio, da harmoniosa repartição do tempo de trabalho e de descanso e lazer, de que se falava e escrevia ainda no início dos anos sessenta, essa, perdeu quase todo o sentido. Isto, para já não falar do direito das crianças a viverem e conviverem com os pais, seus legítimos e verdadeiros educadores. Mas da Família falaremos noutra altura.
É necessário e urgente reinventar uma sociedade que privilegie o valor e o sentido da vida!

2004-04-07

A minha fotografia

Há algum tempo que ando para alterar a minha fotografia que encabeça estas “Crónicas ao correr da pena”. A que por aqui andava, tem aguentado estoicamente estes últimos dois anos e tal (quase três), embora sofrendo algumas injúrias. Menos injúrias que o próprio tempo me infligiu a mim, é certo, pois também tenho mudado nestes anos em que ela deu a cara por mim! Trata-se portanto de refrescar (ou melhor, de envelhecer) o retrato do cronista! Além do mais, e por questões que me são estranhas (julgo que de impressão), ela já foi escurecida e clareada! Vê-se portanto que a fotografia já estava gasta. Eu, no entanto, o escurecimento e o embranquecimento, ainda os entendi, pois poderiam dar-se por questões relacionadas com as estações do ano (o moreno provocado pela veraneante exposição solar e o sequente deslavamento que sempre se sofre no Outono/Inverno). Mas, confesso, quando me viraram ao avesso e me puseram o relógio no pulso esquerdo, o mesmo que segura a politicamente incorrecta cigarrilha, achei que tinha chegado o momento de rever a minha própria imagem. Pensei: se já preciso ser virado do avesso, é porque a fotografia já está mesmo gasta, e na tipografia já não sabem como melhorar o que não já não tem melhoras. E como nos tempos que vão correndo, as ilações sobre factos que se desconhecem (o virar do que quer que seja) é o dia a dia de muitos dos nossos média, achei que era melhor precaver-me! Decidi portanto substituir a já deslavada e avessa fotografia por outra um pouco mais moderna e politicamente mais correcta: sem cigarrilhas nem mãos ou relógios à vista! A retirada da cigarrilha, corresponde a uma mais precisa imagem de mim, pois que actualmente o meu fumo se situa mais no “fumo social ou ocasional” que no “frequente” em vigor à data da outra fotografia.
E aí está! Em época em que tanto há para escrever, reflectir e pôr em comum, decidi dar umas fériazinhas aos assuntos pesados, de harmonia com a quadra pascal e sobretudo primaveril em que vivemos. Na próxima semana logo retomarei o curso habitual deste espaço normalmente acre, pois de leve e brincalhão nada tem tido esta vida e este país para nos dar. Temos de ser nós a criá-lo assim, a partir do nada. Oxalá que o futuro próximo nos possa trazer crónicas e momentos de maior distensão, diversão e brincadeira, mas sinceramente, estou pessimista. Acredito que “atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir”, mas esses “outros tempos” que “hão-de vir” ainda demoram… Provavelmente, entretanto ainda tenho de mudar de fotografia outra vez!
Aproveito para dirigir a todos os que me lêem, desejos de uma feliz e tranquila Páscoa, que estendo também a todos os que laboriosamente confeccionam este nosso Diário do Sul.