Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-06-30

O baile de S. Bento

Já não se via tanta actividade jornalística em Portugal, faz décadas… A vertigem das notícias é algo semelhante ao que se passou logo após o 25 de Abril! Não na sua substância ou no seu conteúdo, mas no seu volume e quantidade de produtores. Parece que a Europa de repente se lembrou que Portugal existe e Portugal é o centro de tudo. Por cá se passa o Euro 2004 e tal evento trouxe a Portugal centenas de jornalistas. Assim, milhares de serviços e despachos são daqui emitidos diariamente, visíveis nos jornais e nas cadeias de televisão a que, pelo cabo ou pelo satélite também temos acesso. Mas de repente, Portugal era notícia “de fora para dentro”: o Primeiro-ministro de Portugal era candidato seguro ao cargo de Presidente da União Europeia. Pareceu-me estranho e, confesso, a princípio não acreditei no que via e ouvia. Mas com a insistência lá me fui habituando à ideia. Durão Barroso será o próximo Presidente da Comissão Europeia. Agora, isso é um facto adquirido, independentemente de questões de coerência pessoal levantadas pelos outros partidos. A mim, parece-me que Portugal só terá a ganhar com o facto de Durão Barroso vir a ser Presidente da Comunidade, independentemente do seu partido político de origem. Tal como foi importante que Freitas do Amaral tivesse sido Presidente da Assembleia-geral da ONU.
A preocupação seguinte é de ordem interna: quem será o nosso próximo primeiro-ministro. Não sou analista político nem dirigente partidário, e entendo que cada um tenha a sua ideia sobre o que deverá ser feito, de acordo com a sua própria consciência, de acordo com os seus próprios interesses políticos, de acordo com os seus interesses partidários. E também entendo que o Presidente da República, em coerência com o que ele próprio tem exprimido desde que desempenha funções, tente evitar eleições antecipadas. Há basicamente duas a três posições: uma que defende que é o partido mais votado nas eleições que propõe um primeiro-ministro e um governo ao presidente da República, e este tem a palavra definitiva na sua aceitação. Dentro desta posição, divisam-se duas outras “sub-opiniões”: os que acham que o actual presidente do partido tem legitimidade para nomear o seu sucessor e, enquanto tal, o próximo primeiro-ministro e outros que dizem que um novo presidente (e portanto um novo primeiro-ministro) só poderá sair de um congresso do partido do mais votado. A terceira hipótese são eleições gerais antecipadas, defendidas porque quem não reconhece legitimidade à “transferência” de poder dentro do partido mais votado, sem se passar pelas urnas. O que me parece é que de certa forma, todos têm razão… Explico-me melhor: a Constituição, lei fundamental deste país, prevê a indicação de um primeiro-ministro pelo partido mais votado, mas também prevê a queda do governo pela saída do primeiro-ministro. Recordo que, aquando da morte de Sá Carneiro, foi um dos três vice-primeiro-ministros que representavam os partidos na coligação eleitoral AD (Francisco Pinto Balsemão, oriundo do mesmo partido de Sá Carneiro) que lhe assumiu o cargo interinamente. Hoje, tal situação seria inaceitável: não só porque a actual coligação com o CDS-PP, por ser pós-eleitoral, não foi sufragada pelas urnas, como representaria um governo presidido por um representante de uma ínfima parte do eleitorado. Nem sequer se coloca a questão. Mas então, quem tem legitimidade para assumir o lugar de novo primeiro-ministro e de assim formar novo governo? Dentro do PSD, a coligação foi sufragada, mas o seu principal mentor “abandona o barco”. Não será tonto pensar que quem a sufragou, quem a apoiou, o tenha feito face ao perfil de quem a propunha e encabeçava, e lhe merecia esse crédito. Logo, à proposta “transferência” de poder pode não corresponder uma transferência da credibilidade pessoal dos seus actores. Durão Barroso não é igual a Santana Lopes. A exemplo da AD, seria a Manuela Ferreira Leite que competiria assumir o barco e terminar o mandato. Mas será que Manuela Ferreira Leite tem força para isso? Será que ela tem da coligação a mesma ideia de Durão? e de Santana? Será que ela está disposta a assumir, ponto por ponto, os compromissos e os acordos políticos de Durão com o CDS-PP? Pode ser que sim mas, será que o CDS sanciona esta hipótese? Aparentemente sim, pois será a única forma de se manter no poder: se houver eleições, o mais provável é o CDS saltar fora da esfera do poder por bom tempo. E o PSD, sanciona? Aparentemente não, ou pelo menos não com uma maioria confortável, o que significaria desde logo que só uma minoria do país a aceita. Conclui-se portanto que a coligação foi muito mais um acordo de inevitável partilha de poder entre pessoas após umas eleições, que um claro acordo entre partidos (necessariamente pré-eleitoral). Mais que um acordo ideológico, a coligação é portanto um acordo de gestão governativa, em que os nomes que o compõem foram individualmente discutidos. Portanto, aparentemente, ele não é transferível. Seria o verdadeiro “golpe de estado”, no dizer exactamente de Manuela Ferreira Leite.
Com a personalização cada vez maior das eleições (essa, não prevista na Constituição), é irrecusável que se vota tanto ou mais no candidato a primeiro-ministro quanto no partido deste. Portanto, uma coisa é certa: o governo que sair desta “embrulhada”, se se conseguir que alguma coisa saia, será certamente um governo fraco, dividido e com dúvidas de reconhecimento. Será então legítima a exigência de eleições gerais antecipadas. Ou então, a sua exigência desde já e a constituição imediata de um governo transitório, de iniciativa presidencial.
Conclui-se que, neste ponto, haverá que consensualmente alterar a Constituição. Para que esta espelhe melhor a actual realidade do poder pessoalizado, mais baseada no marketing que nas convicções políticas. Ou então obrigar a que se volte à salutar e saudosa discussão de ideias. O que parece infelizmente cada vez mais distante.

2004-06-23

O longo silêncio do Euro 2004

Tenho, como todos, a cabeça cheia de futebol… Eu, que nem sou especial amante deste desporto e ainda menos dos seus entrefolhos! Mas é impossível ficar impassível a tamanha avalanche de estádios, campos e meios-campos, de bolas, balizas e golos, de jogadores, seleccionadores e outros treinadores. Isto, para já não falar dos jogos, das transmissões e da publicidade. E das mulheres e das famílias dos futebolistas, e das suas sempre surpreendentes relações com Portugal e com o português. Portugal é onde tudo se passa e na prática, tudo em Portugal é futebol… e tudo parece estar bem! Irmanamo-nos todos nos jogos, no estádio ou em frente a um qualquer televisor. Desde o dia 12 de Junho que não há impostos, aumentos de gasolina, salários em atraso ou quaisquer maleitas sociais. O tiro de partida foi dado pelos festivais de música nos dias imediatamente anteriores ao arranque do “Euro 2004”, e depois disso toda a actividade não futebolística serenou, para não dizer que parou! Nem sei se há Diário da República… mas a haver, desconfio que devem estar a vir impressos a verde e vermelho, com uns laivos de amarelo, ou pelo menos com uma tarjeta em forma de bandeira no canto superior esquerdo. Já quase me surpreende que o próprio Presidente da República não ande de bandeira a tiracolo! Ou mais discretamente, com um “pin” na lapela. Já se sabia desde Galileu que o mundo era uma bola e girava. Agora confirma-se que sim, mas que é uma bola de futebol! Tudo o que de bom e de mau se passa, passa-se por causa do Euro 2004: desacatos, tempestades, assobios, ovações, maus-olhados, encantamentos, fascínios e ilusões! Vivemos num mundo mágico sem correspondência real. Acordaremos para essa realidade, dura e sem remissão, no fim do sonho. Qualquer que seja a data do fim do sonho. Para uns, o fim do sonho coincidirá como início das doces férias à sombra de uma qualquer bananeira ou palmeira num resort de luxo quase tão acolhedor quanto própria a conta bancária. Para outros, para quase todos os outros que assobiaram, ovacionaram, claxonaram, se embebedaram de pátria e se enrolaram e embandeiraram em arco verde-rubro com as quinas, as chagas, os sete castelos mouros e a esfera armilar, para todos esses que se emocionaram e se comoveram quase até à apoplexia, será o retorno à rotina triste dos dias a prazo, tal como o emprego e o vencimento, será o retorno à vida a prestações tal como o carro e a casa. Será portanto o retorno à realidade mais que palpável dos longos anos de salários curtos sem férias e quantas vezes sem féria. Será o retorno à dura realidade. Então, estará de volta o Caso Casa Pia, o Caso Bombardier, o Caso Apito Dourado (estará?) e todos os outros muitos casos a que poderemos chamar o Caso Portugal. O Caso Portugal que quase me atreveria a chamar Ocaso Portugal, não fosse a vontade inquebrantável deste Povo-Fénix que sempre, sempre, se soube reerguer das cinzas de si próprio ao longo de mais de oitocentos anos. O Ocaso do Euro será portanto o início desse momento ensurdecedor e agreste que se seguirá ao fim da ilusão, qualquer que seja o seu desfecho. Aí, no fecho dessa ilusão, olharemos para trás e veremos tudo o que o silêncio ensurdecedor do Euro não nos deixou ouvir nem ver. E então compreenderemos o longo silêncio do Euro…

2004-06-16

Lino de Carvalho

Não poderia deixar passar em claro o falecimento de Lino de Carvalho. É sempre brutal e triste a notícia do falecimento de alguém que se conhece, mesmo que seja um evento esperado.
Conheci Lino de Carvalho em Évora, alguns anos depois de ter vindo para cá viver. Era já na altura deputado por este círculo. Da televisão, tinha dele a imagem de um tribuno aguerrido, corajoso e afirmativo. De um homem de luta, de convicções e de causas. Pessoalmente, era uma pessoa afável, simpática e dialogante. Um homem que sabia ouvir e respeitar os outros. O rosto visível da Reforma Agrária, o defensor intransigente das conquistas do povo rural alentejano era um homem a quem se podiam expor pontos de vista diferentes ou opostos aos seus. Ouvia com respeito e contra-argumentava, se achava necessário. Mas sempre com enorme elegância, bom senso e cordialidade. Habituei-me assim a ouvir e respeitar o Lino de Carvalho, e essa era também a sua atitude para com os outros, qualquer que fosse a sua posição, ideologia ou condição social. Com uma humildade rara nos políticos. Era um homem que inspirava confiança e amizade. Foi portanto sem surpresa que vi, prestando-lhe a última homenagem, muita gente que se lhe opunha politicamente. Muita gente que nada obrigava a estar presente a não ser a relação pessoal sincera, muita gente a quem até poderia ser eventualmente incómodo estar lá. E em todos senti a tristeza da perda de alguém que se preza, de um amigo. Porque disso se tratou.
A Assembleia da República perdeu um excelente tribuno, o Partido Comunista um dedicado militante. A família perdeu um ente querido e todos nós perdemos um amigo. O país, esse, perdeu um homem bom, dos que fazem falta. Dos que há poucos.

2004-06-09

O meu voto

Estamos em plena campanha eleitoral! Dentro de escassos dias, todos teremos já votado. Segundo as últimas sondagens, este “todos” que empreguei parece ser demasiado … É quer aparentemente, menos de metade dos potenciais votantes irão exercer esse seu direito. Há uma espécie de apatia não só em relação às eleições, mas mais generalizadamente em relação a toda a vida política. E a verdade é que a vida política, longe do empolgamento dos idos anos setenta, da época de adesão à comunidade ou até da substituição do Escudo pelo Euro, se encontra entre os temas de grande tristeza e pessimismo nacionais. As comparações com o desenvolvimento de outros países da Europa julgados semelhantes ao nosso, o congelamento dos salários, o aumento do custo de vida e os despedimentos deixam um travo amargo na vida política portuguesa. Assim se entende que os portugueses tentem encontrar noutros campos menores – no futebol, no desporto, na música- as alegrias que lhes faltam no dia-a-dia mais pragmático da fábrica, do escritório ou do campo. E que tentem reflectir nalguns dos protagonistas desses campos –Mourinho, Figo ou os “famosos”- o sucesso e a vida com que eles próprios sonham e que acham que seriam capazes de conseguir. Não é surpreendente, portanto, o súbito afluxo de bandeiras nacionais, não só nos campos de futebol, mas também nos recintos dos festivais de música. É assim como que uma colagem aos sucessos que se auguram à Selecção e, na prática, uma tentativa de estar, ao menos por uma vez, do lado do vencedor. Ou pelo menos, do lado de um grupo de reconhecidamente “bons” com que se identificam. Em português rápido, é como se se dissesse “eles elevam a bandeira e a malta vai de boleia”… Não creio, portanto, que seja uma manifestação genuína de amor pátrio ou o retorno a uma relação natural com a bandeira ou com o hino. Se assim fosse, após as derrotas da “Nossa Selecção” no último Mundial de Futebol, a moda das bandeiras nacionais teria continuado, mas desapareceu. É por isso que fora do futebol, do desporto e dos festivais é difícil ver bandeiras nacionais! Talvez daqui a pouco, durante os Jogos Olímpicos, mas já serão mais raras.
O desencanto pela vida de todos os dias e pela vida política, reflecte-se através do voto ou, como penso que irá acontecer, através da sua falta. A abstenção reflecte, em minha opinião, o desencanto, a descrença e a falta de utilidade que vemos nas instâncias europeias. Pessoalmente acho que não é assim, mas o facto é que poucos ou nenhuns candidatos nos explicaram porque é que a Europa nos é fundamental, ou porque é que os deputados que elegermos nos podem ser úteis. Ficaram-se pelos ataques pessoais. E assim é difícil viver. Este desalento amargo que carregamos faz-nos descrer neles e em nós. E sem amor-próprio pouco ou nada é possível. E já se sabe que o amor-próprio dado pelos futebóis é sempre sol de pouca dura. Haverá que entender que as eleições são o melhor método, enquanto outro não houver, de expressarmos o que pensamos e o que queremos. E, de certa forma, de participarmos por alguma forma nas grandes decisões que em nosso nome serão feitas. Em minha opinião, o melhor voto útil é o voto no partido que julgamos melhor nos representar. Independentemente de produzir deputados ou não. Servirá sempre para reforçar aquilo que esse partido virá a dizer no futuro. E será sempre melhor que a abstenção. Porque uma abstenção é uma demissão, é mais um “cruzar de braços”. E isso favorece todos os partidos de que não se gosta, ou que entendemos não nos representar. E isso, independentemente de quem “ganhe” as eleições, porque nestas eleições não haverá ganhadores; só perdedores. E esses perdedores não coincidirão exactamente com os partidos que não elegerem ninguém. Não esqueçamos que, mesmo depois dos futebolistas voltarem para casa (com ou sem a taça embrulhada na bandeira), serão os políticos que elegermos que, a coberto dessa mesma bandeira nacional, em nosso nome tomarão posições e votarão leis. Se nós não tivermos votado, nunca os poderemos responsabilizar por nada. Não poderemos nunca dizer que eles nos leram o pensamento ou que nos traíram as expectativas. E serão sempre mais responsáveis e responsabilizáveis que os futebolistas do nosso contentamento ou descontentamento. Independentemente da escandalosa diferença de salários que uns e outros ganham. Independentemente da escandalosa diferença de salários que uns e outros têm de qualquer um de nós. De uma coisa poderemos ter a certeza: nem uns nem outros sobreviveriam sem nós. Nós somos de facto, a razão de ser de uns e de outros. Por isso temos a responsabilidade de votar. E também o direito. Se o voto fosse assim tão desprezível, o número de democracias no Mundo seria maior. E não é. Há que colocar cada um no seu lugar, e os deputados europeus são eleitos por nós. E há que lhes exigir que se esforcem pelo menos tanto quanto nós nos esforçamos, e nos prestem contas dos seus desempenhos, principescamente pagos. Sempre em nome de todos nós.

2004-06-02

O terrorismo somos nós próprios

Tem-se ouvido nestes últimos tempos falar bastante de segurança. O legítimo medo das acções de grupos suicidas torna a nossa vida um pouco mais insegura e psicologicamente arriscada. Ataques como os do 11 de Setembro, do 11 de Março ou os ataques quase diários em Israel são aparentemente fáceis de levar a cabo, e vêm a provar-se eficazes do ponto de vista de quem os executa. Mesmo porque não será nunca possível prever o que poderão imaginar a seguir. É evidente que haverá que contrapor o terror dos ataques das forças organizadas de países que se arrogam poder policiar o mundo. Os Estados Unidos, alguns países europeus e Israel estão neste caso, mas os seus objectivos localizam-se lá longe, na antiga Jugoslávia, no Afeganistão, na Palestina ou no Iraque e, portanto, não os sentimos como uma ameaça directa. Podemos não os entender nem subscrever, mas não constituem para nós (portugueses, europeus e ocidentais) uma ameaça ou uma insegurança. Mas não queria, nem aqui e nem agora, tomar partido sobre quem tem razão e quem a não tem, nem é sobre isso que me proponho discorrer. É que com tanta preocupação de segurança policial, têm-se descurado outras seguranças que me parecem tão ou mais importantes. Há ameaças bem reais e presentes e, pior que tudo, mais universais e perenes! Falo dos em cada ano acrescidos riscos de incêndios incontroláveis nas florestas, falo do sempre presente risco de um sismo de grandes dimensões, falo dos crescentes riscos de fortes inundações. Por outras palavras, andamos nós com o “credo na boca” relativamente aos ataques terroristas, enquanto os terrorismos naturais são cada vez mais ignorados ou esquecidos, embora cada vez mais presentes e ameaçadores. Pergunto se estaremos todos bem conscientes sobre o que teremos de fazer (ou não fazer) se houver um sismo? Ou um grande incêndio urbano. Recordo o dramático incêndio da Baixa de Lisboa, e das consequências que ainda hoje, mais de quinze anos depois, se fazem sentir. Mas nós podemos contribuir para a nossa própria segurança! Será que quando estacionamos mal um automóvel, só nos preocupando com a nossa própria comodidade, medimos quais poderão ser as consequências se um sismo ou um incêndio) ocorrer? Será que quando atravancamos as ruas e os passeios de carros (só nos preocupando com a nossa comodidade e os riscos de multas) alguma vez pensamos no que tal poderá contribuir para a morte de muitos (inclusive de nós próprios), em caso de catástrofe? Isto, para já não falar da violação que tal constitui à liberdade e autonomia todos, em especial de quem não tem as suas capacidades plenas. Recordo os velhos, as crianças e os deficientes, que hora a hora somam agressões que os mais comodistas de nós os obrigam a sofrer. São questões de civismo que todos os dias e em toda a parte vemos atropeladas, por um egoísmo de que cada vez mais somos autores inconscientes e potenciais vítimas. Um pouco mais de civismo, de respeito pelos outros (e portanto por nós) e tudo seria um pouco menos dramático. Acho que chegamos a um ponto em que a falta de civismo já nos atinge como ameaça à nossa própria integridade física. Os carros um pouco mais ordenadamente estacionados e os eventuais acessos de viaturas de urgência (bombeiros, ambulâncias, polícia, etc.) seriam muito facilitados (e sabemos que a rapidez é nestes casos fundamental); as obras mais bem assinaladas e balizadas e os riscos de acidente diminuiriam (quantas vezes nos vemos obrigados a andar na faixa de rodagem, por ocupação dos passeios?). Quantas pessoas não tentam ludibriar as fiscalizações e as regras camarárias para tornar mais baratas, rápidas ou apetecíveis as suas obras, esquecendo que, em caso de catástrofe, serão elas as mais beneficiadas pelo cumprimento das regras? Dou como exemplo -único para não ser maçador- a construção nos leitos de cheias. Infelizmente, estes exemplos poderiam ser multiplicados à exaustão, em todos os domínios da actividade humana. Seremos co-responsáveis não pelas catástrofes, mas pela sua extensão, se não modificarmos a nossa forma de nos relacionarmos com os outros e com o meio em que habitamos. Não quero tentar desculpar ou arranjar culpados por tal estado de coisas, embora tenha uma ideia sobre isso, mas o facto é que a situação já é tão dramática, que é urgente que nós, todos nós, façamos alguma coisa para contrariar o rumo que esta falta de civismo tornado insegurança está a tomar. É que, melhor ou pior, dos “terroristas encartados”, temos alguns milhares de polícias que se ocupam, mas nós somos vários milhões e não há polícia que resista!