Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-08-25

O meu S. Luís Rei de França

Crónica 166




Nasci no norte de Portugal, numa pequena aldeia do Distrito de Aveiro. Era uma zona pobre, em que as pessoas cultivavam o campo e viviam disso. Era uma vida dura feita a pé descalço ou de tamancos, em que as únicas ajudas visíveis eram as juntas de bois que tanto puxavam o arado como carregavam os produtos da terra. Ou ainda, giravam paciente e infindavelmente à volta das pesadas noras dos poços, para que os campos fossem regados. E ainda iam, chiando as pesadas rodas dos carros, aos pinhais carregar enormes quantidades de mato, caruma, galhos, pinhas e pequenos troncos que se utilizavam quer nas “camas dos animais, quer nos fornos de pão e nas lareiras invernosas. Era uma vida “remediada”, sempre com o credo na boca não fosse um ano mais ingrato deitar a perder muito do pouco que tinham. Os produtos excedentários eram vendidos nas feiras próximas, trabalho de mulheres, canastras à cabeça, pelos fermentos para o pão, pelo sal para a ceia, pelo açúcar do primeiro almoço ou para algum tecido de roupa domingueira, que haveria de durar anos e ser “virado” de uns para outros. As alegrias eram escassas e só a grande festa da aldeia galvanizava tudo e todos. Era o grande arraial e o dia de folgar a sério! Havia festões, cruzeiros, foguetes e bailarico. E até petiscos e carnes várias e vinho, mais até que o necessário. Mas o ponto alto era a procissão, que saía da capela e percorria toda a freguesia no último dia de Agosto. A banda de música encerrava o cortejo oficial, que abria com o pálio que resguardava o senhor prior, seguido do garboso S. Luís Rei de França, padroeiro da aldeia, bem de pé no seu andor. Consta que, a caminho das Cruzadas, por ali terá pernoitado tão distinta personagem, marcando assim com a sua celebrada santidade, tão remoto lugar. E a aldeia retribuía-lhe, anualmente lhe encaixando no punho fechado sobre a multidão, o primeiro cacho de uvas maduras de que havia notícia. E esse cacho de uvas, exaltadamente procurado por toda a aldeia, prenunciava os tempos um pouco mais leves, ou pelo menos mais joviais, das colheitas, das vindimas e das desfolhadas e ainda da fundamental matança do porco. Mas veio a guerra ”do ultramar”, nessas tão remotas quanto africanas colónias, fugazmente entrevistas pelos mais afortunados nalguma folha do livro de leitura escolar. “Coisas dos livros”. De resto, poucos tinham tido a coragem de as demandar, preferindo-se os promissores brasis ou as refulgentes américas de onde sempre se voltava melhor. E a pobreza aumentou ao mesmo ritmo que os braços diminuíam, absorvidos por essa incompreensível guerra “dos de Lisboa”. Ou então, emigrando de moto próprio e fugindo “a salto” à miséria crescente da guerra e das suas consequências. E “a salto”, sem passaporte nem visto, só se vai até à França, à Alemanha ou ao Luxemburgo. E muitos campos entraram em pousio forçado. As mulheres tomaram o jeito das rédeas e o domínio dos aguilhões, enquanto esperavam pelas remessas da mítica Europa, quase transformada num novo Brasil. E de lá a vista era outra. As forças que tutelavam o pensamento dos homens davam-lhes mais espaço. Até os governos podiam ser derrubados! E os métodos de trabalho rendiam mais. Mas viver em “bidonvilles” não pode ser para sempre e alguns, já cansados de tanta vida, pecúlio feito, foram voltando. Por cá já encontraram os que, cansados de tanta guerra, tinham conseguido voltar inteiros ou quase. E as imagens que uns e outros traziam nos olhos gaseados dos fumos de Paris ou dos matos de Angola já não permitiam recuo. E, onde antes só havia pinhal, surgiram pequenas indústrias, e onde antes havia bois, passou a haver vacas, arredondando assim o pecúlio familiar com algum leite vendido às nascentes cooperativas. Depois vieram as motorizadas para aceder a empregos mais longínquos mas mais bem pagos. E depois as moto cultivadoras, assim melhor aproveitando os já escassos tempos e braços deixados livres para a agricultura. Tal como as culturas híbridas (a quem ninguém ainda chamava “transgénicos”), de maiores “retornos”, como mais longas e maiores espigas de milho, que tão mau jeito davam nas desfolhadas! Ou as vindimas com tesouras de podar automáticas, permitindo que dois fizessem o trabalho de vinte! E todas as actividades de comunitárias, de entreajuda e de afecto foram sendo abreviadas, optimizadas e substituídas por meios mecânicos. Sem apelo nem agravo. E sem afectos.
Quando hoje vou à minha aldeia no final de Agosto, ainda vejo por vezes a procissão. É que a paróquia, de tão grande se ter tornado, já só um ano em cada dois repete o percurso. Tudo mudou! A capelinha é agora um pavilhão pequeno mas modernaço, de alumínios e vidros. Até o meu S. Luís Rei de França está mais rosadinho, mais sorridente e (parece-me) mais pequenino, após uma ida a um restauro tão polémico quanto longo! Coisa que só os que lhe estiveram no caminho podem desvendar… Na mão, e porque as vindimas foram “deslocalizadas” para outras paragens de maiores produtividades e menores salários, um vistoso mas incaracterístico e “supermercádico” cacho de uvas… do Uruguai!

2004-08-18

O “fast-qualquer-coisa”

Quando estamos de férias é que normalmente aproveitamos para por os sonos em dia, os afectos em dia, os prazeres em dia, numa única expressão: a vida em dia. E isto porque aparentemente a nossa vida de todos os dias não nos deixa tempo para muito mais do que o trabalho! Ele é um sono rápido depois de fechada a televisão, ele é um beijo rápido no/a companheiro/a da vida, ele são as refeições rápidas (quase telegráficas) durante resto do dia que nos pertence. É a moda forçada do “fast”! A palavra tem tido um uso desmedido. E a palavra não é “rápido”, mas sim “fast”, porque dizer “fast” é ainda mais rápido que dizer “rápido”! E não há tempo a perder! E assim vamos vivendo uma vida sistematicamente adiada, na ânsia de virmos a ter tempo depois. Somos emigrantes dentro da nossa própria vida, em nome de um dia podermos “voltar a nós” com calma e tranquilidade. Mas muitos já lá não chegam: deparam-se antes com enfartes e outras consequências desta terrível “moda fast”. Uns ainda se safam com poucas mazelas, outros partem para um estilo limitado de vida ou, pior ainda, partem desta para outra. E o que ganharam com isso? Nada ou pouco. Porque muito do que iriam ganhar, perdeu-se pelo simples facto de não terem chegado onde pretendiam. E ficar a meio caminho é muitas vezes ficar sem nada. E mesmo os que chegam incólumes mas cansados ao fim dessa emigração interna, são sujeitos a reformas tão estreitas quanto as vidas que levaram, ou já nem têm animo para usufruir o que conseguiram amealhar. E vêm-se constrangidos a arrastar vidas ocas até ao fim. Então o céu aparece como uma natural redenção, como a única felicidade possível de sonhar.
Este parece ser um discurso de anti-produtividade e anti-aforro mas não! Estudos recentes apuraram que a sesta, por exemplo, faz aumentar a produtividade, porque contribui para um maior equilíbrio físico e psíquico. Finda a sesta (necessariamente curta), a cabeça está mais desperta e funciona melhor. Então se a sesta coincidir com a hora de maior calor do dia, excelente! É bom para todos: para os que trabalham e para os que dele usufruem. E que dizer da comida? Da célebre “fast food”? Há quem goste e quem não goste, mas o facto é que bem não faz, além de contribuir fatalmente para a destruição dos nossos hábitos alimentares. É sabido que a gastronomia é a arte de utilizar e adaptar os alimentos e produtos que existem numa dada região, às necessidades da população aí residente e ao seu estilo de vida. Ao contrário da fast food, que foi concebida regra geral a milhares de quilómetros do local de consumo, para seres anónimos e indiferenciados. Seja a América e os seus hambúrgueres ou a Itália e as suas pizzas. Isto é, dificilmente terá uma adaptação às reais necessidades da população que a utiliza. Usam-se cá, obrigatoriamente, as mesmas receitas (e os mesmos preparados alimentares) que no Japão ou no Brasil. E se antes, comer fora era um acontecimento, hoje, o acontecimento é comer em casa! Ou seja, estamos agora muito mais expostos a uma má dieta que antes. Mesmo o tradicional frango português não é hoje mais que uma colecção de nutrientes, hormonas de crescimento e vacinas, onde por vezes é ainda possível (graças a aditivos para dar gosto) sentir um pouco do paladar do célebre “frango do campo”, já desaparecido em combate com o frango moderno de crescimento rápido. Porque o próprio frango é rápido! Ou melhor, é “fast”!
Mas o facto é que os perigos não terminam aqui: sabe-se hoje que a Europa perdeu 75% da sua diversidade gastronómica nos últimos cem anos. Os Estados Unidos foram ainda mais atingidos: 93% das receitas tradicionais desapareceram no último século! E naturalmente, a biodiversidade também se ressentiu! Todas as espécies animais que viram o seu lugar substituído por espécies necessárias à tal “fast-food” e à “fast-life”, viram perigar a sua sobrevivência! Estima-se que 33% ou seja, um terço das espécies animais estão extintas ou em vias de extinção! Quanto a plantas, o panorama é ainda mais desolador: trinta mil variedades vegetais extinguiram-se nos últimos cem anos! Mesmo que, pelo seu estilo “fast” de vida, você durma pouco, saiba que enquanto você dorme, pelo menos meia dúzia de espécies vegetais deixaram de existir entretanto: nada menos de vinte e quatro espécies vegetais deixam de existir em cada dia que passa! Portanto, parece-me que a rapidez, só por si, nada de bom pode trazer ao mundo! E há coisas que só o tempo pode dar. Recordo-me de uma história que se contava, de um grupo de vinicultores americanos que visitavam as adegas de uma região vinícola francesa. No fim da visita, perguntava um americano: ”Mas se utilizamos as mesmas técnicas para fazemos o nosso vinho, o que é que o vosso tem, que é muito melhor que o nosso?” Ao que um francês terá respondido: “Mais duzentos anos, meu amigo, mais duzentos anos!”. É o tempo! É o insubstituível tempo curvo de Einstein!

2004-08-11

Ardeu o meu país

Nada entendo de fogos. Só sei que o meu país ardeu de norte a sul. Tal como o ano passado. Depois das promessas de que tudo iria mudar, aparentemente a situação não melhorou. Parecia que já nada mais havia para arder mas ainda houve. E não houve lágrimas nem água nem nada que chegasse para apagar tudo o que ardeu. Nem para se perceber porque é que tudo arde. Monchique, Arrábida, Mafra, Alqueva, Murça, Caldeirão e tantos outros sítios, são novos pontos a negro no mapa de Portugal. Não se terá aprendido nada desde o ano passado? Sabemos que as mãos criminosas existem, mas também sabemos que não servem para justificar tudo; em particular a extensão e as proporções que os fogos tomam. Sabemos que as altas temperaturas potenciam os fogos e que estes se desenvolvem com uma rapidez impressionante. Sabemos que cada ano a situação em termos de temperatura não melhorará. Mas porque ardem tão intensamente montes e vales do nosso país? Muito se fala de mato rasteiro, de arvores secas, de cargas térmicas impressionantes, querendo com isso significar que as florestas estão cheias de caruma, mato, pinhas e ramos secos. Será que antes isto não acontecia? Aparentemente, não. Os pinhais e outras manchas florestais eram mais cuidados, mais limpos. Os fornos de pão (e de cozimento de cerâmicas e outros) eram consumidores vorazes destes produtos e o que por eles se pagava compensava o trabalho de limpar as florestas. Mas hoje é mais fácil, mais prático e mais económico ter fornos a fuel ou eléctricos, a partir de energias de importação que nos consomem as divisas. E as tais “cargas térmicas” ficam nas florestas à espera de quem as acenda, inadvertidamente ou não, para que de novo se aluguem ao estrangeiro, meios de combate que insistimos em não ter. Terá que ser mesmo assim? Será mais barato ter fornos a energias importadas? Imediatamente, sim, mas o facto é que a esse custo haverá que somar o custo dos fogos pela falta da limpeza a que a utilização desses materiais obrigava. E se o que se gastar em limpeza florestal for tão caro quanto o que se gasta no combate aos fogos, e assim se reduzir drasticamente a extensão destes, já estamos a ganhar. Porque ficamos com mais floresta, e ”de borla”. Se tivermos que subvencionar os fornos (e não só os de pão) e outros equipamentos de produção de energia que utilizem combustíveis alternativos (esses produtos da floresta que agora ninguém quer), estamos a ganhar ainda, porque ficamos com a floresta (quase) de borla e todos os recursos necessários são nacionais. É evidente que as coisas não são assim tão simples, mas haverá que constatar que os processos que têm sido tentados não têm funcionado. E os pirómanos não justificam tudo. Será sempre mais difícil propagar um fogo num pinhal limpo que num pinhal cheio de “cargas térmicas”.
O que é interessante é que eu acho que tudo está ligado… quando eu era miúdo, a vida processava-se de outra forma. Regrada pelas estações do ano. Comiam-se os primeiros morangos em Maio, as uvas no Verão, maçãs no castanhas no Outono e as laranjas no Inverno. Ia-se para a praia (quem ia, claro) no princípio do Verão, faziam-se as colheitas em Setembro. Era o ciclo das estações e dos campos. Mas a economia fabril e a industrialização da agricultura, alterou todos os dados dos nossos anteriores ritmos: comem-se morangos, uvas ou laranjas em qualquer altura do ano. Se não são produzidas em estufas no Algarve, vêm do Brasil, do Paraguai ou da África do Sul. Da mesma forma, as actividades sazonais desapareceram, e já não se recolhem as pinhas e a caruma em cada verão (quando estão secas e mais fáceis de transportar, e também mais combustíveis): liga-se à ficha um calorífero eléctrico! Não estou aqui a criticar nostalgicamente os antigos e mais duros trabalhos; só estou a enumerar algumas coisas que dantes se faziam e se deixaram de fazer. E o facto é que tudo está ligado e, quando se abandona uma actividade, há logo outra que se ressentirá desse abandono. Nada é inconsequente. E por isso (ou também por isso), os fogos são agora maiores que dantes. Haverá que reordenar os “ciclos de vida” e revalorizar e redar importância a coisas e práticas hoje caídas em desuso, e enquanto tal desvalorizadas. Há que entender em toda a sua extensão o que se perdeu e reencontrar novas fórmulas de reactivar muitas delas. O próprio modo de produção (agrícola, industrial, etc.) e a valorização ou desvalorização relativa das coisas e das actividades tem que ser repensada. Os fogos e a sua extensão é algo que entendo como a face visível de um grande iceberg formado de pequenos e grandes desajustes. Claro que é preciso combatê-los! Claro que são precisos meios e métodos melhores para o fazer. Mas, como em tudo, “mais vale prevenir que remediar”. E para prevenir, há que atacar as causas. E as causas, provavelmente, são muito mais amplas e relacionadas com as novas formas de vida do que aquilo que se possa pensar.

2004-08-04

A “silly season”…

Chegamos mais uma vez ao mês oficial do calor. Grande parte de Évora vai a banhos para Armação de Pêra e outros “resorts” (como agora se chama aos antigos empreendimentos turísticos) algarvios, e fica quase vazia. É a aberturas oficial da “Silly Season” (ou “estação parva”, em tradução livre), em que quase nada se passa de relevante, excepção feita aos dramáticos fogos florestais e ao denodado esforço dos bombeiros para que pouco se perca. A actividade está reduzida ao mínimo, como se o país fosse um enorme lagarto ao sol. Poderá este ano ser diferente, pois o governo, de tão fresco, ainda não deve ter direito a férias. Mas nunca se sabe! Quem trabalhou todo o ano, é que tem direito a elas, mesmo que não tenha dinheiro para mais que se fechar em casa e tentar esquecer-se o mundo. É por isso que resolvi aligeirar esta croniqueta, e dar-lhe um tom um pouco mais jovial. Decidi recorrer por isso ao livro “Pif-Paf” que um amigo em boa hora me ofereceu, do humorista brasileiro Millôr Fernandes. São frases retiradas ao acaso, mas que as mais das vezes, sem grande esforço, poderemos associar a eventos e situações de todos os dias e de todas as épocas. Assim, onde quer que passe as suas férias, delicie-se com um pouco do humor inteligente e mordaz do Millôr que, com a devida vénia, aqui cito*:

MINISTÉRIO DAS PERGUNTAS CRETINAS
Bicho-carpinteiro faz mobília moderna?
Pode-se passar noites em claro mesmo quando falta a luz?
Um juiz que recebe dinheiro dosdois lados é um sujeito imparcial?
A mulher do actor de teatro, quando ele chega tarde em casa, faz uma cena?
E a mulher do actor é um espectáculo?
Quem mata a sede vai preso?
Um músico pode ser preso por emitir notas falsas?
O vinho da Madeira é envernizado?
Uma galinha tem pena da outra?

PEQUENAS DEFINIÇÕES À FALTA DE MAIORES
Chama-se de antropófago um sujeito que chega no restaurante e pede o garçon.
Psicanalista é uma espécie de mágico que tira cartolas de dentro dos coelhos.
Chama-se défice isso que uma pessoa tem quando tem menos do quando não tinha coisa nenhuma.
Democracia é um sistema em que as autoridades não se importam com que o que você diz, desde que tenham os meios de impedir que você o faça.
A Universidade é um local onde a ignorância é levada a suas extremas consequências.
O pobre trabalha para comer. O rico trabalha para comer fora.
Círculo é uma linha que resolve ir dar uma volta.
Um planejador económico é um sujeito que não pode revolver um problema, mas organiza bem a confusão.
Chama-se entrevista política ao acto de falar naquilo que se devia estar fazendo.

PÍLULAS
O dinheiro não é só facilmente dobrável, como dobra facilmente qualquer um.
Cuidado, amigo: até um grande homem é capaz de um gesto de grandeza.
Os clássicos mudam muito de opinião para agradar aos que os interpretam.
Meus princípios são rígidos e inalteráveis. Agora, eu mesmo, já não sou tanto.
Toda uma biblioteca de Direito, apenas para melhorar quase nada os dez mandamentos.

… e pronto! Fiquemo-nos por aqui. Não esquecendo nunca que, como também diz Millôr, “A gente só morre uma vez. Mas é para sempre.”
Boas férias!

* “Pif-Paf”, de Millôr Fernandes, O Independente, Lisboa, 2004