Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-09-29

Acocorados e com o olho na fechadura!

Durante as últimas duas semanas, fomos sendo bombardeados com episódios especulativos do “folhetim Joana Guerreiro”, a menina de oito anos que desapareceu no Algarve. Neste preciso momento (noite de segunda-feira) é dada como morta por familiares, e desaparecida. O que quer que tenha ocorrido, será certamente sórdido. Terrível. As hipóteses que ao longo dos dias foram sendo desfiadas pelas televisões, não auguram nada de bom: desaparecimento, rapto, venda da menina a estrangeiros e finalmente assassínio por familiares (eventualmente mãe e tio), após um qualquer desaguisado provocado por um troco de uma compra... Devo confessar, no entanto, que esta última informação (do “desaguisado” e do seu eventual porquê), a obtive num jornal. Guardo para mim as emoções que experimentei ao longo do desfiar das hipóteses. O que não posso é de deixar de observar, consternado, a atitude voraz e quase sádica, mórbida e comercialista dos vários canais de televisão, difundindo as hipóteses que eles próprios iam sucessivamente aventando. O que vi pelas televisões, limitou-se a um interminável e soturno desfilar de mórbidos pormenores, suposições, hipóteses, bocas de vizinhos e comentários de gente alheia ao caso. A aldeia de Figueira (assim se chama a aldeia onde tudo terá acontecido) tornou-se num circo! Forasteiros (até de Évora, segundo uma das estações) de visita aos locais onde “tudo” (o que quer que tenha sido) aconteceu, como mórbido passeio domingueiro, magotes de “populares” à entrada do tribunal esperando horas para poder apupar quem quer que fosse que ia nos carros celulares, e um arraial de gente nas ruas de Figueira que fazia lembrar os circos do século dezoito, só faltando os ursos amestrados e as mulheres barbudas. Tudo foi servindo para alimentar pretensos telejornais, directos e especiais, que por sua vez alimentavam hordas de mórbidos forasteiros mais desejosos de cinco segundos de glória numa fugaz aparição televisiva, que colaborar no que quer que fosse. Um triste espectáculo de atraso cultural e cívico, explorado, fomentado e alimentado pelos canais de suposta informação deste país. Confesso que primeiro experimentei enjoo por tanta morbidez, mas depois, à força de tanto ver (era literalmente obrigado pelo constante bombardeio), fui assaltado por uma profunda vergonha! Vergonha pelas televisões que temos, vergonha pela atitude mórbida da gente, vergonha (mais uma vez) pelo aproveitamento escabroso que se fez de uma criança duplamente violada na sua integridade e na sua dignidade, por adultos que não olharam a meios para obter meia dúzia de tostões ou “shares” de audiência, e assim conseguirem vender espaço publicitário mais caro. Porque é disso que se trata. E então percebi também que o que move os média no caso da Casa Pia, não é o choque pelo que terá acontecido às crianças, mas a morbidez e a vendibilidade do caso. E então percebi porque houve quem tenha mostrado a sinistra decapitação de um refém no Iraque. E outra vez senti vergonha do país que amo e onde vivo, trabalho e tento educar o meu filho. Gostaria contudo de ressalvar (neste caso) uma impecável atitude que, com tanto barulho, quase não se notou: a PJ, a própria polícia que está (pelo menos enquanto escrevo esta crónica) encarregue de desvendar o caso, ainda mal se pronunciou. Não ouvi “fontes próximas da Judiciária” ou “fontes não identificadas da polícia” alimentarem qualquer especulação. De tanto arraial, ainda nem se notou que quem mais sabe, ainda quase não abriu a boca. Parabéns por isso! Esta atitude só vem demonstrar que tudo o que efectivamente se sabe do caso, pouco mais será do que o que acima escrevi. Não admira portanto que, perguntando eu o que “havia de novo”, a quem com bastante atenção via o telejornal num café, me tenha respondido um simples e conciso “Nada!” Isto, após mais de uma dezena de minutos de reportagens, comentários e directos sobre o caso.
Sinto de facto vergonha deste país, acocorado à frente de uma porta fechada, com o olho colado ao buraco da fechadura, morbidamente à espera que alguém, carregando um corpo esfacelado de criança, lhe passe em frente.
Haja ao menos decoro e respeito pela inocente memória da(s) Joana(s) Guerreiro

2004-09-22

Os velhos Emídios Guerreiros deste país

Emídio Guerreiro completou 105 anos há poucos dias! Com uma aguda consciência da sociedade em que vive e uma assinalável vivacidade de espírito. Parabéns, saúde e longa vida, é o que se lhe deseja, para que nos sirva de exemplo e nos continue a provar que a vida vale a pena ser vivida a corpo inteiro! Emídio Guerreiro é o exemplo de um ser humano completo, íntegro e coerente. A sua vida daria tanto um filme de aventuras como um manual ético e político. Mas há algo que me fascina ainda mais na idade de Emídio Guerreiro: é saber do insubstituível valor do tempo no amadurecimento intelectual do ser humano, e tomar consciência de que ele já é maduro há mais tempo que muitos tiveram de vida. Em termos corriqueiros, é pensar que se “a velhice é um posto”, já não há posto para ele! E a velhice é um posto porque há coisas que só se aprendem com o tempo. E essas coisas são mesmo as mais importantes. Pode saber-se muito ou ser-se muito vivido, mas não se ter sapiência. Essa sapiência, esse “wisdom” (que em inglês tem o sentido de sapiência e bom senso), essa “sagesse” (que em francês tanto quer dizer sapiência como tranquilidade) só se adquire com o tempo. É com a idade que vem o bom senso, a tranquilidade, a essencia das coisas. Diz-se que as crianças são puras e é verdade, mas são puras porque ainda são ingénuas. Agora os velhos são (outra vez) puros porque de tudo o que viram e viveram retiveram a essencialidade, a pureza das coisas. É portanto uma essencialidade consciente e elaborada, mas que tem o condão de ser simples. Porque simples são as coisas essenciais. E os seus juízos têm a particularidade e a liberdade de já não os envolverem: por muito que ainda vivam, já não serão eles dirigentes, decisores ou beneficiários directos. É por isso que na sua maioria, os velhos são tidos como inconvenientes, irresponsáveis e “fora da realidade”. É evidente que a distanciação à realidade pode levá-los a trocar Euros com Escudos, achar caro que é barato (ou o contrário) e miudezas assim, mas nunca os vi confundir guerra com paz, bem com mal, liberdade com opressão ou outros conceitos importantes. O tempo é de facto o grande decantador da vida, que vivemos vertiginosamente, sofregamente, apaixonadamente, sem provavelmente a amarmos. Porque só se pode amar o que se conhece e a maioria de nós não se detem um segundo para a observar, a saborear, para a conhecer. E assim passamos a maior parte da vida sem a ver. Quase sem viver. É por isso que ouvir falar um velho é sempre uma experiência exaltante de vida, e nunca tempo perdido. É por isso que falar com um velho é sempre tempo ganho. Assim se percebe que as crianças, quanto mais pequenas, mais agarradas são aos velhos. É que eles sabem transmitir-lhes a essencialidade das coisas da forma simples mas profunda que só a experiência pode dar. De quem nada tem a perder para quem tudo tem a ganhar.
É por isso que muitas vezes me questiono sobre se a democracia é o mais perfeito e universal dos sistemas. Na Guiné-Bissau, por exemplo, há tabancas (aldeias) que são geridas por um conselho de “homi grandi” ou homens velhos, a correspondente africana dos nossos antigos “homens bons”. É um conceito que acho interessante mas que choca com o de democracia. Agora que as mulheres já votam (em quase todo o mundo), não seria de se repensar o peso do voto? Por exemplo, aumentar o “peso” do voto com a idade. Ou ouvir obrigatoriamente um conselho de anciãos antes de se tomarem grandes decisões. Ou outra coisa qualquer que nos permitisse levar em consideração a opinião de quem já tudo viu e nada tem a perder ou a ganhar. Talvez houvesse menos guerras, menos fome, menos miséria. E talvez os nosso velhos, porque novamente úteis como só eles podem ser, vivessem mais felizes (e, quem sabe, mais tempo). Porque hoje, só poucos têm o privilégio de Emídio Guerreiro, de serem ouvidos e portanto se sentirem justamente úteis. É por isso que saúdo Emídio Guerreiro e nele, todos os velhos deste país!

2004-09-15

A dependência do Petróleo

O preço do petróleo tem sido notícia constante, nos últimos tempos. Sobe e desce quase diariamente, em função da estabilidade política nas regiões que o produzem. Com ele, sobem e descem a gasolina e o gasóleo. Mas a cada descida sucedem-se duas ou três subidas que arrastam mais cedo ou mais tarde os preços de quase tudo: transportes por terra, mas e ar, produtos industriais, produtos agrícolas e de uma forma geral, todos os bens. É impressionante a absoluta dependência que temos do petróleo. Mesmo energias que poderiam com vantagem ser produzidas por outros meios não poluentes, nacionais e gratuitos (geradores eólicos, barragens hidroeléctricas, painéis fotovoltaicos, etc.), repousam no petróleo que nunca produzimos nem viremos a produzir. Logo, quem controlar o petróleo controla quem dele depende! Torna-se assim mais claro entender o que se tem passado no Mundo. Entende-se por exemplo que, sendo o Afeganistão um local fundamental no acesso a importantes recursos petrolíferos e de gás natural (do Quirguístão, do Turquemenistão do Uzebequistão e de outras repúblicas), a administração Bush se tenha decidido pelo ataque ao sinistro regime do Afeganistão e não ao não menos sinistro regime da Coreia do Norte. E que, sendo o (outro) grande objectivo capturar Osama Bin Laden, essa luta tenha esmorecido e deliberadamente sido subalternizada. Pois se o acesso fácil ao petróleo foi atingido! E que, tendo as Torres Gémeas de Nova Iorque sido atacadas por grupo de terroristas de nacionalidade saudita, tenha sido o Iraque o alvo escolhido para descarregar a honra ferida da “Grande América” e “implantar uma democracia” em nome do combate a Bin Laden e seus sequazes. Mais, segundo nos conta Michael Moore, dos cerca de 120 sauditas que no 11de Setembro tiveram autorização de sair dos Estados Unidos sem sequer serem interrogados, contavam-se 28 da família directa do próprio Bin Laden, parceiros comerciais de longa data do Presidente Bush! Ironia do destino (ou talvez não), o mesmo país que se propõe implantar a democracia no Iraque, foi o que conseguiu a democrática proeza de eleger o seu actual Presidente com menos votos que o candidato derrotado Al Gore! Mas o Iraque é um imenso lençol de petróleo e lá estão das maiores reservas do mundo! E daí é que não há que fugir! Em particular sabendo-se oficialmente agora como sempre se soube (só acreditou no contrário quem quis) que as armas de destruição maciça (lembram-se?) eram pouco mais que uma balela. Não quero com isto branquear o regime assassino de Saddam Hussein, mas não acredito nas lágrimas de crocodilo da administração americana! Que teria muito que fazer se decidisse livrar o mundo de todos os ditadores! Contraditoriamente, recordo que em 1973, precisamente a 11 de Setembro, Richard Nixon (também republicano) optou por sacrificar o regime democraticamente eleito de Salvador Allende ao ditador Augusto Pinochet! E em nome de quê? Dos interesses americanos no Chile (na altura, os nitratos), não dos interesses dos próprios chilenos. Nada me move contra o povo americano, mas acredito que as sucessivas administrações defendem interesses muito específicos, que incidentalmente podem coincidir com os do povo americano. Quando não coincidem, é o povo (até o americano) o sacrificado. Provas? Veja-se quantos filhos de dignitários americanos (congressistas, senadores, governadores etc.) já morreram no Iraque. Ou em qualquer outra das guerras anteriores. Mas voltemos ao petróleo… É evidente que quem depender do petróleo, depende de quem o controla e vende. E quanto maior for a dependência do petróleo, maior será a dependência de quem o distribui, comercializa e controla. E Portugal depende em mais de 80 % do petróleo para a sua produção de energia! Quer isto dizer que a cada pequena subida do preço do petróleo, corresponderá uma subida na inflação portuguesa e uma perda de competitividade em relação aos países que dele dependem em menor percentagem (e que são, por exemplo, todos os países europeus).
Agora, levantam-se dois outros grandes “problemas”: a vertiginosa evolução do consumo na Índia e na China, que só por si representam mais de um terço de toda a população mundial, que até agora quase não consumia petróleo! Só para dizer que, sem grandes análises, com a entrada destes dois parceiros como compradores, o preço do petróleo não mais terá tendência para descer! E, ou Portugal começa urgentemente a recorrer a outras fontes energéticas, ou provavelmente não terá viabilidade como país independente. Não que perca a sua independência formal, mas que passe a ter todas as decisões a si referentes, tomadas no exterior (no mesmo sentido em que o próprio Iraque não é um país independente). Compete-nos só a nós, portugueses, contribuintes, votantes, cidadãos, exigir que quem nos governa se debruce urgentemente sobre esta questão. E a resolva com o concurso de todos. de outro modo, é bem provável que tal não venha nunca a acontecer.

2004-09-08

Borndiep, Assunto do Mar

Devo dizer desde já que sou contra o aborto! Devo também dizer desde já que não conheço ninguém favorável ao aborto. Absolutamente ninguém. Devo ainda afirmar que enquanto homem me sinto envergonhado por haver um tipo de crime que só atinge um dos sexos: precisamente o crime que tem inevitavelmente na sua origem a junção dos dois sexos. Então, não é essa junção que se condena (o que à luz de algumas morais, ainda poderia ser entendido), mas tão só o facto de a mulher ter engravidado (sem vontade? sem condições? sem idade?). Como se o tivesse conseguido sozinha. Ou como se “o outro”, porque inconsciente, fosse inimputável. Precisamente por isso, há ainda algo que me deixa perplexo: é que a grande maioria dos que são defensores da condenação das mulheres em tribunal, são homens. De batina ou não, o facto é que a maioria dos porta-vozes dos movimentos ditos “pró vida” são homens! Precisamente quem nunca irá parar a tribunal! Contradição? Não creio, mas dá que pensar. E acho que aqui se poderá aplicar (com ironia, é certo), a velha frase “Freud explica”.
Choca-me o facto de haver cidadãos (e cidadãs) que gostariam de ver na cadeia mulheres que abortaram. Não seria melhor o reconforto, a compreensão ou a cristã compaixão, do que o atirar pedras, condenar e prender? Quem sabe se, após tão violenta agressão, um pouco de compreensão não teria efeitos posteriores mais benéficos? É que não será nunca na cadeia (acho eu) que se poderá fazer passar a mensagem de que o aborto será sempre a última e a pior solução. A violência (e violentação) psicológica que significa um abortamento, é contudo incomensuravelmente maior que a desaprovação popular do acto. Porque a prática do aborto está enraizada na sociedade rural (e mesmo urbana) portuguesa e como tal surdamente aceite. Argumenta-se que o passado “referendo sobre o aborto” condenou (embora por expressões numéricas ridículas) a sua despenalização mas, dado o país que temos (e que de alguma forma está a mudar) será que “o povo” se pronunciou? Ou será que “o povo” (esse “povo” que enche a boca dos políticos) nem sequer achou crível que o Estado se pudesse “meter numa coisa dessas”, tão pessoal, tão privada e tão íntima? É francamente a minha convicção, mas acho que se perguntarmos a um político, ele saberá, porque por cá “o povo” fala pela boca dos políticos (A avaliar pelas sucessivas afluências às urnas, cada vez fala mais baixinho…). Mas voltemos ao tema inicial, que nos diz respeito a todos (ou melhor, a quase todos)! Será que se devem penalizar (e mandar para a cadeia) as mulheres que decidiram (por razões de vária ordem actualmente não aceites pelos tribunais) não ter outra solução que abortar em Portugal? Será isso pior que deixar nascer crianças para imediatamente as abandonar à sua sorte, ou na própria maternidade? Quem acha que sim, deverá então, em consciência, propor uma emenda à lei: que o “contribuinte-macho” vá também a tribunal. Entendo que a igualdade de direitos e deveres deve sempre ser aplicada. E particularmente neste caso, em que insofismavelmente se está perante uma ocorrência que precisa na sua génese de uma relação entre dois indivíduos de sexos diferentes. E só em conjunto possam ser condenados, porque só em conjunto se devem tomar todas as decisões.
Confesso que quando soube da vinda a Portugal do barco da organização “Women on Waves” pensei que seria uma operação condenada a um relativo fracasso, porque teria eco no meio de alguma forma restrito de quem luta pela despenalização. De mais a mais vindo cá em pleno mês de Agosto, em que os corpos se bronzeiam pelos Algarves. Esquecia-me contudo que sendo o Borndiep um barco, se poderia rapidamente tornar num “Assunto do Mar” e como tal, sujeito ao competente Ministério. Assim foi e salvou-se a operação! A meu ver, teria competido a ministérios como o da Saúde ou o dos Assuntos Sociais, uma tomada de posição e/ou uma participação oficial no caso, mas não. Estavam aparentemente de férias. Haverá portanto que agradecer ao sempre vivo Ministério da Defesa e dos Assuntos do Mar (pese embora a incredulidade do seu titular sobre o conteúdo das suas próprias competências, aquando da tomada de posse) a presente campanha de informação e discussão. Que eu me lembre, é a maior a que alguma vez assisti em Portugal, incluindo a campanha que antecedeu o referendo. É salutar ver esta interdisciplinaridade ministerial!
Nota: Quase inconscientemente, baila-me na memória desde que comecei a escrever esta crónica, a canção “Geni e o Zepelim” do Chico Buarque de Holanda.

2004-09-01

As Olimpíadas no Reino da Dinamarca

Acabaram os Jogos Olímpicos! Duas semanas de emoções, alegrias e tristezas chegaram ao seu termo. Daqui a quatro anos celebrar-se-ão de novo a paz e o desporto. Dessa feita em Pequim, na República Popular da China. Até lá, fica-nos o gosto grego do que conseguimos ser. É que nos habituamos a ver nos jogos olímpicos a manifestação do que de melhor há em termos desportivos e éticos em cada país. E sem interesses financeiros imediatos. Além do mais, é a maior concentração mundial de atletas. É evidente que, exactamente por esse leque de razões, foram os Jogos utilizados (quase) desde sempre, com fins políticos. Passando por cima das rivalidades nas antigas olimpíadas, não nos poderemos esquecer já na Era Moderna, dos Jogos de Berlim, que glorificaram a Alemanha de Hitler, ou as ausências de protesto das equipas norte-americanas a Moscovo e a posterior retaliação com a ausência das equipas dos países do chamado “Bloco de Leste” aos Jogos de Los Angeles. É portanto um sinal ao Mundo aquele que se envia quer na participação, quer na preparação dos Jogos Olímpicos. A aceitação do país organizador é já em si politicamente importante, e nele se insere a escolha da China Popular como país organizador de 2008. Só um grande país pode, actualmente, ser organizador, e a Grécia posicionou-se brilhantemente neste grupo. É sabido que gozou (na nomeação) de alguma benevolência dada a circunstância de ser “a mãe” dos Jogos, mas o facto é que se saiu bem, não só em termos do espectáculo proporcionado através da televisão como também através das medalhas que conseguiu obter (16 medalhas e 17º lugar no ranking, para um população semelhante à portuguesa e três vezes mais participantes). Está portanto de parabéns. E Portugal? Com três medalhas olímpicas e bastante outras classificações honrosas, obteve uma das suas melhores participações de sempre. Mas, pessoalmente, não me satisfez. Claro que me orgulho de todos os bons resultados, e sou até capaz de entender muitos dos maus. O que eu não sou capaz de entender (e ainda menos de aceitar) é a forma como tudo aconteceu e como foi comentado pelos especialistas! À parte da medalha de Francis Obikwelu (de que li a chauvinista classificação de “nigeriano ao serviço de Portugal”!!!), nenhuma outra das medalhas obtidas fazia parte das “esperanças portuguesas”. Nem o Sérgio Paulinho do ciclismo, nem o Rui Silva dos 1500 metros. E mesmo muitos dos bons resultados (entendem-se por “bons resultados” os primeiros oito de cada modalidade, que dão origem à passagem de um diploma de participação e são pontuados de 8 a 1) não constavam do elenco dos “possíveis”. Pelo contrário, o futebol era dado como certo entre os primeiros, com aspirações a medalha. Do que se viu (pouco, pois foi sol de pouca dura) não se fica com a impressão de existir uma equipa mas sim um bando de putos mimados e mal comportados. Mal comportados sobretudo em alturas em que teria sido preciso mostrar civismo e desportivismo, mas só se pode mostrar o que se tem. Admito que poderão ser individualmente muito bons, mas como equipa nem sequer se entendem. Conclui-se assim que os jornalistas desportivos de que dispomos desconhecem o que se passa no seu próprio país. Aparentemente, estão pouco por dentro do nível dos desportos que por cá se praticam, e dos atletas que os praticam. É o país à beira-futebol plantado, mas mesmo no sacrossanto futebol, parecem desconhecer o que realmente se passa. É o país que temos! Todos soubemos quem eram, que palmarés tinham e quando viajaram para Atenas, os elementos da equipa olímpica portuguesa de futebol. Dos restantes atletas, nada ou quase! Todos soubemos o que faziam e onde estavam os elementos da equipa olímpica de futebol. Dos restantes atletas, nada ou quase! Ou seja: mantiveram-se as mesmas proporções de atenção que normalmente se dá ao futebol e aos outros desportos. Tivesse a equipa olímpica respondido às expectativas dos especialistas e ainda hoje não saberíamos em que posições teriam ficado os outros portugueses. Espero que as Olimpíadas tenham servido para nós (nós e as televisões, os rádios e os jornais…) ficarmos a saber que temos bons atletas em muitas áreas desportivas e que estes são tanto ou mais capazes que os futebolistas de nos dar alegrias. E com uma grande vantagem (além de outras): saem muito mais baratos… Tão baratos que se ouviram mesmo algumas queixas de faltas de apoio. Veladas a maioria, é certo, mas nem por isso menos credíveis. É que já sabemos o que “a casa” gasta quando o assunto não é futebol. Corre-se até o risco de alguns clubes se dedicarem exclusivamente ao futebol e deixarem de ter outras modalidades desportivas. Só o futebol está autorizado a dar prejuízo… Porque será? Resta-nos a consolação de termos ficado no 61º lugar em número de medalhas olímpicas e no 51º em número de pontos (entre 202 países), a par da Bélgica (com metade dos participantes olímpicos e metade da população portuguesa), da Estónia, do Chile, da Lituânia, do Zimbabwe e de Marrocos. Resta-nos ainda a esperança de os nossos atletas paralímpicos conseguirem vir a arrecadar mais alguns louros (ou coroas de ramos de oliveira) e medalhas, nos Jogos Paralímpicos que dentro de duas semanas se iniciarão também em Atenas. Haverá que saudar o facto de serem estes os primeiros Jogos Paralímpicos em que os participantes não terão que custear a sua própria participação (porque tinham!!). Isto, li eu na página da Net dos Jogos Olímpicos de Atenas, porque na página do Comité Olímpico Português, nada vem mencionado Nem sequer se dá conta da existência destes Jogos para deficientes!
De facto, algo vai mal neste olímpico Reino da Dinamarca… E dizer “algo” é, claramente, uma sub-avaliação.