Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-12-29

O Natal e o Novo Ano

Este é a última crónica que corre pela minha pena este ano… e por isso, não gostava que dela se soltassem notas de pessimismo. No entanto, tal parece-me ser inevitável: até aos últimos momentos do ano, o estado de ansiedade neste país é enorme. O desespero patente na corrida insã para cumprir os limites do défice deixa-nos a todos desconfortáveis. Primeiro era a venda ao desbarato de imóveis onde estavam departamentos estatais, depois já não era bem assim e era só uma cedência de exploração por alguns (muitos…) anos, passando os departamentos de estado, entretanto, a pagar renda. Isto é, um empréstimo a prazo! Finalmente (será?), é a disponibilização de fundos de pensões da Caixa Geral dos Depósitos. Confesso que não sei bem o que tal significa, mas creio que se está a ir às verbas descontadas pelos funcionários da Caixa para as suas próprias reformas, que passarão a ser incluídas no bolo das reformas da Função Pública, com eventual perda de regalias. Será isto? De qualquer forma, a atitude do Governo levou ao protesto das estruturas dos trabalhadores e, mais esclarecedoramente, ao protesto e à demissão de alguns dos principais gestores daquela imensa organização bancária. E isso só pode ser preocupante. Ao fim de três anos a vender património do Estado em cada Natal (até coisas estranhas como as dívidas ao fisco), começa a parecer pouco próprio culpar o PS pelo estado em que deixou o país, ele que nunca vendeu nada desta forma. Há que perguntar se o estado em que este governo deixa o país é em algum ponto melhor do que o estado em que o encontrou. E se a delapidação do património deu alguns frutos. Se os dirigentes fossem pessoalmente responsabilizados (em julgamento público com todas as garantias, claro) pelos danos e/ou benfeitorias causados ao país, creio que tudo seria diferente. Acho mesmo que muitos dos que até agora vimos nos sucessivos governos, não aceitariam integrá-los. Parece ser demasiado fácil dizer “Assumo a responsabilidade política do que fiz e decidi.” O que é ser-se politicamente responsável? Que significa isso? Na maioria das vezes, e por “mau comportamento” no governo, a “pena” é uma administraçãozita de uma instituição pública ou de uma qualquer entidade bancária. O contrário, exactamente, do que se diz às crianças sobre o Natal: “Se te portares bem, o Pai Natal traz-te a boneca!” ou “ Se tiveres boas notas, o Menino Jesus dá-te o carrinho!”. Aparentemente, a coisa passa-se assim: “Se Vossa Excelência fizer muita asneira, teremos que lhe arranjar uma administração qualquer…” E de responsabilidade política, estamos conversados!
Bem sei que a política nem sempre é assim, e também que em política não há amizades. A prova disso, deu-a o actual Primeiro-ministro, ao dizer que já lhe deram tantas facadas nas costas que não tem espaço para mais. E não estava a referir-se aos seus adversários, porque esses não lhe andam tão perto que lhe possam dar facadas, até porque além do mais teriam de passar pela sua espessa cortina de seguranças pessoais. Referia-se aos seus companheiros de partido. Então porque o esfaqueiam os seus companheiros? Depois da imagem do recém-nascido a ser pontapeado pelos irmãos, esta das facadas é igualmente pungente. Nunca ouvi nenhum político queixar-se tanto e em tão pouco tempo. Mas também nunca vi nenhum primeiro-ministro a ser tão amplamente criticado (apunhalado?). Mas embora ele tenha criticado (apunhalado?) a Dr.ª Manuela Ferreira Leite que, segundo os média, nem ao congresso pôde ir, a antiga ministra recusa-se a comentar o que dela dizem para “poupar o PSD”. Será isto ser amigo ou é mais uma punhalada disfarçada? Os tempos estão de tal maneira que já não se percebe nada.
Sei apenas que o número de desempregados aumentou, embora não o suficiente para que haja políticos desempregados. A propósito: Porque é que nunca se vêm políticos desempregados? Este deve ser mais um dos enigmas de Natal: eles têm sempre um emprego no sapatinho. E sei também que a produtividade diminuiu, que as exportações trazem menos dinheiro, que a gasolina está mais cara, que os impostos (ao contrário do que foi apregoado nas últimas eleições) não baixaram, que os salários não aumentaram (e até agora já perdemos o correspondente a um ordenado por ano!) e que ninguém está satisfeito: nem os trabalhadores, nem os empresários, nem sequer o Presidente da República! Aparentemente, nem mesmo o primeiro-ministro e os seus ministros o estão. Decididamente, será preciso mudar qualquer coisa, para que -ao menos- alguém esteja satisfeito. E já agora, que seja a maioria dos portugueses, isto é, todos nós!
Diz-se que o Fim do Ano é a altura para fazer os grandes balanços. Este Fim de Ano parece-me bastante propício a isso. Acho que primeiro nos deveremos perguntar o que poderemos nós próprios fazer, por nós e pelo país. Depois, o que queremos que quem nos governará faça. E finalmente pensar se o que nos prometem é possível ser levado a cabo. E é aqui que está a questão difícil: como acreditar (mais uma vez) no que nos vão dizer os que se propõem governar-nos? Acho que já ninguém acredita no Pai Natal, e muito poucos nos partidos! Talvez desta vez a promessa de continuação de tempos difíceis (a única verdade que sabemos vir a acontecer) seja a mais credível. E que alguém nos proponha um meio de pagar as contas “da mercearia” sem ter de vender as “pratas da família”. É que um dia destes já não há pratas (nem “pechisbeques”, como lhes chamou a Dr.ª Manuela Ferreira Leite). Isto é, que o novo ano seja o ponto de partida para dias difíceis, mas que seja também o ponto de partida para a reconstrução de um país que nos orgulhemos de legar aos nossos filhos, coisa que hoje ele não é.
Bom Ano de 2005!

2004-12-22

O Princípio de Peter

Há muitos, muitos anos, no início dessa gloriosa época que hoje dá pelo nome genérico de “Anos Sessenta”, apareceu um livro que fez furor. Não falava de política nem aparentemente de nada que com isso se assemelhasse. Falava de gestão de empresas e de organismos públicos, do perfil dos gestores dessas empresas e desses organismos públicos, e de outras miudezas do género. Era escrito por um americano, o que o excluía à partida da hipótese de ser liminarmente apreendido pelo poder salazarento da época embora, se a memória não me falha, tivesse capa vermelha. Adivinho nalguns rostos, o perpassar de um subtil sorriso de complacência, pela pequena ironia… mas o facto é que me recordo de um livreiro meu amigo um dia me ter contado que a PIDE, que fazia aos jornais censura prévia e aos livros censura posterior, lhe levara todos os exemplares d’”O reflexo condicionado” de Pavlov! Era legítima a dúvida do zeloso censor: o livreiro era um homem claramente oposto ao regime, o livro, de um autor russo, e o título suspeitíssimo! E ainda o queriam convencer de que era um livro de estudo nos cursos de psicologia? Essa não! E assim lá foram as experiências do Sr. Pavlov e dos seus cãezinhos até à Rua António Maria Cardoso, em Lisboa (onde hoje querem fazer um condomínio privado de entrada restrita: ironias!) Mas voltemos ao nosso tema inicial! O livro em questão, o tal que fez furor e que não foi apreendido chamava-se “O Princípio de Peter”. O princípio enunciado era bastante simples: postulava que qualquer pessoa tendia a subir na escala das responsabilidades até ultrapassar o seu próprio limite de competência. Dizia Peter que qualquer um colocado numa estrutura executiva (fábrica, empresa, governo, etc.) vai subindo na escala das responsabilidades enquanto provar que é competente. Bem sei que nem toda a gente deve à competência própria o lugar que desempenha mas, como disse, o livro é americano e lá, tendencialmente será assim! Mas (lá), a partir do momento em que o individuo “não responde”, deixa de ser promovido. Não podendo ser despromovido (por direitos adquiridos) e não sendo viável a sua promoção, ali fica! Em resumo, a partir do momento em que demonstre a sua incompetência, “cristaliza” no lugar em que o demonstrou, mantendo-se incompetente mas no lugar! Assim justificava Peter a lamentável e generalizada existência de maus gestores e dirigentes, e a difículdade de os “desenquistar”. É claro que ele falava dos Estados Unidos porque por cá, as coisas são diferentes. Lá, por exemplo, elege-se o Presidente da União (que de alguma forma é a nossa República) e o governo depende dele. Se não se está de acordo com o Presidente ou com governo é como quem diz, “Um mal nunca vem só”. Por cá pode, pode vir. Vantagem nossa.
Há anos que não vejo esse livro nos escaparates das livrarias nem dos alfarrabistas. Provavelmente, do furor das vendas de então veio a resultar o rubor das faces de alguns e, por precaução, esgotaram-se os exemplares existentes. Ou então provou-se a profunda inexactidão do Princípio e, consequentemente, nenhuma reedição terá visto a luz do dia. Ou outra qualquer razão que não descortino. De qualquer forma, já não há “princípios de Peter” à venda. O que para alguns será um alívio. Só não sei porque logo agora me havia de lembrar deste livro, mas se calhar o tal Pavlov poderia explicar, através da sua teoria dos reflexos condicionados!
Seja como for, o importante é desejar que todos passemos um Natal em paz e que o Ano de 2005, se não nos trouxer mais prosperidade, que nos traga pelo menos a certeza de um presente mais previsível e seguro. Quanto ao futuro, teremos de continuar a ter esperança, embora ela dependa, sobretudo, de nós. Se o futuro é para as gerações vindouras, o facto é que ele se constrói (sempre) a partir de hoje. E hoje quem cá está, somos nós. Em resumo, Bom Natal e Feliz Ano de 2005. E votos de excelente futuro!

2004-12-15

Os oitenta do Dr. Soares ou a essência das coisas…

O Dr. Mário Soares completou a semana passada oitenta anos! A celebração do seu aniversário deu-me o ensejo de reflectir sobre as virtudes da velhice e, por extensão (não tão extensa, é verdade), da maturidade. É bem certo que os meus pais também já ultrapassaram a fasquia dos oitenta (e de boa saúde mental e física) mas, por me estarem tão próximos, não tomei consciência do alcance do que isso realmente significa. O aniversário do Dr. Soares no entanto, proporcionou-me o afastamento necessário a esta reflexão. No imenso jantar, encontrei dezenas de amigos que, de uma forma ou de outra, com ele contactaram ao longo das suas vidas. Um deles disse-me: “Se há vinte e cinco anos me tivessem dito que eu iria estar num aniversário do Mário Soares, eu era capaz de ter respondido ‘Nem morto!’ e hoje aqui estou! E porque quero!”. Logo outro conviva se apressou a corroborar a frase com um aceno veemente de cabeça. Olhando a sala, acho que este seria também o caso de muitos outros convivas presentes. Lá se encontravam dezenas ou mesmo centenas de pessoas que, num momento ou noutro, publicamente se opuseram a Mário Soares, e muitos outros que ainda hoje politicamente se lhe opõem. Não era essa a questão ali. Quererá isto dizer que o jantar foi um inócuo encontro de amigos e conhecidos? Obviamente que não e tudo tinha naturalmente um forte cunho político. O que era, então? O quê ou quem terá mudado? Só Mário Soares? Não, porque os seus amigos de sempre estavam lá. Terão sido os que se lhe opunham? Também não, porque muitos ainda hoje se lhe opõem. Mas todos estavam lá! O que terá então mudado? Pessoalmente, acho que o que mudou, e se ganhou nestes vinte e cinco anos foram coisas como respeito, admiração e reconhecimento mútuos, por exemplo, sem abdicar dos princípios defendidos. E o que se perdeu foi a rigidez, a crispação e a agressividade desnecessária. E todos passámos por esse processo! Uns melhor que outros, é bem verdade… mas sempre diferentemente do que o que a hoje assistimos. Também nisso se diferencia a política hoje praticada, tão avessa a ideologias e princípios, agora substituídos por estratégias e gestões “por objectivos” supostamente eficazes mas casuísticas, porque não apoiadas em nenhum projecto de longo prazo. Se por um lado, no tempo em que era politicamente activo, Soares declarou que tinha “posto o socialismo na gaveta”, por outro reconheçamos que essa é uma questão arrumada e não vale a pena nos continuarmos a perguntar como teria sido se a gaveta não tivesse sido fechada. É um facto e é com ele que temos de lidar. Olhando para a história, compreendemos que o seu curso é raramente alterado por actos isolados, e que as coisas acontecem mais ou menos quando têm de acontecer. E que quem está na altura “em cena” é que tem que a interpretar. Igualmente, também nos poderíamos perguntar como estaria o Mundo se Karl Marx não tivesse existido, mas o facto é que se houvesse resposta a tal questão, esta não nos levaria a lado nenhum. Existiu e pronto! Sabemos hoje como as suas teorias, que durante decénios constituíram uma das traves-mestras do curso do mundo, foram liminarmente arredadas em escassos anos, da Rússia à Albânia, da China ao Chile. É no entanto legitimo afirmar que as profundas consequências do marxismo na evolução do Mundo ainda hoje não podem ser avaliadas. O tempo de uma vida é demasiado curto para inflectir visivelmente o curso da História, mas não para lançar sementes, que serão com o tempo multiplicadas e colhidas. São contudo a “verdura”, a “generosidade da juventude”, a “paixão por ideais” que provocam os aparentemente grandes movimentos que vêm a ter reflexos profundos e duradouros no curso da história da humanidade. E isso aconteceu em Portugal! Não tanto e tão drasticamente quanto na altura se acreditava (porque vivemos à superfície), mas muito mais duradoiramente (porque a vida tem profundidade). Cabe aqui citar uma frase de Baudelaire que me acompanha há muitos anos: “É mais fácil mudar a cidade que o coração dos homens”. Desta frase retiro que é mais fácil (e rápido) mudar coisas aparentemente grandes ou visíveis (fisicamente falando), que alterar substancialmente a forma de pensar e de agir da humanidade (ou pelo menos, de uma parte dela). Desses impulsos violentos, nunca se volta ao ponto zero, mas o facto é que as grandes evoluções são coisas lentas, morosas e pesadas. E a serenidade para entender isto só se atinge depois de “alguma vida”. Há que relativizar tudo. Será nesse ponto que está Mário Soares. Quem mudou, então? Ele ou nós? Eu diria “Todos nós, um pouco, mas inexoravelmente!” E, se nos tornámos todos mais flexíveis e compreensivos numas coisas, todos nos tornamos mais rigorosos e precisos noutras: é o retorno à essencialidade das coisas, donde partimos em crianças. É isso, em minha opinião que opera o milagre do entendimento e da cumplicidade entre avós e netos. Mas, como ainda agora escrevi, “nunca se volta ao ponto zero” e essa “pequena” diferença do ponto de partida faz-se pela reflexão de uma vida vivida. E é ela que de alguma forma constitui o avanço da Humanidade.
Não me admira assim que Mário Soares, Freitas do Amaral e muitos outros sejam justamente agora, na fase “pós-madura” da vida, “acusados” de serem simultânea mas contraditóriamente cada vez mais objecto de consenso e de se estarem a “esquerdizar”. Não é isso. Nem o contrário. É porque essa é, de facto, a essência das coisas!
Parabéns, Dr. Soares!

2004-12-08

Escrever com a cabeça (2)

O Governo do Dr. Santana Lopes durou cerca de vinte semanas ou, por outras palavras, cerca de vinte crónicas! Olhando para trás, foi na crónica 160 (“Escrever com a cabeça “) que eu comentei a escolha de Santana Lopes para Primeiro-ministro. E dizia assim: “ (…) com a saída de Durão Barroso, principal mentor dessa coligação pós-eleitoral, perde-se a sua legitimidade política. (…) a legitimidade política da coligação, deste primeiro-ministro e do governo a formar, está desde logo posta em causa. Teremos um governo altamente vulnerável e portanto fraco: o contrário do que se pretendia e do que Portugal precisa para vencer a crise! (…) Teremos portanto à nossa frente, dois anos de um governo constitucionalmente possível mas que nasce fraco e aparentemente ferido de legitimidade política. Pode ser até que se “aguente”, uma vez que o próprio Presidente da República é seu responsável maior. Mas jamais poderá tomar posições que firam a delicada tessitura da sua génese, ou que precisem de apoio qualificado do parlamento. Estará sempre refém do seu trôpego nascimento. (…) “. Mal sabia eu que esse “trôpego nascimento” iria ser um tema glosado pelo próprio primeiro-ministro, muito para além do que julguei possível, e com ele terminar a sua breve glória. A fábula do bebé na incubadora a apanhar pontapés dos irmãos mais velhos foi algo que jamais julgaria possível, nem me passaria pela imaginação. Em si é uma imagem algo macabra e chocante, particularmente numa altura em que se inicia o julgamento do “Caso Casa Pia”. Acho que todos estamos algo susceptíveis a sevícias sobre crianças, sobretudo quando são objectivamente indefesas, mas nunca nos passaria pela cabeça que o próprio governo se reivindicasse dessa característica. No entanto teremos de acreditar, sendo o próprio Primeiro-ministro a dizê-lo e a colocar-se (e ao governo) exactamente assim. Só que não é crível que um governo tenha irmãos (quem são os irmãos mais velhos de um governo, de mais a mais de coligação?). E a admitir-se que os tem, não se aceita que estes maltratem o irmão recém-nascido. Particularmente porque, aparentemente, se tratava de um bebé com problemas, pois para a incubadora só vão os nascituros (ou bebés prematuros) e os que nascem com saúde deficiente. Ou seja, os que nascem mal. A imagem de uma criatura indefesa e débil parece assim ir beber em fontes de humor negro como os Monty Pyton ou a Família Adams, dado que era a própria família que o tratava mal… Não (ainda) os outros, os “amigos da onça”, mas a própria família, a carne da sua (aparentemente fraca) carne. E quem tem família desta… Então, o que deveria em consciência fazer o Presidente, senão acabar com o sofrimento do bebé e de quem com ele sofria? Foi o que fez! Acho que a família deveria estar agradecida pelo fim do bebé a quem batia e os outros, os “amigos”, atónitos porque nada teriam percebido, mas não: atónita está aparentemente a família, porque “os outros” parecem compreender o sucedido. Mais uma vez, uma situação digna de Monty Pyton!
Mas falemos agora um pouco mais a sério! Para além de outras decisões tomadas, não me recordo de um governo que tenha tentado levar a cabo uma alteração tão profunda da sua própria orgânica. Se pensarmos que sempre que há alterações na estrutura de um Ministério ou de uma Secretaria de Estado, por soma ou diminuição de competências, estes têm de elaborar uma nova lei orgânica, entende-se porque é que o actual governo ainda não estava a funcionar em pleno. Se a isto somarmos a alteração de âmbito de muitos dos serviços dependentes, e da sua própria localização geográfica (aqui em Évora está agora sedeada a Secretaria de Estado dos Bens Culturais, por exemplo), teremos mais um bocado da realidade. Mais, tais alterações geográficas implicam necessariamente a obtenção de espaços, a mobilização de meios, e sobretudo a deslocação de pessoal, que tem família e tem que ter casa (e escolas, e creches, além de emprego para a/o cônjuge, etc.). Só a simples alteração das designações e competências dos ministérios implica que o tratamento de determinados assuntos passa de uns ministérios para outros, de umas secretarias de estado para outras, de um sítio para outro…onde terá de haver gente capaz de os entender, encaminhar e executar, segundo as directrizes de um novo ministro e de um novo secretário de estado. Isto, para já não falar das montanhas de carimbos, tarjetas e papel timbrado que há que deitar fora, pela simples alteração da designação de cada serviço. Se tais alterações são entendíveis quando uma legislatura é iniciada, uma vez que se entende que elas vigorarão pelo menos por quatro anos (e correspondem a um programa de governo sufragado pelo voto), já não é tão compreensível quando o horizonte máximo de vida desse governo é de dois anos e este é entendido como uma solução de continuidade do anterior (e por isso mesmo constituido). Logo, tudo o que se queria ganhar em tempo com esta solução estava comprometido. Acho portanto que Santana Lopes tinha razão ao dizer que o governo era um recém-nascido, pois com tantas modificações que quis introduzir, o seu governo mal tinha começado a trabalhar. Mas, simultaneamente, ele era também o mais alto responsável por essa mesma inoperacionalidade, dado ter sido ele a imaginar e introduzir todas essas modificações. Isto, para já não falar dos custos (em dinheiro, em esforço de adaptação, em tempo gasto) de todas as variações introduzidas.
No entanto e surpreendentemente, não foi por aí que o governo soçobrou! Esses custos ver-se-ão mais tarde. A tão apregoada má situação do país ainda aguentou mais este compasso de espera. O que o país não aguentou foi a deriva politica, foi o ser tratado como um objecto, foi o ter um governo de geometria e composição variáveis, de que se pode por e dispor diferentemente de hora a hora. Era o recém-nascido ele próprio que todos os dias tentava atabalhoadamente reinventar-se e recompor-se. E terá sido aí que até os seus irmãos se começaram a irritar e o pontapearam, coisa de que amigos e conhecidos se abstiveram. Diz o povo que quem nasce torto…
Escrevendo “com a cabeça”, direi que agora se entende melhor a decisão do Senhor Presidente da República, mesmo que muitas das razões venham a ficar no tinteiro. Ou sejam deitadas fora com a primeira fralda.

2004-12-01

O Primeiro de Dezembro…

Primeiro de Dezembro, dia da independência nacional. Desde 1640, ano em que alguns nobres ajudados por alguns burgueses puseram os castelhanos a andar daqui p’ra fora, que deverá ser assim. Os contornos de todo o caso, serão naturalmente diferentes dos que estudámos na escola primária, mais interessada na glorificação dos portugueses que na própria verdade histórica. Pelo menos quem andou na escola primária antes do 25 de Abril. Acho, contudo, que os princípios que nortearam a “minha” História de Portugal não mudaram muito. Mas não creio que seja por isso que sejamos diferentes dos outros povos… Conheço Histórias de alguns outros países e creio bem que a glorificação dos nacionais é sempre mais importante que a própria verdade histórica. Aliás, desde logo, desde o início, haverá sempre a tendência para descrever e escrever os factos (que depois se tornarão na História) de acordo com os vencedores. Pois alguém se lembra do contrário? Mesmo quando se conta a verdade, ela pode ser escrita com maior ou menor ênfase, com mais ou menos rigor. Por exemplo, tomemos a Lusitânia, que ocupava todo o nosso território ao sul do Douro mais grande parte do “miolo” peninsular, incluindo toda a Extremadura: se se ler a “Breve História de España”, a capital da Lusitânia é Emérita Augusta (hoje Mérida), sendo Pax Julia (Beja) e Scalabis (Santarém) apenas capitais de conventos. Se se ler a “Breve História de Portugal”, não se fala em Mérida e apenas se diz que Pax Julia e Scalabis eram capitais de conventos da Lusitânia! É o mesmo dado histórico visto pelos “dois lados”… No “meu” livro de História da Primária, a estada dos romanos por cá (na tal de Lusitânia) ocupava um capítulo inteiro, e bem: sempre foram cerca de quinhentos anos. Não apareciam, é claro, mapas muito precisos da Lusitânia e ficava-nos a ideia de que os Montes Hermínios seriam a parte maior e mais importante da dita. Mas não foi assim: a cordilheira que engloba a Serra da Estrela era tão só a zona de mais difícil acesso e portanto mais rebelde. Isso não retira ao Viriato (nem depois ao Sertório) qualquer brilho ou valentia no combate aos romanos, antes pelo contrário. Mas também, “deslocando-se” mais para norte a Lusitânia se dava menos importância ao Alentejo e ao Algarve, que como se sabe gozavam de pouca simpatia por parte dos poderes de então. Já a estada dos mouros e árabes em Portugal (que nessa altura eles passaram a chamar Al’Garb al’Andalus, ou o Ocidente da Andaluzia) era descrita no meu livro em menos de meia dúzia de páginas. É bem certo que no total, em termos de tempo (e no território português), eles só estiveram por cá quatrocentos anos, menos cem anos que os romanos mas, se a coisa fosse proporcional, “calharia” aos árabes bastante mais que a folheca a que tinham direito. Também me ficou (e a muitos) na memória que eles (os árabes, os mouros, os infiéis), se tinham ficado muito pelo Algarve e pelo Alentejo e não tinham metido o nariz em zonas mais cristãs. Como hoje leio, tal não corresponde à verdade e há vestígios “deles” (até na toponímia) muito para o norte do Mondego. Mas, mais uma vez, se justificava assim alguma subalternização do sul, que só começou a existir quando as praias do norte se revelaram pouco propícias às novas tonalidades de pele, ou seja, lá para os Anos 60...
Já agora, e sem retirar brilho ao Primeiro de Dezembro, lembremo-nos que a independência de Portugal foi perdida após longos anos de tentativas (sobretudo por parte de D. João II) de fusão de todos os reinos peninsulares ou hispanos (hispanos sim porque, como dizia Camões, “Portugueses e Castelhanos, porque espanhóis somos nós todos!”). Só que segundo D. João II, seria sob a coroa portuguesa, na altura a de maior dimensão e poder na Península. Mas o rei pôs e a História dispôs, e quis a História que quando tudo se estava a “arranjar” (o único filho legítimo de D. João II já tinha casado com a filha dos reis de Castela e de Aragão), o jovem herdeiro cai do cavalo, parte uma perna, esta gangrena e ele morre, antes da esposa-donzela-princesa chegar a Évora (sim, tudo se passou em Évora), e o casamento desfez-se. Cerca de noventa anos depois, e após alguns reis sem descendências directas, aparecem os Filipes como pretendentes legítimos e com fortes apoios no interior de Portugal. Estava feita a união ibérica ou hispânica, mas não da forma que os portugueses queriam. E foi o que se viu, oitenta anos depois. Também a dinastia filipina tem a história mal contada, porque também ela mal amada, mas o facto é que nem sempre, nem tudo, foi mau nestes reinados. Só quando começou a ser mesmo tudo mau (várias “partes” do império começaram a destacar-se) houve vontade e força para proclamar de novo a Independência, que dura até hoje. É por isso que ela ainda hoje é comemorada. Eu creio, contudo, que nunca houve tanta influência quanto hoje, da Espanha sobre Portugal. Nem durante essa dinastia, nem durante a prolongada estada do rei “de lá”, que quando foi apeado, decidiu vir “para cá” (afinal, Portugal foi o único pedaço dos antigos reinos ibéricos onde o deixaram estar) até lhe permitirem de novo regressar a Madrid, já depois do 25 de Abril.
Em resumo, haverá razões para comemorarmos a nossa independência mas, em minha opinião, haverá também razões para continuarmos a lutar por ela, embora de outra forma. Hoje, já nem os exércitos nos podem defender da invasão castelhana, porque a guerra é outra (muito mais subtil, eficaz e pacífica). Mas se em 1640 o exército fosse constituído por profissionais, talvez ainda hoje Portugal fizesse parte do grande Reino da Espanha. É que as grandes virtudes dos profissionais é serem eficazes e obedecerem a quem lhes paga. E na altura, quem lhes pagaria seria o rei. E o rei legal era de Espanha. E os exércitos, por definição, são legalistas…
Mas deixemos isso por agora e comemoremos a nossa Independência! Viva Portugal!

Nota: Folgo já terem começado a chegar-me notas de adesão à “Causa Catitinha”! Continuem!