Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-01-26

Quando as águas estão agitadas...

Era minha intenção escrever sobre o momento político que se vive em Portugal, mas o facto é que chegou ao meu conhecimento uma informação que me parece digna de precedência. Escrever sobre as eleições ficará para mais tarde, mas muito ainda a horas delas. É que, embora já ocupem todos os espaços mediáticos, as eleições só produziram até agora “faits divers”, questões de “lana caprina” e com isso tentam entreter ou distrair o povo. Esperemos que ele não se distraia! E é precisamente nestas alturas que algumas das mais polémicas decisões são tomadas e, quando se dá por elas já é tarde! Então dizem-nos: “Nós informámos e não houve reacção!” Esses factos ou decisões nunca aparentam ser de grande dimensão, mas sim coisas de âmbito local ou restrito, para que os grandes holofotes dos média, televisões ou jornais, não os chamem para uma qualquer ribalta incómoda.
Não sei se foi por isso ou se foi por qualquer outra razão, soube-se agora (através do Semanário Expresso) que a Pousada da Juventude de Évora vai fechar. Já há algum tempo que a pousada não funciona, mas a razão que tinha vindo a ser dada era a necessidade de obras urgentes nas suas instalações. Agora, corre a notícia do seu encerramento definitivo. E corre também que para essas instalações (as antigas instalações do Hotel Planície), irá a Casa Pia de Évora, até agora sedeada no Convento de São Bento de Cástris. Finalmente, consta que o Convento de São Bento de Cástris será vendido a um grande grupo económico para lá se instalar uma unidade hoteleira de luxo. E está assim fechado o circulo que tudo parece explicar. Pode ser que assim não seja desta vez, mas o facto é que já estamos habituados a que tantas trocas e baldrocas tenham quase sempre como pano de fundo, a facilitação dos interesses dos grandes grupos em detrimento dos pequenos interesses ou de questões sociais. E assim se explicariam tantas mudanças… Évora perderá a sua pousada da juventude, passando a ser a única capital de distrito do continente a não dispor de um equipamento deste tipo. As pousadas de juventude são pontos de passagem e estadia de muitos jovens que, de Portugal e mesmo da Europa, fazem turismo de baixo custo, sendo esta a única forma de turismo que não lhes está economicamente vedada. Mas esses turistas não são imediatamente interessantes para os grandes hoteleiros: têm pouco dinheiro, compram pouco, e andam de comboio ou à boleia. E por vezes ainda cravam uns tostões nas ruas, em troca de malabarismos ou alguma canção. Mas será que não são importantes para a cidade nem para o país? Lembro-me de eu próprio muito ter andado assim por toda essa Europa. Hoje, tento revisitar os melhores e mais agradáveis sítios por que então passei. Esse é o interesse mediato das pousadas de juventude. O primeiro e imediato interesse é dar-mo-nos a conhecer a esses jovens (a nós, à cidade e à região). Disso colhem eles (e nós) os benefícios inerentes: alargam-se os seus horizontes culturais e permit-se o convívio entre jovens de inúmeras proveniências, esbatendo assim rivalidades nacionais e étnicas, tornando-nos parceiros de corpo inteiro uns dos outros. Em suma, todos nos enriquecemos um pouco. Mas isto não é, evidentemente, o objectivo nem o negócio dos hoteleiros. Nem, pelos vistos, o objectivo dos organismos sociais de tutela dos serviços das pousadas nem das casas pias.
Vejamos agora o que ganha cada uma das instituições envolvidas nestas trocas e baldrocas? Já vimos que os jovens perdem tudo. A Casa Pia consegue aproximar os seus alunos da cidade, o que poderá ser bom para a sua integração social. Mas perde condições objectivas: o antigo Hotel Planície nunca o poderá ser, por clara falta de espaço e de condições, um local onde se desenvolvam condignamente actividades julgadas fundamentais para recuperação de jovens em risco. O Convento de São Bento de Cástris não será o local mais bem apetrechado, mas poderia vir a ser se para isso houvesse vontade política. Agora, mesmo que venha a haver condições económicas, não haverá no Hotel Planície condições físicas para tal! Quantos alunos-residentes poderá comportar o hotel? Onde se colocarão as oficinas que hoje existem no convento? Como é possível dar educação (aulas, oficinas, convívios, quartos ou camaratas, etc.) num edifício concebido para hotel? Conclui-se portanto que também perde. A cidade vê mais um edifício patrimonial tornar-se privado ou vedado à grande maioria da população, o mesmo é dizer que, além de o comum dos mortais não o poder visitar, vê a sua função social anulada. E que função mais digna para um edifício de todos nós?
Mas tudo isso são minudências quando a vontade dos grandes grupos hoteleiros se levanta e o poder político age como seu executor privilegiado. De eu estiver errado, como gostava de estar, que me corrija quem de direito e aqui explique o que de facto se passa. Se não, corremos o risco de dentro de anos, se o tipo de turismo da moda a que hoje se quer dar resposta (e que se chama cultural) ceder lugar a outro turismo qualquer que não tenha a cultura (e Évora) como tema. Então, teremos muitos hotéis vazios (ou “deslocalizados”) e muitos cidadãos mal (ou pior) formados, porque hoje deixámos que se colocassem crianças em risco num local impróprio. Simultaneamente não demos hipótese a que os jovens e futuros turistas por cá pudessem sequer pernoitar e assim pensassem em cá voltar um dia! E todos nós ficamos um pouco mais pobres.
Isso não acontecerá, se a tanta troca e baldroca nos opusermos!

2005-01-19

O Pacto de Instabilidade e Constangimento

O Pacto de Estabilidade e Crescimento tem sido, aparentemente, o responsável por sucessivos anos de quebra de crescimento, de quebra do nível de vida e, enquanto tal, de grande intranquilidade para toda a população. Para além da evidente perda do poder de compra da maioria dos portugueses, assistimos a vendas de património na posse do Estado Português ou de instituições na sua dependência e de outras operações mais ou menos estranhas para assim satisfazer as exigencias do tal pacto. Venderam-se até as dívidas passadas e futuras de impostos e segurança social para equilibrar o tal défice, se a memória não me trai. Isto é, estão mais pobres não só os portugueses, como o próprio Estado Português. Tudo em nome de um pacto que deveria promover a estabilidade e o crescimento! Não creio contudo que estejamos hoje em melhor situação do que o que estávamos antes do início dessas operações, assumidas como eventuais e isoladas, como “uma vez sem exemplo”. Pelo contrário: creio que cada vez menos acreditamos no fim da “crise”. A continuada delapidação do património do Estado Português, do património de todos nós, tem agora um carácter permanente e crescente. Sabemos contudo que este património é finito e, além de tudo o mais, escasso, e com preço a pagar no futuro: pois se uma das hipóteses será vender os imóveis onde estão localizados os serviços do Estado e pôr este a pagar renda! E, embora a maioria de nós não entenda como se pode vir a “dar a volta” à situação, a verdade é que se compreende que alguma coisa deve ser feita e isso também não se vê. Durante dois anos, justificou-se com os erros do governo anterior a necessidade de assim proceder, e fez-se os portuguese apertarem o cinto. Neste terceiro ano sucessivo, o descrédito do governo era tal que se alguma justificação foi dada, pouco eco teve.
Não creio que Portugal esteja à beira da falência, como parece estar. O que em minha opinião ocorre é o descrédito no que dizem, fazem e propõem os sucessivos governos. Recordo que, em 1975, o então Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves propôs que se trabalhasse num dia feriado para aumentar a produção: era a “batalha da produção”. É (era) evidentemente, uma medida inconsistente e algo demagógica, mas tinha uma mensagem clara: é preciso produzir mais, nem que seja à custa do nosso próprio descanso. Pela adesão popular que então teve, há que reconhecer a grande credibilidade e capacidade de mobilização de que então gozava o Primeiro-Ministro. Por mais que hoje tentemos, será impossível encontrar um único político que goze de idêntica capacidade de persuasão e de mobilização, ou sequer próxima. E é isso que hoje falta a Portugal e aos portugueses: alguém que nos faça vibrar, nos faça acreditar que “é possível”. Poderemos acreditar que teremos de empenhar os anéis, mas que nos fiquem os dedos para trabalhar e tentar recuperar os anéis. Enquanto a atitude for defensiva, for tímida, e “de perder por poucos”, nada se conseguirá. Enquanto não conseguirem mobilizar-nos solidariamente (como aquando da questão de Timor), enquanto não conseguirem que acreditemos no que nos dizem, enquanto não conseguirem que acreditemos que somos capazes de construir com as nossas próprias mãos um Portugal digno desse nome e da Europa onde nos inserimos, qualquer pacto de estabilidade e crescimento estará condenado a transformar-se num pacto de instabilidade e constrangimento. Dir-me-ão que as condições não serão agora as melhores (a Europa tem agora mais países educados), que o petróleo sobe (tornando a energia mais cara), que o euro sobe (tornando as exportações mais difíceis). Tudo isso é verdade, mas o facto é que hoje descremos da política e dos políticos (o Dr. Sampaio disse na campanha da sua reeleição que esse seria um seu combate, mas aparentemente deixou de ser) e descremos mesmo de nós próprios (depois do intenso orgulho que nos causou a Expo 98). Deixamos a alimentação da nossa auto-estima para o futebol e isso sabe a pouco, quase a nada. Porque mesmo esse nos decepciona: é hoje frequente verem-se “homens do futebol” sob investigação, bem como políticos e figuras públicas. E, em vez de acreditarmos que depois de serem clarificadas as coisas e julgados os responsáveis, as coisas ficarão melhor, acreditamos que os que estão sob investigação foram os que “não se safaram”, e que tudo continuará como antes.
O país que hoje temos é precisamente o mesmo que levou a cabo os descobrimentos, numa época de depressão e de falta de população. Mas então não faltaria o rasgo, a imaginação e a capacidade de risco que transformam a instabilidade e os constrangimentos em estabilidade e crescimento. Resta-nos encontrar o nosso Infante e o nosso D. João II. Porque sem eles não poderá haver Dons Manuéis.

2005-01-12

Os quatro anos seguintes às eleições

Acho que finalmente entramos em período eleitoral. Não que eu lhe sentisse a falta, mas ao menos assim é oficial (ou melhor, semi-oficial, porque a campanha propriamente dita dura muito menos tempo). É a partir de agora que se começarão a ouvir as grandes e as pequenas promessas, é a partir de agora que se publicitarão os candidatos pelas suas imagens, é a partir de agora que se promoverão os partidos através dos candidatos. Do que defendem, do que propõem, do que sonham para o futuro, nada ou pouco ficaremos a saber, como de costume. A não ser que desta vez seja diferente. Mas porque é que haveria de o ser? A propaganda eleitoral tem seguido um pouco a tradição das revistas: dantes, eram quase só texto coloridamente escrito, ilustrado (às vezes) com fotografias a preto e branco, hoje são quase só fotografias coloridas, acompanhadas (às vezes) com legendas ou textos monocromáticos. Tudo cada vez mais “leve” e menos trabalhoso, mais “pronto a comer”, mais “fast food”. Será o desfile do costume com as promessas do costume, os sacos plásticos do costume e os cartazes do costume. A não ser que desta vez seja diferente. Mas porque é que haveria de o ser? É evidente que, se quisermos, poderemos com algum esforço obter os programas eleitorais mas, se nada fizermos, ficaremos só com as frases que servirão de legenda (“ideias-força”, como agora se diz) às imagens dos cartazes. De debate político, de discussão de ideias, de programas de acção ou de como os conseguir atingir, nada ou pouco será dito. A não ser que desta vez seja diferente. Mas porque é que haveria de o ser? Esqueceremos quase (e mais uma vez) que os nossos eleitos o são para defenderem (também) os distritos pelos quais foram eleitos. Mas como poderão eles defender essas regiões, se muitos não têm com elas a mínima ligação? Pelo distrito de Évora, sabemos que, para além da meritória participação de quase todos os partidos, só dois ou três terão possibilidades de eleger deputados. Sabemos agora quais são os cidadãos que se propõem representar-nos dizendo defender os nossos interesses e os nossos anseios: um a dois deputados do PS, um do PCP e/ou um do PSD. Reparo que, dos cidadãos que por Évora concorrem, alguns são conhecidos e têm à cidade uma longa ligação, mas noto que pelo PSD concorre como cabeça de lista, a Dr.ª Maria João Bustorff. Desconheço-lhe qualquer ligação relevante à cidade ou à região, e creio não ser o único. Sei que é actualmente Ministra da Cultura mas esse facto não a aproxima de Évora nem da região. Já o mesmo não se poderá dizer dos primeiros candidatos do PS e do PCP: são pessoas da região e que por cá vivem e são vistas. Os outros partidos, porque em princípio não elegerão deputados pelo Alentejo, estão dispensados desta preocupação, pelo menos no que ao Alentejo diz respeito. Em outras regiões, outros se queixarão deles. Como é admissível que as regiões sejam representadas por pessoas que nunca as viveram? Como é admissível que as regiões sejam representadas por pessoas desconhecidas nas regiões que (teoricamente) representam, e para isso são pagas? A resposta é desarmantemente elementar: as regiões simplesmente não são representadas! As listas de deputados são cozinhadas em Lisboa e é lá que um grupo de iluminados acerta a disposição das suas peças neste tabuleiro de xadrez que é o país. Não importa portanto qual a proveniência dos candidatos, a sua dedicação à região, mas a sua devoção partidária. E depois das eleições, a origem geográfica é esquecida e os deputados da Nação passam a ser o que sempre foram: delegados dos partidos e de quem os dirige! Anula-se assim uma das características mais democráticas do sistema eleitoral português: a eleição de representantes de cada distrito e a sua vinculação a esses distritos. Deixando de haver representação, deixa de haver também responsabilização perante os eleitores. É assim que os deputados, que deveriam ser os nossos representantes nas coisas da governação e das grandes decisões, só se representam a eles próprios e aos partidos onde são filiados. Cada vez se nos tornam mais distantes e só daqui a quatro anos tornarão (talvez…) a ser vistos por cá. E os políticos ainda se admiram que o povo português cada vez mais descreia na política, nos políticos e nos partidos! Acho que este estado de coisas deveria ser revisto e alterado. Gostaria que os deputados eleitos por uma região tivessem locais e horários de contacto obrigatórios com os cidadãos que os elegeram. Para lhes prestarem contas e os ouvirem sobre as suas preocupações, os seus anseios e as suas reivindicações. Para lhes explicarem que problemas existem na Assembleia da República e discutirem com os cidadãos eleitores como pensam resolvê-los. Porque os eleitores, que são os primeiros responsáveis pela condição de eleitos dos deputados, nunca (ou raramente) são ouvidos. E um deputado é isso mesmo: um representante de uma região e dos seus habitantes e enquanto tal, dos seus anseios. Se se pugna por uma nova e mais transparente forma de fazer política, então proponho que os senhores deputados se comprometam desde já a elaborar e depois cumprir um calendário de contactos pessoais com os eleitores. Tal trabalho político (porque disso se trata) contribuirá para criar uma ligação mais directa e profícua entre eleitores e eleitos, e fazer uns e outros participar mais activamente nas questões importantes para o país e para a região. A aproximar os cidadãos da política e a política dos cidadãos. Se tal não acontecer, estaremos condenados a mais uma vez vermos desaparecer para Lisboa os nossos eleitos. Talvez um fim-de-semana ou uns diazitos de férias eles apareçam. Isto, os que cá têm ligações porque os outros, esses, voltarão a passar por cá dentro de quatro anos, se assim o partido então o determinar! É por isso que eu não sinto falta da campanha eleitoral: sinto é que a falta de preocupação e respeito dos partidos pelos eleitores só é comparável à vontade que eles têm dos nossos votos! E era tão fácil alterar este estado de coisas…

2005-01-05

O 26 de Dezembro de 2004 e o futuro

É quando o ferro está quente que é preciso batê-lo. No rescaldo (será que já estamos no rescaldo?) da tragédia ocorrida no sudoeste asiático, ocorreu-me que também por cá se celebram este ano os 250 anos do devastador terramoto de 1755. Nessa altura e para além de Lisboa, todo o sul do território nacional ficou destruído. Vila Real de Santo António foi criada e construída para substituir a anterior vila que por ali existia e que o mar levou, como agora, com os nossos próprios olhos, quase pudemos ver acontecer. E várias questões me começaram a assaltar, neste “dia seguinte” do horror asiático. Se algo de parecido ocorrer por cá, e estou a falar de algo que todos sabemos poder acontecer, será que estamos preparados para isso? É evidente que nunca se está preparado mas há mecanismos que poderão ajudar a que tudo se passe o menos mal possível. Recordo aquela criança inglesa que, pela observação do recuou das águas, se lembrou do que tinha aprendido nas aulas de geografia e avisou que um tsunami se aproximava. Com esse simples acto de prevenção conseguiu salvar a vida das mais de cem pessoas que se encontravam na praia. Será que, em caso de sismo, sabemos o que fazer para não entrar em pânico? Creio bem que não. Há uma infinidade de questões, de perguntas, que nos deveremos colocar e responder antes que o que quer que seja aconteça. Por exemplo, durante o sismo:
Onde nos devemos colocar durante os abalos? Quais são as partes mais seguras da nossa casa? A instalação de gás é flexível, ou pode romper-se durante um abalo? E a instalação eléctrica resiste sem curto-circuitos ou esse é um risco real? Em caso de derrocada, há caminhos de fuga? E para onde?
Após o sismo, outras questões se colocam, pois pode (deve) faltar a água, a electricidade, os telefones, os viveres. Assim, é melhor desde já precavermo-nos:
O que devemos ter (sempre) em casa? A quem nos devemos dirigir em caso de ferimentos ou outras questões de saúde? Quem são as entidades a quem devemos recorrer? Quais são as autoridades a quem devemos obedecer? Que cuidados mínimos deveremos ter de higiene, para que as doenças não alastrem?
Estas deveriam ser questões a que todos deveríamos saber responder quase de cor. Mais, as respostas deviam ter sido aprendidas na escola! Mas acho que muitos nunca sequer se tinham colocado estas questões.
O pior que pode suceder em situação de catástrofe é o pânico. Ele, que não leva a nada nem resolve nada, ocupa-nos momentos que podem ser cruciais para salvar a vida de alguém. Se todos soubermos o que deveremos fazer em caso de catástrofe (mesmo que seja “só” um incêndio), tudo poderá correr menos mal. Para outras questões deveríamos também ter respostas, e elas são, entre muitas outras:
Como poderemos nós próprios ser úteis? O que poderemos fazer? Será que as nossas aptidões podem ser utilizadas? E se sim, quem coordena a sua utilização? Onde ou a quem nos devemos dirigir? Se temos meios de comunicação (rádio-telefone, rádio amador, CB, etc.), como podemos pô-los ao serviço da comunidade? Se tudo o que possamos fazer ou disponibilizar pode ajudar (o que é duplamente bom porque ajudamos a comunidade e sentimo-nos úteis), o seu valor poderá ser muito aumentado se houver conhecimento à priori da nossa própria utilidade. Isto é, se se estabelecer previamente uma “rede” de contactos.
Todo este esforço, aparentemente um pouco catastrofista nunca será vão. Há coisas que podem servir no dia a dia, e até evitar males maiores se dia a dia tomarmos as atitudes correctas! Dou exemplos de atitudes preventivas que deveriam ser sempre tomadas, e que nos facilitariam a vida todos os dias, mas sobretudo em casos de emergência:
Será que o nosso carro, assim (mal) parado, não poderá provocar um acidente ou dificultar a passagem de veículos de emergência? As pequenas emergências, tal como incêndios e sismos, por definição, não escolhem hora. Será que quando cometemos pequenas infracções que julgamos que nos beneficiam a nós sem lesar ninguém, não poderemos estar a criar algo que num momento crítico se pode virar contra todos e até contra nós? Falo de construções clandestinas, de ocupações ilegais de terrenos e vias públicas, de esgotos a céu aberto e de tantos pequenos delitos que só se tornam graves em caso de catástrofe, quando já não é possível “voltar atrás”. Falo também de pequenos favores de quem, num dado momento, detém de forma irresponsável um pequeno ou grande poder e assim permite que situações destas possam (impunemente) ocorrer ou manter-se. Quem decide é sempre criticável mas esse é o preço a pagar: ou porque é demasiado rígido e não permite que se faça nada que vá contra a lei (que deve defende o bem comum). Ou porque deixou que tudo se fizesse (e “agora vê-se no que deu”, quando as coisas dão para o torto). É muito mais fácil correr riscos de multas e outras sanções quando se infringe a lei. Será mais difícil arcar com a responsabilidade dessas falhas, faltas, infracções ou “clandestinices” quando elas se revelarem graves e causadoras de danos à comunidade. Aí, os que criticaram a rigidez da lei e eventualmente a violaram, virão a correr criticar falhas e denunciar conivências dos que as permitiram e que nessa altura estarão à vista de todos. Então, já será demasiado tarde. Em caso de catástrofe, todos esses pequenos nadas poderão significar a diferença entre a vida e a morte. É essa pequena diferença que muitos tentam comprar de uma forma ou de outra, de cada vez que, coniventes ou impunes, desrespeitam as leis que por princípio nos devem proteger a todos. Todos os que de um lado ou de outro infringem ou deformam as leis feitas para nos proteger, terão que se sentir, pelo menos moralmente, responsáveis pelos grandes danos que um dia se venham a verificar. Porque os mortos, esses, jamais o poderão fazer.
E a verdade é que tal é possível, começa em cada um de nós e poderá ser o melhor tributo que poderemos prestar às centenas de milhares de vítimas do terramoto e do maremoto que hoje evocamos. Se mesmo que só isso acabasse este ano, já 2005 teria valido a pena!