Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-02-23

O senhor que se segue... (II)

“O senhor que se segue…” era o título da minha crónica da semana passada, e previa o que se veio a passar: a vitória do PS. Mas essa era uma previsão que todos faziam: era o que se chama, uma vitória anunciada. Assim, (quase) nada de novo haveria a assinalar esta semana, a não ser saudar o novo poder. Só que as coisas configuraram uma nova realidade: a vitória por maioria absoluta do PS de José Sócrates e simultaneamente, a subida global de toda a esquerda em percentagem e em votos, com diminuição da abstenção. Assim, a descida global da direita, que se verificou não só em percentagem e em número de deputados, mas também em número de votos, tem um enorme significado. É que mesmo com mais gente a votar, houve nestas eleições menos gente a votar à direita. E portanto mais gente a votar à esquerda. Ou seja, o sinistro espectro da esquerda “Socialista”, “Comunista” e “Bloquista” não aterra ninguém senão os que até agora estavam no poder. E, pelos vistos, tinham razão! Mas retiremos ilações: relativamente às percentagens globais, o grande triunfador é o Presidente da República. A acusação mil vezes proferida por Pedro Santana Lopes (e editada em carta aos portugueses) de ser ele o responsável pela interrupção do “bom trabalho” do governo cai pela base. O povo português estava mesmo ao lado do Presidente quando este interpretou os sinais do governo que lhe recomendavam a convocação de eleições. Diria até que, pela expressiva votação contra os partidos do governo, o povo quis mesmo dizer “…e já vai tarde!” Pedro Santana Lopes, o sobrevivente de tantas fugas (do Sporting, da Secretaria de Estado da Cultura, da Figueira da Foz, de Lisboa), foi agora julgado (creio que pela primeira vez) após um seu desempenho. E perdeu. De tal forma perdeu, que creio ser absurdo pensar que poderá regressar à Câmara Municipal de Lisboa, como antes foi aventado em caso (previsível) de derrota. Paulo Portas, perdedor por muito mais pequena margem, agiu de forma magistral: ao ética e elegantemente se demitir, cortou de alguma forma essa via ao seu último companheiro de coligação (seria uma cópia…) e posicionou-se para um futuro que ele próprio há-de traçar. A comparação e o contraste com Santana Lopes são inevitáveis: A ele, será aparentemente o próprio partido que lhe traçará esse mesmo futuro, quer ele queira, quer não!
Agora à esquerda as coisas também não serão pacíficas: o estado do país é desastroso e o governo que vier, mais que gerir a crise, terá de nos tirar dela. O secretário-geral do PS, embora tenha uma oportunidade soberana para formar o governo que quiser, de tão incontestada que é a sua vitória pessoal, terá de muito bem gerir as competências e as sensibilidades internas. Com tão expressiva votação, difícil se lhe torna recorrer a independentes, e qualquer erro no governo pode custar-lhe caro. É caso para dizer “Grande nau, grande tormenta!” ou, de uma forma mais directa “Grande liberdade de acção, grande responsabilidade!” Mas isso é para se ir vendo. Da mesma forma, Jerónimo de Sousa recuperou parte do eleitorado que Carvalhas tinha vindo a perder. De uma assentada, minimiza a saída dos renovadores e torna nebulosa a imagem de Carvalhas. Claro que, para o exterior, sempre se dirá ser tudo obra e decisão colectiva, mas sabe-se ser essa a cultura do partido. Renovação, por estas bandas, só a permitida pelo chefe! Finalmente, o Bloco de Esquerda: dificilmente se poderia prever triunfo mais insofismável! A triplicação do número de deputados transporta o BE de uma posição algo fácil de “Mafalda, a contestatária” para uma posição de grupo parlamentar incontornável. E sabe-se que o Bloco é um conjunto, já difuso embora, de uma série de pequenos partidos, movimentos e independentes, com ideias diferentes sobre a sua posição na sociedade e na política. O que até agora não era relevante. As novas responsabilidades (mesmo que sejam só perante os eleitores) vão obrigar a clarificações. Embora a maioria absoluta do PS tenha retardado a necessidade dessas clarificações, elas ir-se-ão tornando urgentes, à medida que o grupo parlamentar desenvolva o seu trabalho. A posição pública do BE perante as coisas, até agora fácil de concertar, vai-se tornando mais difícil e complexa de encontrar: o que antes era decidido a três, passa a ser decidido a oito! E é sabido que, embora a cada cabeça sua sentença, Bloco tem que ser bloco, sob pena de deixar de ser! Pode ser que tudo se venha a passar sem “sangue”, quer no BE, quer no PC, quer até no PS. Mas creio que, de alguma forma, acabaram-se os tempos fáceis da oposição. Ainda bem! Acho que as coisas estão melhor assim. Mais de acordo com o que deveriam ser sempre. O futuro que começou no domingo o dirá!
(Pensando bem, acho que deveria mudar o título desta crónica e chamar-lhe “Cenas dos próximos capítulos” mas não… Deixo ficar como está! Até ver.)

2005-02-16

O senhor que se segue...

Estamos já na recta final para estas eleições. Os dados estão há muito lançados e já nada parece poder alterá-los. Mas há sempre esta tendência de se olhar para trás e se tentar ver o que efectivamente de bom e de mau fez o governo que agora vai a votos. Isto, porque a oposição foi mesmo isso: oposição! E a oposição tem aparentemente como papel contrariar o governo vigente naquilo em que dele discorda. É hábito dizer-se que quem está na oposição não ganha o poder: quem o tem é que o pode perder. Creio ser bem verdade porque, se o(s) partido(s) que estiver(em) no poder tiver(em) obra feita, torna-se muito difícil desaloja-lo(s). Olhando para trás, poucos motivos encontro para que o actual poder se mantenha. A primeira coisa que há a fazer é tentar saber se se considera o actual governo, o mesmo que saiu das eleições ou não. Aparentemente assim seria, e terá sido essa mesmo a ideia do Presidente Sampaio ao aceitar o abandono de Durão Barroso do cargo de primeiro-ministro: se o PSD tinha ganho as eleições e se se tinha coligado posteriormente com o CDS, estaria em condições de manter um governo estável, se (quase) tudo se mantivesse. E o Dr. Pedro Santana Lopes assumiu o poder. Seria um governo que deveria continuar e prolongar o que havia sido feito até então, sem grandes alterações. Mas o facto é que se assistiu à formação de um governo quase totalmente novo e, mais ainda, a uma profunda alteração da estrutura do próprio governo. Há muito tempo que não se viam alterações tão profundas na atribuição de competências aos ministérios. Essas alterações implicam a transferência de assuntos de uns ministérios e secretarias de estado para outros, para além da mudança da tutela de muitos serviços. Mas mais se quis fazer: alterou-se a localização geográfica de algumas secretarias de estado, sem se entender muito bem o que se pretendia ganhar com isso. Não sei o que se terá ganho, mas sei que ainda hoje não estão completamente funcionais! No que se refere à política do governo, muito mudou. O rumo que Manuela Ferreira Leite tinha imprimido à finanças foi profundamente alterado, com as naturais perturbações que isso sempre implica. E, concorde-se ou não com o que estava a ser feito, sabe-se que as coisas ficam piores quando são suspensas a meio. Daqui se conclui que o Governo Santana Lopes pouco teve a ver com o governo anterior dos mesmos dois partidos, e que aceitou perder tempos preciosos na marcação dessa mesma diferença, quando à sua frente teria sempre menos de dois anos de vida.
De resto, o governo começou logo de forma estranha, com o Ministro Paulo Portas a saber do nome do seu ministério ao mesmo tempo de todos que todos os que assistiam à posse através da televisão! Isto, depois de uma secretária de estado ter mudado de pasta (da Defesa para a Cultura!) durante essa mesma tarde! Estava marcado o signo da governação, sempre agitada, surpreendente, imprevisível e atabalhoada. E depois foi o “Caso Borndiep” aparentemente do foro da saúde ou da justiça, a ser gerido pelo Ministro da Defesa e do Mar, e o “Caso Marcelo Rebelo de Sousa”, e muitos outros casos que nem nome chegaram a ter. Este governo foi fértil em escândalos, desentendimentos e “gaffes”! Sem falar na permanente dança das cadeiras de secretários de estado, ou na célebre imagem evocada pelo primeiro ministro de o governo ser um recém nascido a quem os irmãos mais velhos (leia-se membros notáveis do seu partido) davam pontapés, marcando o início da vitimização! E assim corria o Governo Santana Lopes, atribulado, vertiginoso, dramático, preocupante e sempre mediático. Tudo acabaria num fim de semana em que o ministro Chaves, aparentemente trocado por um casamento de uma colaboradora do primeiro ministro, resolveu sair do governo batendo com a porta. Foi a gota de água no copo de Jorge Sampaio, que se decidiu a dissolver a Assembleia, provocando eleições. Esse motivo em si não seria suficientemente relevante, mas foi a gota que fez todo o copo transbordar. E era o copo que a todos preocupava, não a gota. A partir daí e até ao período eleitoral, tudo ficou mais calmo, levando os mais incautos a concluir que este governo era (mesmo assim) melhor sem governar que quando a isso se tentava sem sucesso dedicar. É por isso que entendo que, se as eleições forem ganhas, como é previsível, pelo Partido Socialista, o maior mérito caberá, quer se queira, quer não, ao Dr. Santana Lopes! Se, como pretende o Eng. José Sócrates, o PS obtiver a maioria absoluta, então já poderá reivindicar essa conquista como uma vitória, na luta directa com as outras forças que lhe disputam o terreno.
Em conclusão e olhando para trás em jeito de reflexão pré-eleitoral de prós e contras, acho que o que de melhor fez o Governo Santana Lopes, foi não governar. E isso é manifestamente pouco para se querer ou poder ganhar eleições. Saudemos então o senhor que se segue…

2005-02-09

Muita parra e pouca uva...

Parece-me inevitável escrever sobre as eleições. É que tudo nos jornais, na televisão, nas rádios nos faz lembrar que estamos em período eleitoral. E estamos. Já há algum tempo. Até domingo, chamava-se pré-campanha. Desde então, chama-se mesmo campanha. E em tudo isto há coisas que me surpreendem! É verdade, ainda há coisas que me conseguem surpreender, ou porque só agora pensei nelas, ou porque agora são mais visíveis, ou ainda porque agora se notam mais. Um das coisas que me surpreende é o frenesi desta campanha: nunca vi tanta inauguração, tanta deslocação, tanta actividade. Normalmente, em campanhas do mesmo tipo, as inaugurações que aconteciam estavam programadas e decorriam com a normalidade das coisas que tinham de acontecer. Sabia-se que eram programadas para acontecerem naquela altura, mas havia uma certa lógica nisso, pois era de alguma forma o fecho de um ciclo. Desta vez, em que o ciclo normal foi interrompido, pode ser que seja só aparência, mas dá a ideia que tudo é utilizado para inaugurar. Ele foram meia dúzia de quilómetros de auto-estrada, protocolos com câmaras, ou a abertura (para o ano que vem) de um aeroporto militar ao tráfego civil. E o que eu sinto é que um governo que só tem meia dúzia de meses de vida e foi “despedido” por má governação, dificilmente se pode apropriar do que houver para inaugurar.
Do que não se ouve falar, é de como vai ser o nosso futuro. Está-se de acordo no que se refere ao adiamento da idade da reforma, mas ninguém nos diz como iremos começar a “convergir” com a Europa sem vender “anéis” para pagar o défice. Ou que modelo de sociedade nos propõem. Ou mesmo que modelo de Administração Pública. A administração pública parece que serve para tudo: para dizer que não funciona, para determinar os aumentos de todos os trabalhadores, para dar emprego aos “boys” e para privatizar quando rentável. Mas ninguém nos diz que nova função pública deveríamos ter para cumprir o que se lhe pede, ou como deveria estar equipada. Nem em que sectores os estudos apontam com preferenciais para o nosso desenvolvimento. Há anos que se sabia que a China teria o mercado europeu aberto aos têxteis este ano, mas até agora ninguém se tinha (pré)ocupado com esse sector. Que futuro será o deste país? Que futuro preparamos para os nossos filhos? Nenhum partido (ou coligação) tem tido isso em mente. E parece que o único líder que não tem filhos é o Paulo Portas…
Nunca vi tantas fotografias de tão poucos homens! Se há vinte anos estes mesmos partidos criticavam o culto soviético ou chinês da personalidade, agora não sei o que hei-de pensar deles! Mesmo o PC e o BE embarcaram na nau da entronização dos chefes! Eles que sempre afirmaram (e bem, em minha opinião) que mais importante que as pessoas eram as políticas! Agora, é vê-los (ao Louçã e ao Jerónimo) a sorrir para todos nós tal como todos os outros líderes. Parece até que agora se inicia uma nova etapa da política portuguesa: a dos líderes fotográficos. Nos partidos que poderão nomear um primeiro-ministro ainda se explica, embora seja criticável, mas nos outros… Até o Garcia Pereira alinhou! Parece que foram todos à mesma empresa de publicidade.
Vi um debate na televisão, entre os dois “primo- ministeriáveis” e não gostei. Os jornalistas (muitos) começaram por perguntar o que se lhes oferecia dizer sobre os boatos que correm. Em vez de liquidarem a questão em breves minutos e focarem o debate no realmente importante, deixaram correr longos minutos, numa concessão (quase diria alusão) a programas como o Big Brother ou a Quinta das Celebridades. Que me interessa a mim a vida intima dos líderes? Desde que eles sejam coerentes e não a arvorem em bandeira, acho que todos devem ter direito à sua privacidade. Não entendo como ainda é possível lançar boatos sobre a sexualidade de cada um, como se isso fosse inibidor do que quer que seja! Sabemos que Afonso Henriques não podia ver uma mulher que não lhe “rezasse pela pele” e sabemos também que Alexandre o Grande não tinha aí o centro das suas atenções. Ambos foram grandes: um, fundou Portugal, o outro, o maior império de que há memória nesta região do mundo. O decoro com que a relação de Sá Carneiro com Snu Abecasis foi tratada, contrasta com a boataria que agora se pretende promover a manchete de jornal. Não digo “de colo”, mas “decoro”.
É por tudo isto que esta campanha me entristece. Não vejo política, nem vontade dela. Vejo, quanto muito, gestão. E acho que a gestão só funciona quando os objectivos são claros e a imaginação já traçou o rumo. Só que acho que este país (ainda) precisa de um rumo. Ainda precisa de imaginação. Ainda precisa de objectivos. Precisa de quem motive os portugueses e eleja a imaginação como um bem a valorizar. Não foi o rei D. Manuel que iniciou os Descobrimentos: ele só geriu o que lhe vinha de trás. Foi o visionário D. Henrique, secundado pelo estratega D. João II. E é isso que, quanto a mim, falta a Portugal: um visionário e um estratega! Não necessariamente na mesma pessoa, mas em simultâneo. Alguém que queira ficar na memória do tempo, mas que não se preocupe em que tempo isso será. Porque o que é bom para todos, nem sempre logo se vê.

2005-02-02

Muita cara e pouca uva...

Estamos agora em plena campanha eleitoral. Ainda que lhe chamem pré-campanha, todos temos consciência de que já é da verdadeira campanha eleitoral que se trata. Os cartazes inundaram as ruas e as praças, essas mesmas praças e ruas que por vezes nem sentimos como nossas, tal é o estado de tensão e divorcio em que por vezes estamos com quem nos governa. Data do 25 de Abril essa conquista mas, por vezes, os grandes espaços é como se não fossem nossos, mas são. Só enquanto tal, eles podem ser usados pelos partidos. Partidos esses que são, eles também, dos seus militantes e de quem neles vota. Isto são verdades do Senhor de la Palice, mas o facto é que por vezes nos esquecemos das coisas mais básicas por “falta de uso”. Seremos, portanto, chamados a exercer o nosso direito fundamental de votar, que é também um dever (para connosco, para com os nossos filhos), no próximo dia 20. Tentaremos através desse acto, quantas vezes o único acto de cidadania que exercemos com certa regularidade, reaproximar-mo-nos daqueles que, por delegação nossa, nos dirigem e governam. E é urgente que tal se faça, pois nestes últimos tempos a proximidade não tem sido grande. Julgo até que tem sido pequena, diminuta mesmo, e próxima do divórcio perfeito. Se não se desse o caso de estarmos a falar de pessoas que têm como tarefa servir (e até antecipar) os nossos interesses, diria que se tratava de um divórcio como há muitos, em que ninguém é imediatamente culpado. Mas o facto é que se trata de um divórcio sem mútuo consentimento, em que um dos cônjuges tem vindo a delapidar o património comum que se comprometeu a gerir e até a ampliar. Mas deixemos isso e pensemos nos pretendentes que se nos apresentam para o nosso próximo casamento, agora que o divórcio é oficial. E o que sabemos desses pretendentes? Sabemos a figura! Não só nos atulham a casa com fotografias de todo o género (pela TV, pelos jornais e pelas revistas), como ainda nos enchem as praças e ruas delas, em tamanho gigante. Mas de declarações de intenções, de promessas firmes, nem uma palavra. Ou quase! A que se propõem? O que pretendem fazer? Como pretendem fazê-lo? Sabemos que os anéis e os dedos serão sempre os nossos, que a força e o trabalho serão sempre os nossos, tal como os sacrifícios serão sempre nossos, mas há que saber como eles pensam geri-los e aproveitá-los. Até agora, só fotografias que, como se sabe, são válidas por pouco tempo. E lá diz o povo (o tal povo que vota e que terá de ser de facto quem mais ordena), “quem vê caras não vê corações”... Queremos “ver” o coração! Queremos ler o programa político, queremos saber o que se propõem fazer e como, e dispensamos fotografias do melhor ângulo, que dentro em pouco não serão mais que uma desbotada lembrança. Mas de “coração”, nada! Estranhamente, todos os partidos apostam na imagem do líder, qual salvador ou figura providencial e omnisciente, como se todas as outras centenas de candidatos fossem seus simples reflexos! Desde o CDS-PP ao PCTP-MRPP, passando por todos os partidos entre um e outro, sem excepção! Sabemos que só um de entre todos será primeiro-ministro, mas o facto é que, de cada partido, por mais pequeno que seja, só nos é dado a conhecer o líder. Então um partido é só o líder ou a sua imagem? Sabemos até, por experiência própria, que o líder pode não ser o mais importante: se ele se for embora para uma qualquer França ou Bélgica, outro líder sairá das “brumas da memória” desse partido, tomará conta do leme e assumirá o governo (ou o desgoverno...) que entende pertencer-lhe por direito. Ainda há pouco isso aconteceu, com os resultados que se conhecem. É por isso que o Programa é importante e deve ser conhecido e discutido. Para que possa ser conscientemente responsabilizado quem se compromete a leva-lo à prática. Do líder poder-se-á dizer: “É feio!” ou “É bonito!”, mas não é isso que nos interessa. No entanto, pelo andar da carruagem, pouco mais haverá a dizer no final desta campanha alegre, porque são as suas fotografias que mais enchem a nossa vida e as nossas cidades. E de duas, uma: ou os programas são todos iguais e só a imagem dos líderes muda, ou então os partidos não estão interessados em que lhes saibamos os conteúdos e os objectivos, ou seja, as diferenças entre si. Poder-se-á argumentar que eles se esforçam por nos informar desses conteúdos nos comícios e nas intervenções através dos média mas, (lá diz o povo) “palavras leva-as o vento...”. E o que nos fica são as caras deles, não os programas. Nem sequer as caras dos deputados que elegemos: tão só as caras dos líderes dos partidos. Porque as caras dos deputados que de facto elegemos (e que perante nós e pela nossa região são responsáveis), não aparecem em lado nenhum, a não ser nos comícios em que nos vêm pedir o nosso voto. E voltaremos a vê-los, se tudo correr normalmente, dentro de uns quatro anos. Entretanto, ignorar-nos-ão como se tivéssemos deixado momentaneamente de existir. Acho que já começa a ser tempo de exigirmos existir a tempo completo: Porque não exigimos a criação de locais onde periodicamente nos encontremos com os nossos eleitos (que são pagos com os nossos impostos para nos representar)? A mim, parece-me uma boa proposta para acabar com os chamados ”pára-quedistas” e para dar mais força aos deputados da nossa região lá na Assembleia da República. Porque senão eles serão tão só os deputados do partido e não os nossos deputados. E também para que eles deixem de ser parecidos com os “Pilhões” que existem mas que nunca ninguém vê! Para que a cada cara corresponda um corpo, uma cabeça, e uma sentença. Para que quem vê caras veja também corações. Para que a cada parra corresponda uma uva! Para que, finalmente, comecemos a existir de corpo inteiro e a agir a tempo completo, como parece exigir o nosso martirizado país de que todos gostamos.
Para que tudo dê certo.