Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-03-30

Annus Mirabilis

Faz este ano cem anos que Albert Einstein publicou cinco dos seus mais importantes trabalhos científicos, com isso mudando a face do mundo. Estão neste lote de luxo, a fabulosa Teoria Restrita da Relatividade, os fundamentos da teoria quântica (que hoje nos permite abrir portas através de células fotoeléctricas e muitas outras coisas) e a medição do tamanho dos átomos (a sua tese de doutoramento). Por isso se chamou ao ano de 1905 o Annus Mirabilis. Cem anos depois, somos todos tributários do génio de Einstein, que sempre vemos como um velho jovial, desgrenhado e simpático. Esquecemos é que nesse já longínquo ano de 1905, Einstein tinha apenas 26 anos! Todo o resto da sua longa vida ele dedicou ao desenvolvimento das formulações então feitas, sem descurar a sua tenaz militância anti-fascista (que o levaram a emigrar para os Estados Unidos da América em 1933) e pacifista (subscrevendo em 1955, o seu último ano de vida, o manifesto de renúncia às armas nucleares que ele próprio tinha tornado possíveis). Pois há oitenta anos, a 11 de Março de 1925, o Professor Albert Einstein aportou em Lisboa, a caminho do Atlântico Sul. Das breves horas que em Lisboa passou, ficaram-lhe impressões que anotou no seu diário. Não resisto a reproduzir algumas, pelo que revelam de nós, num rápido olhar de um homem excepcional: “Dá uma impressão maltrapilha, mas simpática. A vida parece correr confortavelmente, bonacheirona, sem pressas ou mesmo consciência. (...) Por toda a parte tomamos consciência da antiga cultura. (...) Esta terra mal cuidada inspira em mim uma espécie de saudade.” Há oitenta anos foram estas as impressões que deixamos no ilustre Einstein, para além de uma fugaz mas esbelta imagem das varinas de então! São obviamente observações de passagem, sem a pretensão de qualquer profundidade ou rigor. Disso são testemunha as formas como Einstein as coloca: “Dá a impressão...”, “A vida parece...” Mas nós sabemos descortinar o que de verdadeiro existe nestas breves notas! Se se entende o epíteto de simpático, melhor se entende o de maltrapilho. Muitos anos depois, e com uma perspectiva muito diferente, José Fanha caracterizar-se-ia em nome de todos nós como “Eu sou português aqui, nos cordões do desenrasca (...), um português sem mestre, mas com jeito!” e é tudo isso que vamos sendo, embora o Mundo mude e cada vez nos seja mais penosa e problemática a manutenção dessa imagem descuidada (“sem pressa ou mesmo consciência”) mas verdadeira. Para que possamos manter o essencial da nossa genuinidade, é urgente mudar alguma coisa e creio que a falta de consciência deveria ser uma delas. E para que esta terra “mal cuidada” continue a inspirar “uma espécie de saudade”, será urgente que passemos a ter mais respeito por nós próprios e que larguemos de vez o “maltrapilhismo” a que nos habituámos e que nunca nos trouxe nada de bom. Basta um pouco de organização e sobretudo de respeito por nós próprios. Se nós não tivermos respeito por nós próprios, como poderemos ter pelos outros e consequentemente, como poderemos querer que os outros o tenham por nós? Perguntar-me-ão como será possível querer em pouco tempo mudar coisas que nos estão tão arraigadas e eu respondo que, se “por toda a parte tomamos consciência da antiga cultura” que até os outros reconhecem que temos, então não será difícil alterar aspectos que de alguma forma nunca fizeram a nossa história, mas sim as nossas estórias. Quanto ao curto espaço de tempo, sempre vos digo que se alguém tivesse vaticinado que o ano de 1905 seria o Annus Mirabilis, porque a partir dele o Mundo mudaria e com ele a toda a forma de o pensar, ter-lhe-iam chamado louco e, no entanto foi isso mesmo que aconteceu. Não peço portanto, mais que um pequeno Annus Mirabilis, e à escala nacional. Seria uma mudança pequena mas de profundas repercussões no nosso presente e no nosso futuro. Portanto, também no futuro dos nossos filhos. E que melhor legado lhes poderíamos deixar? Todos temos o direito a ter respeito por nós próprios e o dever de o ter pelos outros. Só que o respeito pelos outros só pode existir se primeiro tivermos respeito por nós próprios. E é só isso que se pede: respeito por nós próprios! Se de alguma forma isso se conseguir, acredito que será seguramente o nosso Annus Mirabilis! Porque o respeito por nós próprios engendra a confiança em nós próprios e só com essa autoconfiança nos será possível alcançarmos as metas de desenvolvimento e bem-estar de que diariamente nos falam e a que temos direito. Se é verdade que “querer é poder”, deverá ser igualmente verdade que “não querer é não poder”. Façamos o pequeno esforço (cada um de nós) de deixar de ser maltrapilhos e sem consciência e transformemos o ano de 2005 no nosso Annus Mirabilis. Vão ver que vale a pena!

2005-03-23

Burocracia: sim ou não?

Há leis para tudo e mais alguma coisa. Há regulamentos e posturas em todos os campos da actividade humana. A complicação impera. Parece mesmo que tudo o que não tem procedimentos predeterminados, não pode ser feito. Recordo até que, para quem recebe pensões de sobrevivência, há que apresentar uma “prova de vida”. Mas ir lá e dizer “Aqui estou!”, não prova nada! É preciso apresentar um papel! Mesmo que se esteja morto... Ou pelo menos, era assim! Os campos em que a burocracia se instalou até este ponto de absurdo são inúmeros. Estou em crer que, se se pretende agilizar e modernizar a Administração Pública, se deve começar pela simplificação administrativa. À Administração Pública repugna tudo quanto seja simplificar. Recordo-me que há alguns anos foram introduzidos alguns procedimentos em programa informático, que se destinavam a simplificar todos os processos. E o que aconteceu? Introduziram-se os computadores e os novos processos, mas os antigos não foram banidos. O que resultou é que tudo ficou mais complicado: aos antigos procedimentos juntaram-se os novos e o trabalho multiplicou-se, sem ganho para ninguém, antes pelo contrário. Mesmo assim, e embora muito mais haja para alterar, muito já se mudou em Portugal. Há uns anos, em viagem profissional a um país da América do Sul, fui como é meu hábito espiolhar uma livraria. Encontrei um pequeno livro que decidi comprar, e que custava o correspondente a 4 ou 5 cêntimos de euro. Mesmo relativamente ao país em questão (o Peru), era muito pouco dinheiro. Dispunha-me a pagar, sacando algumas moedinhas do bolso, quando o empregado que gentilmente me atendia me disse: “Não se paga aqui. Pague na caixa com esta factura.” e estende-me um papel em triplicado com a descrição manuscrita do livrinho. Lá chegando e mal entrego os papéis e o dinheiro, assisti a um impressionante baile de carimbadelas que a simpática senhora da caixa efusivamente distribuía pelos três papéis, devolvendo-me dois no final da dança. Com eles me dirigi ao balcão inicial, onde o meu primeiro interlocutor, de braços cruzados, sorria. Estendo-lhe os papéis e peço-lhe o livro. Diz-me ele: “Já enviei para o expediente e embalagem...” “Para onde?”, pergunto eu. “Para a embalagem, acolá!” tornou ele com um sorriso de quem explica coisas óbvias, apontando-me outro balcão junto à saída. Para lá me dirigi, entregando finalmente os dois papéis restantes. O funcionário do expediente confere detalhadamente os meus papéis com um outro que encimava o pequeno embrulho, saca de mais uma resma de carimbos e acaba literalmente com o resto do espaço sobejante nas facturas. Com um rasgado sorriso, entrega-me finalmente o meu pobre livrinho. Agradeço-lhe e já tinha dado uns passos quando ele me chama e, de braço estendido com um único papel na mão me diz “Não se esqueça do recibo...”. Era o martirizado papel, que mais parecia um mostruário de carimbos. Sinceramente pensei que o meu livro só podia era ter dado prejuízo, mas o que me fascinou foi que com uns míseros cêntimos, tinha provocado o trabalho de três pessoas, sem nenhum ganho aparente.E ainda hoje estou para saber que destino terão tido todos os papéis carimbados que ficaram na loja.
Vinha tudo isto a propósito do excesso de burocracia. Pessoalmente, não nego a utilidade de alguma burocracia, mas quando ela se torna obsessiva, quando ela passa a ser um objectivo em si, torna-se num obstáculo ao bom funcionamento e á eficácia que pretende fomentar. Por outro lado, quanto mais complicados e incompreensíveis são os procedimentos, mais todos nós ficamos na mão dos burocratas. E esse é um dos princípios que gera favorecimento e consequentemente corrupção: se precisamos de ajuda, se precisamos de quem nos guie através dos mistérios de um processo, caímos fatalmente nas mãos de quem controla esse mesmo processo. O uso desse pequeno poder (o conhecimento do processo), favorece quem o conhece. E daí à corrupção é um passo que alguns estão dispostos a dar. É por isso que qualquer combate ao favorecimento e a práticas ilícitas tem necessariamente de começar pela simplificação dos processos burocráticos a que qualquer cidadão está sujeito. Se nós entendermos todo o caminho que tem de seguir um “papel”, torna-se-nos mais fácil perceber se alguém está a meter “pauzinhos na engrenagem” ou se está diligentemente a cumprir o “seu papel”. Por outro lado, se houver procedimentos mais simples, o trabalho será reduzido e logo, mais rápido.
Esperemos portanto que com a reforma do Estado, tudo se torne mais fácil, simples e consequentemente, mais transparente. Se assim for, acredito que a evasão fiscal e outros esquemas de corrupção se tornem mais detectáveis e mais difíceis de praticar. Quem paga impostos só terá a ganhar com isso, uma vez que a competição que se pretende estimular será mais transparente e equitativa! Não é possível um honesto comerciante (ou industrial, ou profissional liberal) competir em preço com quem não paga impostos. E do lado do consumidor? Ganhará ele alguma coisa? Também: não é possível exigir rigor ou levar a tribunal alguém com que não se tem uma relação comercial documentada. E quantas mais pessoas houver a pagar impostos, menor será o défice, melhores serão as contas públicas e mais remota será a hipótese de um qualquer aumentos de impostos.

2005-03-16

O novo Código da Estrada, o civismo e o bom senso

Está por estes dias a ser publicado um novo Código da Estrada. Ainda não tive acesso a ele, mas já li e ouvi alguma coisa sobre as suas principais modificações, ou o que os média pensam ser de destacar neste novo código. E tudo aparentemente se resume ao aumento da repressão para as mesmas infracções de antes. Isto é, transparece que este código será muito semelhante ao anterior, só que agravando as multas e as consequências sobre os prevaricadores. Os excessos de velocidade serão mais penalizados, o excesso de álcool será mais penalizado, o estacionamento irregular será mais penalizado. Tudo será mais penalizado. Em resumo, parece que custará mais caro não cumprir o código, e que será mais fácil ficar-se sem carta de condução.
Ninguém duvida que seja urgente diminuir a sinistralidade, e também ninguém duvida que seja imperioso que se passe a conduzir melhor em Portugal! Os records europeus de acidentes rodoviários e o número de mortos na estrada, que as colocam como uma das mais importantes causas de morte em Portugal exigem que se faça alguma coisa, e rapidamente! Mas será que a repressão é a forma mais eficaz de o fazer? Será que o povo português só entende a linguagem da violência e da repressão, como forma de tomar consciência e de melhorar a sua atitude ao volante? Estranha forma esta de educar, de persuadir, de fazer tomar consciência de si próprio... Recuso-me a acreditar que assim seja! Não acredito que a “via económica” e a “via repressiva” sejam as únicas vias possíveis ou que sejam sequer as mais eficazes. Dou exemplos: há bastantes anos, houve uma campanha para “tirar” as crianças dos bancos da frente. Lembram-se do “Comigo o miúdo vai sempre atrás”? Era uma campanha que explicava os males (evidentes) de transportar crianças nos bancos da frente e tinha essa frase-choque. Funcionou perfeitamente. Interiorizaram-se os riscos de transportar crianças à frente e hoje é raríssimo vermos alguém a não cumprir essa regra. Somos todos nós que reprovamos o seu incumprimento e que, desta forma, ajudamos a fazer cumprir o código, assim melhorando a segurança das nossas crianças, dos nossos “miúdos”. Pelo contrário, houve uma outra campanha em que um conhecido actor avisava, com um tom entre o ameaçador e o cúmplice “É melhor cumprir o código...”, assim como quem diz “Olhe que eles andam por aí...”, em que a mensagem de segurança ficava bastante diminuída em relação à mensagem de ameaça, e foi o que se (não) viu. Embora tenha sido uma campanha muito mais recente que a outra de que falei antes e de ter sido protagonizada por alguém bem mais conhecido, acho que muito menos gente se lembrará dela. Nada ficou! E no entanto é melhor, é mesmo urgente cumprir o código! Não porque “eles andam aí” mas porque todos nós andamos “por aqui”, é urgente que se passe a conduzir melhor e menos agressivamente em Portugal. Quanto a isso, acho que todos estamos de acordo.
Acho que ao novo Código da Estrada deve corresponder uma nova atitude da parte de todos os intervenientes na sua aplicação, que contribua para atingir o objectivo que esse código declaradamente se propõe: diminuir a sinistralidade em Portugal! Assim, entendo que deveria ser reforçada a sinalização indicando o perigo de acidentes nos locais mais perigosos (os célebres “pontos negros”) e aí fazer incidir maior policiamento e maior controlo de velocidade. Ou seja, preferindo a fiscalização de troços de maior sinistralidade em vez dos troços onde é mais fácil apanhar maior número de incautos condutores, independentemente da sua perigosidade, como habitualmente se vê. É que assim, a mensagem que passa é a de que a polícia precisa de mais dinheiro e não nós de mais de segurança, o que é errado: todos precisamos de mais segurança. Que se reforçasse o controle do grau de alcoolemia antes dos condutores entrarem nos veículos, em vez de se colocarem as brigadas a umas centenas de metros dos locais de diversão, como é usual ver-se. Porque se sabe onde e quais são esses locais. Ou seja, que se coloquem os agentes da autoridade como amigos e conselheiros que previnem e não como carrascos que só reprimem.
Não falo aqui, porque entendo que devem ser entendidos sempre casos isolados, da eventualidade do aumento das tentativas de favorecimentos ou de aliciamentos para a corrupção (que partem normalmente dos prevaricadores) e que, com o aumento do peso das multas e penas, passam a ser mais tentadores. Não duvido que, se se tornam mais comuns as infracções que dão direito à apreensão da carta de condução ou ao pagamento de multas mais pesadas, se tornem também mais tentadoras e frequentes as tentativas de aliciamento dos agentes para que façam “vista grossa” a essas mesmas infracções.
Será que o aumento das multas levará mais gente a cumprir o Código? É possível, mas eu estaria tentado a afirmar que o cumprimento do Código tenderá a ocorrer sobretudo à frente das forças policiais. Quando elas não estiverem à vista, tudo deverá continuar a passar-se mais ou menos como até aqui, com as consequências que se conhecem. E será que a apreensão das cartas de condução fará aumentar imediatamente a segurança rodoviária? Mesmo se se acreditar que a carta só será retirada aos maus condutores (aqueles que prevaricam) e só a eles, ainda levará algum tempo até que todos tenham sido retirados da estrada.
A lógica da multa pesada e da apreensão de carta é, em minha opinião, a mesma que leva ao estabelecimento da prisão perpétua e da pena de morte. E não consta que seja nos países onde elas existem que se verificam menos crimes ou que, após o seu estabelecimento, os crimes tenham diminuído. Se por um lado todos temos tendência a criticar (e bem) quem põe a nossa vida em perigo, todos temos também tendência a não ser delatores. E este código, aparentemente, coloca-nos na posição de dizer “Se a polícia o vir, ainda fica sem carta!” em vez de dizer “São tipos destes que põem a nossa vida em risco!” e toda a nossa atitude perante o mesmo facto é completamente diferente.
O que mais falta nas estradas portuguesas são bom senso e civismo! As asneiras que a todo o momento se vêm são produto, em minha opinião, da falta de bom senso e de civismo. E a falta de bom senso e de civismo não se combatem só nem essencialmente com a repressão, mas sobretudo com bom senso e com civismo. E é isso que eu temo que falte a este novo código, ou à forma de o aplicar que se prevê. E assim poderemos estar condenados a manter em Portugal os vergonhosos e preocupantes recordes de sinistralidade das estradas europeias.

2005-03-09

A imagem da verdade e a verdade da imagem …

Tenho para mim que é nas coisas pequenas que se conhecem as pessoas. Até há quem diga que é nas coisas pequenas que se vêm os grandes homens. Não chegarei a tanto, mas considero que nas coisas pequenas, as pessoas revelam-se mais que nas grandes. Por coisas pequenas entendo aquelas que se fazem quase sem pensar. Aí, o que aparece, é a verdadeira personalidade, é o ser profundo que teve nesse momento uma hipótese de se revelar. Assim como se o censor que existe na mente de cada um de nós estivesse em repouso e toda a personalidade profunda pudesse, por um momento, manifestar-se. São essas reacções que nos levam a dizer de pessoas que conhecemos mal “Nem parecia ele…”. É claro que, quem conhece bem essas pessoas, acha regra geral que essas foram manifestações genuínas da personalidade privada dessas pessoas. É por isso que, para mim, as reacções espontâneas e irreflectidas são mais genuínas que as reacções pensadas. Quando há tempo para pensar, amadurece-se uma resposta ou uma reacção que leve os outros a fazer determinada imagem de quem a profere. É assim uma resposta construída, que contribui (ou pretende contribuir) para uma imagem também ela construída, mas que pode não corresponder à realidade.
É essa a imagem que temos da maior parte dos chamados famosos e também de muitas instituições. Uns e outros constroem laboriosamente, com o apoio dos média, a imagem que pretendem que tenhamos deles. É por isso que as grandes empresas têm “porta-vozes” e “assessores de imagem” e com eles gastam rios de dinheiro. Mas quando nos temos de dirigir a essas instituições por qualquer razão, é por vezes a desilusão… Somos mal tratados, ignorados ou até desprezados. Por vezes mesmo, outras coisas ainda piores. Quase o mesmo acontece com os famosos. Ao vivo, muitas vezes, não conseguem (ou não querem) corresponder à imagem que construíram. O que vemos é geralmente a imagem que se pretende que vejamos, e não a real. Recordo, como mero exemplo, que Rock Hudson, a seu tempo um sex symbol de Hollywood, era na realidade homossexual. Toda a sua vida pública foi uma mentira, forjada e produzida a bel-prazer pelos grandes estúdios, de forma a melhor vender uma imagem que assim era mais apetecível, embora com completo prejuízo para o próprio. Há também casos de branqueamento de imagens que em seu tempo não seriam exactamente aquelas a que hoje temos direito. Nesse domínio, o grande mestre e artífice foi Staline, que além de mandar eliminar fisicamente quem lhe fazia frente, se dava também ao luxo de mandar apagar essas mesmas pessoas das fotografias em que apareciam antes de caírem em desgraça. Leon Trotski foi de todos esses desaparecidos, o mais ilustre. A realidade a que temos direito é portanto uma verdade parcial e, muitas vezes, truncada, forjada e falsa. Há que aproveitar os pequenos momentos (deslizes) em que uma outra realidade espreita por detrás das máscaras, para melhor podermos aceder a uma maior parcela de verdade.
Vêm-me todas estas reflexões ao espírito, a propósito da atitude de alguns dirigentes do Partido Popular relativamente ao Prof. Diogo Freitas do Amaral. Da galeria de fotografias de dirigentes que, ao que consta, havia na sede do partido, mandaram retirar a do seu fundador. Tudo porque ele, que já nem milita no partido que fundou e que entretanto mudou de nome, de dirigentes e de orientação, resolveu aceitar ser ministro no governo do Eng. José Sócrates. Passou assim Freitas do Amaral a ser considerado “persona non grata” e enquanto tal retirado do “convívio fotográfico” dos outros dirigentes (e remetido ao Partido Socialista de que nunca foi sequer militante). Será de prever que outros se lhe sigam e que, no fim da depuração, só fiquem “os puros”. Mas isso é algo que nem me incomoda, porque é lá entre eles. O que realmente me preocupa é existirem dirigentes partidários (porque a atitude não foi tomada por um dirigente sozinho, segundo creio) que têm esta personalidade profunda, que se manifestou num repente de irritação e irreflexão. Parece que no CDS (ou PP, ou CDS-PP) há gente que, subliminarmente, acha que pode e deve reescrever stalinianamente a história do partido onde milita, renegando parte dessa mesma história. Nunca nutri pelo CDS qualquer simpatia, mas sempre me habituei a respeitar quem ali militava tal como reciprocamente supunha que acontecia. Com esta atitude espontânea e irreflectida, fiquei a saber a verdadeira natureza da gente que dirige aquela instituição e qual o conceito que fazem da história e da sua manipulação. A partir daqui, como é possível acreditar na bondade e na genuinidade de qualquer atitude que venham a tomar? Foi um gesto irreflectido sim, e ainda bem!

2005-03-02

A secura dos dias, dos anos, da eternidade…

Nos últimos dias, choveu no Alentejo. Não o suficiente, mas o possível, mesmo com a ajuda da técnica do bombardeamento das nuvens altas. Estamos a passar o mais seco período de que há memória viva. Há pelo menos 100 anos que não chovia tão pouco! As barragens estão vazias ou com os níveis perigosamente baixos. A terra está seca, muito seca. Tão seca que, se chover torrencialmente, a água terá dificuldade em se infiltrar pela terra dentro e correrá sobre ela, com o risco de causar inundações. Se tivesse sido um ano normal, tal não aconteceria: a terra estaria húmida, haveria também alguma vegetação e a água, mesmo que fosse muita, teria mais facilidade em se entranhar pela terra adentro que correr solta por cima dela. Ou seria mais difícil tal acontecer. Por outras partes do Mundo, são as repetidas cheias ou a subida das águas do mar que afligem os povos que por lá habitam. Isto, sem falar em tremores de terra ou em tsunamis, que têm causas naturais e que sempre existiram. Fala-se que estas variações do tempo se devem ao aquecimento global do planeta. Que cada ano é menos frio que o anterior, e que as temperaturas têm vindo a tornar-se extremas: muito altas e muito baixas. Tanto quanto se sabe, as mudanças do tempo e as alterações do clima devem-se à poluição, aos gases de escape, à destruição da camada de ozono que protege a atmosfera. Diz-se também que todos nós somos responsáveis. Mas como poderemos nós poluir menos? Por aqui pelo Alentejo, a poluição é pouca e vive-se melhor que nas grandes cidades, onde o ar se assemelha mais ao escape de um autocarro que a uma brisa de um bosque. E “grandes cidades” são coisas que -mesmo assim- por cá não existem. Lisboa e Porto, mesmo com as suas áreas metropolitanas ombrearão, no máximo, com Madrid ou Barcelona. Tóquio, Nova York, Cidade do México ou São Paulo têm cada uma delas mais do dobro da população que Portugal inteiro e aí sim, a poluição é mesmo visível! É quase palpável. E é mesmo “cheirável”. E isso preocupa todos porque esta Terra é só uma e o ar não conhece fronteiras. Por mais longe que estejam essas cidades, mais tarde ou mais cedo (infelizmente, mais cedo) sofreremos por cá os efeitos dessas enormes cargas de poluição. E as alterações climatéricas devem ser a primeira manifestação disso mesmo.
Há poucos dias entrou em vigor o Protocolo de Quioto, que obriga os países de todo o mundo a poluírem menos, sob pena de pesadas sanções. Em nome já não da qualidade de vida, mas da vida ela própria. Todos sentiram necessidade de se organizar e disciplinarem a utilização da “quota-parte” do ar que lhes cabe. Poucos países ficaram de fora. Os Estados Unidos da América foram um entre esses poucos. Representam 5% da população mundial e não seria grave se esses mesmos Estados Unidos não fossem o maior poluidor do planeta: 25% da poluição mundial é directamente causada por eles. Traduzindo em números, se o resto do mundo poluísse proporcionalmente tanto quanto os Estados Unidos poluem, a poluição tornar-se-ia quíntupla da actual! Muito antes disso acontecer, o ar tornar-se-ia tão irrespirável em todo o globo que a vida tal como a conhecemos seria impossível. Isto é, o Planeta Terra seria um imenso e irrespirável tubo de escape. Entretanto, o clima teria mudado tanto e tão radicalmente que deveríamos estar em presença de uma atmosfera e de um clima semelhantes à que extinguiu os dinossauros sobre a Terra. O que se calhar já nem nos afectaria porque já estaríamos todos mortos. Ou seja, só é possível os Estados Unidos não assinarem o Protocolo de Quioto porque todos os outros países o assinaram. E é também por isso que não entendo o papel de modelo a seguir que esse país se reivindica. Não será nunca possível que todos os países se transformem em Estados Unidos da América, porque a Humanidade inteira morreria muito antes disso. Portanto, o ideal a atingir terá de ser outro. O ideal a atingir terá de ser o cumprimento do Protocolo de Quioto e não fugir a ele. Mesmo pelos próprios Estados Unidos. Em nome da vida. Da nossa vida e da deles. Até lá, os Estados Unidos irão aumentando a divida de vida relativamente a todos os outros povos do mundo. Enquanto eles continuarem a ser a excepção ao Protocolo de Quioto, cada ano será mais seco que os anteriores, mais extremo que os anteriores, mais irrespirável que os anteriores. Novas doenças, cada vez mais mortíferas e mais epidémicas continuarão a surgir. E a esperança de vida, que sempre tem vindo a aumentar, começará drasticamente a diminuir. Tudo em nome dos Estados Unidos da América como primeira potência mundial. Só possível com a apoio e o consentimento de todos nós. Esperemos que isto mude, enquanto tudo ainda é reversível, porque a Terra é o único grão de areia do Cosmos onde podemos viver.