Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-05-25

Para que não se esqueça o P.e Domingos Oliveira

Não tenho nestas crónicas comentado questões e posições das confissões religiosas que existem em Portugal, porque elas dizem fundamentalmente respeito aos praticantes de cada uma delas e são portanto do foro íntimo dos seus praticantes e do respectivo clero. É o que continuarei a fazer. Há no entanto posições e atitudes que, embora proferidas no âmbito dessas confissões religiosas, pretendem ser comentários ou críticas sobre a sociedade civil e laica em que vivemos, e com ela interferem. Sobre esses comentários “civis”, entendo que posso e de alguma forma devo tomar posição. É (ou foi) o caso, por exemplo, da posição da Igreja Católica sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez. Discordava a Igreja Católica que ela fosse despenalizada, e por isso se bateu forte e formalmente muitos anos. Aí, estava a interferir com a liberdade de todos, católicos e não católicos. Critiquei-a por isso. Agora que parece circunscrever a sua atitude à reprovação privada dos católicos que a pratiquem, creio estar a exercer o seu pleno e legítimo ministério e portanto, dentro dos limites naturais da sua respeitável actuação.
Vem este prólogo a propósito do caso da pequena Vanessa Filipa, cinco tenros e martirizados anos cujo assassínio chocou todos quantos dele tomaram conhecimento. Ao que consta, o sinistro epílogo da sua frágil vidinha, a morte por imersão em água a ferver, às mãos do pai e da avó, foi tão só o mais visível (e final) dos tormentos que sofreu. Sabemos ainda que terá havido sucessivas negligências e falhas da parte dos serviços públicos que deveriam ter velado pela sua segurança no seio de uma família instável. Essas falhas terão permitido que a curta existência da pequena Vanessa Filipa se tornasse num inferno em vida. A forma como foi assassinada não desmereceu os maus-tratos que terá sofrido na sua inocente existência. Esperemos que, ao menos, o seu sofrimento e morte não tenha sido em vão, e que os mecanismos de defesa de outras crianças em risco como ela, melhorem até se tornar razoáveis. Para além dos factos, já de si suficientemente sinistros para merecerem um comentário, o choque veio da alocução proferida pelo Padre católico Domingos Oliveira, na missa do sétimo dia em memória da pequena Vanessa Filipa, de todos conhecida. É lá possível perdoar a um profissional do perdão, que diz que o assassínio de uma criança, por mergulho em água a ferver, às mãos do pai e da avó, os seus mais directos protectores, é comparável à prática da interrupção voluntária da gravidez, mas menos criticável que esta? É lá crível que se argumente que aos cinco anos uma criança já se sabe defender, coisa que os fetos não sabem nem podem? É lá aceitável que alguém, quem quer que seja, de alguma forma tente branquear práticas que nem a Santa Inquisição se lembrou de utilizar em adultos? De mais a mais tratando-se de uma criança às mãos assassinas de quem a devia proteger? Nem o facto de estar interdita ao Sr. Domingos Oliveira a sublime experiência da paternidade e de ver crescer um filho ou uma filha pode contribuir para a desculpa de tal absurdo. Até porque foi por livre e adulta escolha que esse senhor, a quem tenho pudor de chamar padre, optou por essa condição. As afirmações do Sr. Domingos Oliveira fizeram-me crer que nem todos os seres humanos têm sentimentos. O que não deixa de parecer contraditório, mesmo esquecendo a sua profissão. Como será possível que, em memória do corpinho martirizado da pequena Vanessa, alguém seja capaz de se lembrar de proferir tamanhas monstruosidades? Só posso comparar o hediondo acto desses dois seres desprezíveis, como o são os seus alegados assassinos familiares, à alocução cruel e sádica do Pe Domingos Oliveira. Lamento que esse senhor não possa ser civicamente responsabilizado pelo que disse. Também lamento e me surpreendo que não tenha havido, que se saiba, qualquer gesto formal de demarcação das suas afirmações, por parte da hierarquia da igreja a que pertence. Será que há quem as subscreva? Não posso sequer pensar que haja, mas o pesado silêncio eclesiástico que se abateu obriga a levantar a dúvida.