Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-06-29

Estala o verniz de Abril?

Há trinta, trinta e um anos, era a aprendizagem da democracia… As manifestações eram diárias e a qualquer hora. Estávamos ébrios de liberdade e usava-mo-la mesmo que fosse só para lhe sentir o gosto. E as “manif” eram a expressão imediata disso. Lembro-me de uma noite ter passado por uma, lá para a uma da manhã… Já não me lembro de quem era, ou porque é que era, mas lá ia rua fora, “avisando toda a gente”. Tudo servia para uma manifestação de apoio ou protesto ao que quer que fosse. Havia alegria e genuinidade nas manifestações que se realizavam. E mais, os poderes de então levavam em linha de conta o que se dizia, se propunha e se reivindicava nas ruas. Reconheço que esse estado de paixão não poderia durar sempre (tornar-se-ia doentio, tal como as outras paixões) e, com o tempo, as “manif” foram-se disciplinando e tendo regras de sociedade. As greves eram (sempre foram) coisa mais grave. Resultavam de lutas em que as posições se extremavam mais. Uma greve era uma coisa séria, de repercussões directas contra quem era usada, e também sobre quem a usava. Era então evidente que, se de alguma forma era possível fazer uma manifestação de ânimo leve, ninguém se lembraria de organizar uma greve sem fortes motivos. Uma greve afecta todos, quer os que dependem dos grevistas e são assim lesados, quer os próprios grevistas, quer até a população em geral. O apoio dos lesados e da opinião pública era portanto essencial ao pleno sucesso de uma greve. Como não havia leis para a greve, estas tinham que ser explicadas a quem lhes sofria as consequências. As greves eram portanto explicadas, muito bem explicadas, por quem pretendia obter apoio dos lesados e da população, elemento essencial nessa forma superior de luta e protesto em democracia. E todos, grevistas (quaisquer que eles fossem) e poder (qualquer que ele fosse) pretendiam esse apoio. E todos tentavam, na medida das possibilidades, explicar as suas razões. É por isso que hoje me surpreendo quando vejo greves das quais muitas vezes não se sabe o objectivo, ou em que o objectivo é apresentado de uma forma tão difusa que nem se chega bem a perceber para que serve. É bem verdade que os meios de comunicação social (televisões, rádios e jornais) podem sempre distorcer (mesmo quando o não querem) os objectivos de uma luta, ou a forma de resposta do poder a essa luta, mas o facto é que esse é um dado à partida: quem organiza e inicia uma greve (ou outra forma de luta) tem de acautelar formas de levar à população a sua visão das coisas. Caso contrário arrisca-se a que a sua verdade não chegue a “passar” para os lesados, não conquistando assim o seu apoio. Nem o da população em geral. Todos sabemos que a verdade é coisa parcial, e só ouvindo as duas partes se pode ter uma ideia mais precisa do que está em jogo. E a “verdade”, se outra não há, é a que aparece nos telejornais, nos jornais, nas declarações de quem tem capacidade de convocar os jornalistas.
Quero eu com isto dizer que, embora compreenda e ache plausíveis as motivações que conheço dos professores para fazerem greve, não entendo porque a convocaram para uma altura tão delicada como os exames. Aparentemente, parece uma má, muito má altura. Joga-se com as emoções e o frustrar de expectativas de uma grande massa de jovens e, consequentemente, das suas famílias. Terão de ser portanto muito graves os motivos que levam a uma escolha tão lesiva dos interesses de todos. E nunca ouvi nenhuma explicação do porquê da escolha desta data. Poderá haver e até ser lógica, mas nunca chegou ao comum dos cidadãos. E enquanto assim continuar, é uma escolha injusta. Em síntese, parece-me que uma justa luta, mercê de uma má –ou descohecida- decisão, corre o risco de ter sido (pelo menos) pouco eficaz.
O mesmo com as “manif” da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana. Quais são os motivos? Só sei o que li nos jornais e parece-me obvio que a integração dos seus subsistemas de saúde privados nos sistemas e critérios gerais da Função Pública se me afiguram de toda a justiça. Mas posso estar enganado, porque, dos próprios, nada ouvi. Ou é por causa da idade da reforma? A falta de informação é grande. Que saudades dos velhos “comunicados à população” assinados pelos manifestantes…
Em resumo, começo a estar preocupado: se por um lado é natural (e legítima) a contestação a muitas das decisões difíceis, impopulares e eventualmente injustas do governo, por outro parece-me que não se estão a conseguir pontes de diálogo. Correm-se riscos de autismo. Acho que todos estávamos dispostos a aceitar sacrifícios, mas isso implica que eles nos sejam explicados. A explicação é fundamental para a aceitação de uma realidade, por pior que seja. E o governo parece estar a ignorar a capacidade de aceitação dessa má realidade. O Ministro do Interior, quando questionado sobre a manifestação e eventual greve dos polícias, disse que a manifestação e a greve eram direitos conquistados no 25 de Abril (cito de memória, pelo que pode não ter sido exactamente assim), e que portanto eram atitudes legítimas. Eu traduzo isto por “eles que protestem, que nós cá vamos executando”. Se não foi essa a intenção, passou mal a mensagem. Porque o que me parece é que, se há manifestações e greves, é porque alguma mensagem não está a passar. Remeter para a naturalidade do exercício de direitos adquiridos há trinta e um anos, parece-me pouco como preocupação de um governante. O verniz de Abril não serve para tudo. Ninguém faz greve ou se manifesta sem motivos. Podem não estar claros para “os outros” que nada têm a ver com isso (todos nós, que só lhes sofremos as consequências), mas terão obrigatoriamente que ser claros (concorde-se ou não com eles) para quem sobre eles tem de decidir. Mas também é verdade que quem está em luta não tem conseguido fazer passar a informação, a justificação, a explicação do que quer, como quer e porque quer agora. Há alguma confusão neste país de Abril.

2005-06-22

Porque sim…

Sabia que deveria ser chamado a votar “sim” ou “não” num referendo futuro sobre a Constituição Europeia e entendi que, como cidadão que pretende ser conscientemente europeu, deveria na altura saber o que estava a votar. Confesso desde já que não tinha a mínima ideia de como iria votar. Até agora ainda não ouvi nenhum argumento convincente de qualquer das partes: uns que “não”, porque os cidadãos perderiam direitos e que os países perderiam soberania, outros que “sim”, porque a Europa precisa ser uma entidade que responda a uma só voz... Percebi que a confusão era grande: Berlusconi e Zapatero estavam do mesmo lado; Chirac e Barroso também, Sócrates e Marques Mendes igualmente. Do outro lado, quase todos os que não estavam no poder, de direita ou de esquerda. E também, quando foi chamado, algum(ns) do(s) povo(s) da Europa. Como me habituei a pensar pela minha cabeça, tentei portanto aceder ao “Tratado estabelecendo uma Constituição para Europa”. Fui à Internet e consegui o original francês. Deparei-me com um documento de 192 páginas (incluindo 3 só para o índice!). Comecei a ler e aguentei até à página vinte e poucos, o que dá mais ou menos 10% do total. Acredito, mesmo assim, que devo ser um dos poucos cidadãos europeus que leu cerca de 10% daquilo que pretendia vir a ser a “Constituição Europeia”. Não gostei do que li, mas o facto é que li pouco. Pode até ser que venha a gostar… mas esta apreciação é mais indicada para um romance (tipo “é chato quase até ao fim” ou “tem um final inesperado”) que para uma constituição. Entendo que uma constituição deve ser uma carta de direitos e deveres fundamentais dos cidadãos e (neste caso) dos povos. É um documento solene, é certo, mas curto, fundamental (no sentido em que contém os fundamentos de alguma coisa). A constituição deve em minha opinião ser um documento tão curto que (quase) nos permita sabê-la toda de cor. Porque é suposto conhecemo-la bem. Mas se para se ser cidadão europeu consciente é necessário saber-se o que está escrito em cada uma das 192 páginas, então proclamo desde já a dificuldade de se ser conscientemente europeu! Isto, para além de qualquer consideração que possa vir a ser feita aos seus conteúdos. Recordo frases populares tais como “quem muito fala pouco acerta” e “muita parra e pouca uva”, e fico logo desconfiado. Folheando o documento (o tempo de que dispunha não me permitia a veleidade de o ler todo), li indicações precisas de como podia ser nomeado ou destituído o presidente do Banco Europeu, e a divisão do capital por cada país. E outras coisas igualmente irrelevantes. Irrelevantes para quem quer saber quais são os seus direitos e deveres e não se quer candidatar a ser presidente de uma qualquer comissão. Será isto uma constituição política ou um breviário económico-financeiro? Creio que todas as constituições do Mundo são curtas, incisivas e fundamentais. Falam de direitos, liberdades e garantias: são cartas de direitos. Falam dos povos e dos objectivos a atingir: são programáticas. O que li a esse respeito, caberia numa única folhinha das cento e noventa e duas… Acho então que há cento e noventa e uma páginas a mais. E creio terem sido essas que os franceses e os holandeses rejeitaram. Acho que as autoridades europeias estavam a desrespeitar os povos, tomando-os por um bando de votantes automáticos. O que esses primeiros europeus que votaram disseram, é que as coisas não são bem assim. Os burocratas de Bruxelas e de outros sítios dessa Europa estavam a arvorar-se em romanos do século II e, antes que os Hunos por aí viessem, o povo da Europa decidiu dizer que a democracia é um pouco mais ampla e participada que o antigo senado de Roma. Acho que poucos, muito poucos, leram o Pantagruel de artigos que constituía o nado-morto encomendado pelos senhores de Bruxelas a Valéry Giscard d’Estaing como constituição. O resultado aí está! Fico satisfeito com o adiamento. Não que os portugueses não devessem referendá-lo. Acho simplesmente que, se outra razão não houvesse para o adiamento, o simples argumento de que era preciso tempo para que todos a pudéssemos ler até ao fim, chegaria! Senão, seria o votar “porque sim!” E isso ninguém (?) quer.

2005-06-15

O fim dum ciclo?

Completo esta semana quarto anos de publicação destas reflexões a que decidi chamar desde então “Crónicas ao correr da pena”. Nunca pensei que fosse capaz de escrever semanalmente durante tanto tempo, e ainda menos pensei que houvesse quem, ao fim de tanto tempo, continuasse a ter paciência para me ler e enganei-me. A todos os que me lêem o devo e estou-lhes por isso grato. Porque é a mim que ajudo a pensar, cada vez que escrevo. Nem sempre tem sido fácil vencer algum torpor que por vezes se interpõem entre mim e a escrita. Mas nessas alturas penso que, se há quem se dê à paciência e ao trabalho de me ler, não tenho eu o direito de não corresponder. E então escrevo. Outras vezes, é uma pulsão que parece até maior que a própria escrita, uma irreprimível vontade de lançar ideias ao papel. E escrevo também. É assim que acontece há quatro anos, ou duzentas e oito semanas. Nestes momentos de “virar o ano”, é habitual olhar-se para trás, fazerem-se contas, encerrarem-se uns ciclos e abrirem-se outros, mas não o vou fazer. Não o vou fazer por irrelevância, face à incontornável sucessão de desaparecimentos a que assistimos nos últimos dias em Portugal. Portugal sim, encerrou um ou mais ciclos. Desapareceu primeiro o general do povo, o General Vasco Gonçalves, o Companheiro Vasco. As opiniões sobre ele abrem dois campos opostos mas não será sempre assim, com os grandes homens? Um dia far-se-á justiça à abnegação, à emotividade e ao idealismo sem limites deste homem que tinha um sonho, tal como Martin Luther King. Pertencia à gesta dos que se pautavam por ideais, utopias e amanhãs que cantavam. Acreditava que o que defendia estava certo e era possível. Foi um verdadeiro general do povo e o povo entendeu isso. É esse povo que agora terá de viver sem a sua imagem. Depois, foi a notícia do apagamento de Álvaro Cunhal. Partiu sem um murmúrio, deixando um silêncio ensurdecedor. Do mesmo lado da barricada que Vasco Gonçalves, nunca deixou contudo transparecer a emotividade que lhe circulava nas veias, e por isso teve uma vida política mais longa. E tão longa quanto mítica. Desenhou o horizonte que ele próprio escolheu, e com superior inteligência seguiu os seus próprios passos mais longe que todos os outros, moldando o mundo à sua volta, gerando ódios e paixões. Só nos momentos breves que não dedicou à militância que lhe preenchia o espírito e os dias, se permitiu manifestações dessa fina sensibilidade de que são feitos os escritores, os ensaístas e os pintores. E ele, nesses momentos, foi tudo isso. Deixava a militância política do clandestino Duarte que nunca deixou de ser, para se entregar à escrita, na clandestina privacidade de Manuel Tiago, tal como nos solitários anos da prisão fizera, povoando de desenhos o silêncio. E até o silêncio está de luto: Eugénio de Andrade, o Poeta do Silêncio, deixou também de nos criar novos silêncios. Os que ao longo de sessenta anos criou, habitam hoje páginas por todo o mundo, construindo-nos outros mundos. Eugénio trabalhava a palavra a buril até que esta, moldada e modelada, se nos entregava com um roçagar tão silencioso quanto o dos gatos que serenamente lhe povoavam a casa e a vida. E com uma suavidade tão universal quanto eterna, que lhe assegura assim o que nunca pretendeu: o poder vir a ser compreendido por gerações ainda por nascer.
Deixaram-nos três portugueses de corpo inteiro, que nos obrigarão a procurar por nós mas em seu nome, um Portugal mais fraterno, mais justo e mais harmonioso. Com eles chegou ao fim este ciclo da generosidade, dos ideais, da estética das palavras e da vida. Ou talvez lhes possamos renovar o ciclo, se a eles quisermos ter direito. Eles, os arautos do eterno recomeço, da busca incessante da vida, da procura sem tréguas dum melhor futuro, merecem que prossigamos em nosso nome. Não se nos peça que lhes emolduremos as vidas e os nortes, mas que prossigamos no ensaio de novos nortes e novas vidas. Só se nos pede que, embora não esquecendo o pragmatismo agreste e seco da vida, a povoemos de generosidade, de ideais e de palavras com sentido. Só se nos pede que iniciemos um novo ciclo em que o silêncio não signifique a mordaça mas o sublinhar da palavra, em que a luta política não signifique a chicana mas a defesa de um ideal, em que o poder não signifique o jogo de interesses mas a coragem e a generosidade de quem decide. Só se nos pede, por nós e pelos que hão de vir, um novo ciclo.

2005-06-08

O Ócio e o seu contrário

Todos fomos habituados a difamar o ócio. A ideia mais difundida é que “o ócio é o pai de todos os vícios”. O casamento entre ócio e vício deve dar-se também pelo semelhante som que acidentalmente (?) apresentam. Quase diria que rimam, ócio e vício. E embora ócio e lazer sejam sinónimos, o facto é que a imagem que temos de ócio é muito mais negativa que a que temos de lazer. Mais uma vez, a associação de lazer a prazer parece fazer inclinar a balança a favor de uma certa dignificação lúdica do lazer. Enquanto o pobre do ócio fica com a sua imagem ligada ao vício. Imagina-se até que quem cai no ócio, dificilmente se livrará dele, tal é a ligação ao vício… Mas se ócio tem esta má imagem, então o seu contrário, o seu negativo, deve ter uma boa imagem. Ou seja, se o ócio é mau, o neg-ócio há-de ser bom! A negação de ócio é negócio! E nem o latim nos safa: otium tem como negação negotium… Parece portanto que, em latim, o conceito de ócio chegou primeiro; explico-me: a palavra negócio não pode ter surgido antes da palavra ócio. O contrário, sim. O que significa que no princípio era o ócio! Esse será portanto o conceito inicial. Então o negócio apareceu como a perturbação, a negação do primeiro. Assim vistas as coisas, parece que o negócio deverá ser um estado transitório e que sempre se tenderá a voltar ao estado inicial: ao ócio! Isto é, o ócio é o nosso estado natural. De facto, quem está ocupado com negócios, não pode pensar noutras coisas. E o que distingue o homem dos outros bichos (pelo menos até ver…), é essa capacidade natural de reflectir sobre as coisas. De teorizar sobre elas. Se é verdade que foi a lei do menor esforço que impulsionou a evolução do Homem, foi no ócio que ele encontrou tempo para imaginar como passá-la à prática. O ócio será portanto esse estado que permite ao cérebro tempo e condições para trabalhar. Entende-se assim melhor a expressão “Parar para pensar”. Dever-se-ia até poder dizer “Ociar para pensar”. Então pare um pouco para pensar e veja que são os conceitos contidos nestas duas expressões quase proscritas, quase amaldiçoadas, que têm permitido todo o longo caminho de evolução da Humanidade: “ócio” e “lei do menor esforço”. Não é portanto pelo trabalho que se evolui, mas pelo seu contrário. Em conclusão, uma sociedade será tanto mais evoluída quanto menos esforço for preciso fazer para lá viver. E se mais ócio permite mais tempo para pensar, então possibilitará uma mais rápida evolução. Conclui-se assim que as sociedades mais ociosas serão as de maior desenvolvimento e bem-estar. Seríamos aqui tentados a dizer que as sociedades com muitos desempregados deveriam ter uma mais rápida evolução, mas não: o ócio precisa da barriga cheia (em sentido literal e figurado). O cérebro só trabalha se tiver alimento, e até o obter, será sempre o negócio. E é aqui que as coisas são perversas… porque o não fazer nada nem sempre é ócio. Assim, os que têm mais tempo (e condições) para pensar são os que melhores e mais rápidos negócios fazem. Ou seja, mais rapidamente voltam ao “estado inicial” do ócio. Podem assim dedicar-se a pensar e a imaginar novos (e curtos, e proveitosos) negócios. De facto, diz-se com frequência que quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro. Mais haveria para dizer, nomeadamente sobre produtividade, pensões, esforço e outros conceitos mas fico-me por aqui, não vá você dizer que lhe ocupei ócio demais!

2005-06-01

Portugal cada vez mais estreito

E de súbito, o défice abate-se sobre todos nós… Já todos sabíamos que iria ser alto, maior que o que se tinha dito no período eleitoral, onde dourar a pílula é norma. E que todos teríamos que fazer sacrifícios. Mas o que não nos tinham dito é que o défice era estrutural, produto de negligências e erros sucessivos. Ou seja, que o Estado, durante os anos em que se pôde modernizar não o fez e agora, quando já não há injecções de dinheiro como houve, mostra o que ficou por fazer. E que agora teremos de o fazer com custos suplementares para todos e numa época de vacas magras. Andámos a viver acima das nossas possibilidades; não que com o que trabalhamos não pudéssemos viver assim, mas o facto é que o trabalho que produzimos rende menos que o dos povos que a tempo se modernizaram e investiram na simplificação de procedimentos e métodos. A formação, por exemplo, em vez de efectivamente contribuir para o melhoramento do nível de conhecimentos de quem a usufruiu, serviu para mascarar o desemprego. Quanto ao Ministério da Reforma Administrativa, nunca reformou nada que se visse. O dinheiro que permitiu à Espanha investigar, modernizar e optimizar sectores importantes da agricultura, serviu por cá para outras coisas e o resultado é que agora, em época de seca, é lá que se vai comprar a palha para não deixar morrer os nossos animais! Pergunta-se: então lá não há seca? Então eles não precisam da palha? Os exemplos tanto são na agricultura como na indústria, e tanto em Espanha como na Grécia ou na Irlanda. Por cá, todos tínhamos sido preparados para uma má situação. Mas mesmo assim, quando se pensa, parece que estamos a acordar de um sonho ligeiro e a mergulhar num longo pesadelo. Agora esperam-nos (mais) tempos de novos sacrifícios, com menos apoio europeu, e mais esforço de nós próprios. E com dificuldades maiores, porque cada ano, cada dia, os outros países da União chegarão onde nós teremos chegar, mas chegarão antes e com menor esforço. Nos últimos anos, acedemos a um nível de vida que não é comportável com o que produzimos com os meios de produção que temos. Tudo deveria ter sido remodelado, modernizado. Por exemplo, precisamos de diminuir a nossa factura de petróleo, temos excelentes condições para isso mas nunca o fizemos. Assim, cada vez que o petróleo aumenta, aumenta a nossa factura de combustíveis e baixa a nossa competitividade. O Estado é voraz e precisa de muito dinheiro para fazer face ao que lhe exigimos, mas os impostos sobre o que produzimos não chegam. Pelo menos com os impostos aos actuais níveis. E assim, aumentam-se os impostos, tornando-nos ainda menos competitivos face aos nossos parceiros. Acho que a subida do IVA terá apanhado muitos de surpresa. Sempre que o IVA aumenta, o país fica mais estreito… Explico-me melhor: sempre que os impostos, e em particular o IVA aumentam, o recurso a Espanha é maior. Neste momento, o IVA espanhol (de 16%) é quase 20% inferior ao português. Com o aumento anunciado, passará a diferença a ser cerca de 30%! E quanto maior é a diferença, maior será o recurso a Espanha, às suas empresas, aos seus serviços e aos seus produtos. E as nossas empresas a fechar e o desemprego a disparar. Mas a tentação será cada vez maior! Eles até nos proporcionam transportes para lá irmos e depois nos trazem as compras a casa… O que custa passar a dispor de uma manhã, ou até uma parte de sábado para poupar uns euros e ser bem servido? E quantos mais forem os euros poupados, maior será a tentação e o ganho! E Portugal ficará cada vez mais estreito… porque a faixa do país em que passa a compensar recorrer a Espanha será cada vez maior. E Portugal vai ficando atrofiado. Os nossos comerciantes, que já não primam pela solicitude nem pela imaginação, cada vez mais definharão, engrossando o coro dos descontentes, dos inactivos e também dos desempregados. E os nossos industriais. E os nossos agricultores. Não se sabe por quanto tempo esta situação se irá prolongar, mas os optimistas falam (pelo menos) em 2009! Será que até lá se consegue resolver o problema de base, isto é, o aumento da produtividade? E sem incentivos nem encorajamento, tudo é mais difícil. Quando as coisas voltarem ao normal, porque um dia terão de voltar, quem sobreviveu terá direito à vida. Mas o mais provável é que muitos tenham ficado pelo caminho. Hoje já é clara a inundação por produtos espanhóis, que tomaram o lugar dos nossos, quantas vezes vendidos com os antigos nomes portugueses. Pelo caminho que as coisas parecem tomar, quando estivermos finalmente com as contas públicas sanadas, a nossa capacidade produtiva poderá estar ainda mais reduzida, tendo cedido muitas das suas posições à potente indústria espanhola. E à agricultura. O mesmo poderá vir a acontecer com o nosso frágil e antiquado comércio tradicional e, quem sabe, até com as grandes superfícies. Se não reagirmos rapidamente, corremos o risco de nos tornar numa vasta Olivença. E tal como no caso de Olivença, deixar que o tempo faça o seu trabalho. A questão é, portanto: ou nós, ou o tempo!