Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-06-08

O Ócio e o seu contrário

Todos fomos habituados a difamar o ócio. A ideia mais difundida é que “o ócio é o pai de todos os vícios”. O casamento entre ócio e vício deve dar-se também pelo semelhante som que acidentalmente (?) apresentam. Quase diria que rimam, ócio e vício. E embora ócio e lazer sejam sinónimos, o facto é que a imagem que temos de ócio é muito mais negativa que a que temos de lazer. Mais uma vez, a associação de lazer a prazer parece fazer inclinar a balança a favor de uma certa dignificação lúdica do lazer. Enquanto o pobre do ócio fica com a sua imagem ligada ao vício. Imagina-se até que quem cai no ócio, dificilmente se livrará dele, tal é a ligação ao vício… Mas se ócio tem esta má imagem, então o seu contrário, o seu negativo, deve ter uma boa imagem. Ou seja, se o ócio é mau, o neg-ócio há-de ser bom! A negação de ócio é negócio! E nem o latim nos safa: otium tem como negação negotium… Parece portanto que, em latim, o conceito de ócio chegou primeiro; explico-me: a palavra negócio não pode ter surgido antes da palavra ócio. O contrário, sim. O que significa que no princípio era o ócio! Esse será portanto o conceito inicial. Então o negócio apareceu como a perturbação, a negação do primeiro. Assim vistas as coisas, parece que o negócio deverá ser um estado transitório e que sempre se tenderá a voltar ao estado inicial: ao ócio! Isto é, o ócio é o nosso estado natural. De facto, quem está ocupado com negócios, não pode pensar noutras coisas. E o que distingue o homem dos outros bichos (pelo menos até ver…), é essa capacidade natural de reflectir sobre as coisas. De teorizar sobre elas. Se é verdade que foi a lei do menor esforço que impulsionou a evolução do Homem, foi no ócio que ele encontrou tempo para imaginar como passá-la à prática. O ócio será portanto esse estado que permite ao cérebro tempo e condições para trabalhar. Entende-se assim melhor a expressão “Parar para pensar”. Dever-se-ia até poder dizer “Ociar para pensar”. Então pare um pouco para pensar e veja que são os conceitos contidos nestas duas expressões quase proscritas, quase amaldiçoadas, que têm permitido todo o longo caminho de evolução da Humanidade: “ócio” e “lei do menor esforço”. Não é portanto pelo trabalho que se evolui, mas pelo seu contrário. Em conclusão, uma sociedade será tanto mais evoluída quanto menos esforço for preciso fazer para lá viver. E se mais ócio permite mais tempo para pensar, então possibilitará uma mais rápida evolução. Conclui-se assim que as sociedades mais ociosas serão as de maior desenvolvimento e bem-estar. Seríamos aqui tentados a dizer que as sociedades com muitos desempregados deveriam ter uma mais rápida evolução, mas não: o ócio precisa da barriga cheia (em sentido literal e figurado). O cérebro só trabalha se tiver alimento, e até o obter, será sempre o negócio. E é aqui que as coisas são perversas… porque o não fazer nada nem sempre é ócio. Assim, os que têm mais tempo (e condições) para pensar são os que melhores e mais rápidos negócios fazem. Ou seja, mais rapidamente voltam ao “estado inicial” do ócio. Podem assim dedicar-se a pensar e a imaginar novos (e curtos, e proveitosos) negócios. De facto, diz-se com frequência que quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro. Mais haveria para dizer, nomeadamente sobre produtividade, pensões, esforço e outros conceitos mas fico-me por aqui, não vá você dizer que lhe ocupei ócio demais!