Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-06-15

O fim dum ciclo?

Completo esta semana quarto anos de publicação destas reflexões a que decidi chamar desde então “Crónicas ao correr da pena”. Nunca pensei que fosse capaz de escrever semanalmente durante tanto tempo, e ainda menos pensei que houvesse quem, ao fim de tanto tempo, continuasse a ter paciência para me ler e enganei-me. A todos os que me lêem o devo e estou-lhes por isso grato. Porque é a mim que ajudo a pensar, cada vez que escrevo. Nem sempre tem sido fácil vencer algum torpor que por vezes se interpõem entre mim e a escrita. Mas nessas alturas penso que, se há quem se dê à paciência e ao trabalho de me ler, não tenho eu o direito de não corresponder. E então escrevo. Outras vezes, é uma pulsão que parece até maior que a própria escrita, uma irreprimível vontade de lançar ideias ao papel. E escrevo também. É assim que acontece há quatro anos, ou duzentas e oito semanas. Nestes momentos de “virar o ano”, é habitual olhar-se para trás, fazerem-se contas, encerrarem-se uns ciclos e abrirem-se outros, mas não o vou fazer. Não o vou fazer por irrelevância, face à incontornável sucessão de desaparecimentos a que assistimos nos últimos dias em Portugal. Portugal sim, encerrou um ou mais ciclos. Desapareceu primeiro o general do povo, o General Vasco Gonçalves, o Companheiro Vasco. As opiniões sobre ele abrem dois campos opostos mas não será sempre assim, com os grandes homens? Um dia far-se-á justiça à abnegação, à emotividade e ao idealismo sem limites deste homem que tinha um sonho, tal como Martin Luther King. Pertencia à gesta dos que se pautavam por ideais, utopias e amanhãs que cantavam. Acreditava que o que defendia estava certo e era possível. Foi um verdadeiro general do povo e o povo entendeu isso. É esse povo que agora terá de viver sem a sua imagem. Depois, foi a notícia do apagamento de Álvaro Cunhal. Partiu sem um murmúrio, deixando um silêncio ensurdecedor. Do mesmo lado da barricada que Vasco Gonçalves, nunca deixou contudo transparecer a emotividade que lhe circulava nas veias, e por isso teve uma vida política mais longa. E tão longa quanto mítica. Desenhou o horizonte que ele próprio escolheu, e com superior inteligência seguiu os seus próprios passos mais longe que todos os outros, moldando o mundo à sua volta, gerando ódios e paixões. Só nos momentos breves que não dedicou à militância que lhe preenchia o espírito e os dias, se permitiu manifestações dessa fina sensibilidade de que são feitos os escritores, os ensaístas e os pintores. E ele, nesses momentos, foi tudo isso. Deixava a militância política do clandestino Duarte que nunca deixou de ser, para se entregar à escrita, na clandestina privacidade de Manuel Tiago, tal como nos solitários anos da prisão fizera, povoando de desenhos o silêncio. E até o silêncio está de luto: Eugénio de Andrade, o Poeta do Silêncio, deixou também de nos criar novos silêncios. Os que ao longo de sessenta anos criou, habitam hoje páginas por todo o mundo, construindo-nos outros mundos. Eugénio trabalhava a palavra a buril até que esta, moldada e modelada, se nos entregava com um roçagar tão silencioso quanto o dos gatos que serenamente lhe povoavam a casa e a vida. E com uma suavidade tão universal quanto eterna, que lhe assegura assim o que nunca pretendeu: o poder vir a ser compreendido por gerações ainda por nascer.
Deixaram-nos três portugueses de corpo inteiro, que nos obrigarão a procurar por nós mas em seu nome, um Portugal mais fraterno, mais justo e mais harmonioso. Com eles chegou ao fim este ciclo da generosidade, dos ideais, da estética das palavras e da vida. Ou talvez lhes possamos renovar o ciclo, se a eles quisermos ter direito. Eles, os arautos do eterno recomeço, da busca incessante da vida, da procura sem tréguas dum melhor futuro, merecem que prossigamos em nosso nome. Não se nos peça que lhes emolduremos as vidas e os nortes, mas que prossigamos no ensaio de novos nortes e novas vidas. Só se nos pede que, embora não esquecendo o pragmatismo agreste e seco da vida, a povoemos de generosidade, de ideais e de palavras com sentido. Só se nos pede que iniciemos um novo ciclo em que o silêncio não signifique a mordaça mas o sublinhar da palavra, em que a luta política não signifique a chicana mas a defesa de um ideal, em que o poder não signifique o jogo de interesses mas a coragem e a generosidade de quem decide. Só se nos pede, por nós e pelos que hão de vir, um novo ciclo.

1 Comments:

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1:07 da manhã  

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