Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-06-01

Portugal cada vez mais estreito

E de súbito, o défice abate-se sobre todos nós… Já todos sabíamos que iria ser alto, maior que o que se tinha dito no período eleitoral, onde dourar a pílula é norma. E que todos teríamos que fazer sacrifícios. Mas o que não nos tinham dito é que o défice era estrutural, produto de negligências e erros sucessivos. Ou seja, que o Estado, durante os anos em que se pôde modernizar não o fez e agora, quando já não há injecções de dinheiro como houve, mostra o que ficou por fazer. E que agora teremos de o fazer com custos suplementares para todos e numa época de vacas magras. Andámos a viver acima das nossas possibilidades; não que com o que trabalhamos não pudéssemos viver assim, mas o facto é que o trabalho que produzimos rende menos que o dos povos que a tempo se modernizaram e investiram na simplificação de procedimentos e métodos. A formação, por exemplo, em vez de efectivamente contribuir para o melhoramento do nível de conhecimentos de quem a usufruiu, serviu para mascarar o desemprego. Quanto ao Ministério da Reforma Administrativa, nunca reformou nada que se visse. O dinheiro que permitiu à Espanha investigar, modernizar e optimizar sectores importantes da agricultura, serviu por cá para outras coisas e o resultado é que agora, em época de seca, é lá que se vai comprar a palha para não deixar morrer os nossos animais! Pergunta-se: então lá não há seca? Então eles não precisam da palha? Os exemplos tanto são na agricultura como na indústria, e tanto em Espanha como na Grécia ou na Irlanda. Por cá, todos tínhamos sido preparados para uma má situação. Mas mesmo assim, quando se pensa, parece que estamos a acordar de um sonho ligeiro e a mergulhar num longo pesadelo. Agora esperam-nos (mais) tempos de novos sacrifícios, com menos apoio europeu, e mais esforço de nós próprios. E com dificuldades maiores, porque cada ano, cada dia, os outros países da União chegarão onde nós teremos chegar, mas chegarão antes e com menor esforço. Nos últimos anos, acedemos a um nível de vida que não é comportável com o que produzimos com os meios de produção que temos. Tudo deveria ter sido remodelado, modernizado. Por exemplo, precisamos de diminuir a nossa factura de petróleo, temos excelentes condições para isso mas nunca o fizemos. Assim, cada vez que o petróleo aumenta, aumenta a nossa factura de combustíveis e baixa a nossa competitividade. O Estado é voraz e precisa de muito dinheiro para fazer face ao que lhe exigimos, mas os impostos sobre o que produzimos não chegam. Pelo menos com os impostos aos actuais níveis. E assim, aumentam-se os impostos, tornando-nos ainda menos competitivos face aos nossos parceiros. Acho que a subida do IVA terá apanhado muitos de surpresa. Sempre que o IVA aumenta, o país fica mais estreito… Explico-me melhor: sempre que os impostos, e em particular o IVA aumentam, o recurso a Espanha é maior. Neste momento, o IVA espanhol (de 16%) é quase 20% inferior ao português. Com o aumento anunciado, passará a diferença a ser cerca de 30%! E quanto maior é a diferença, maior será o recurso a Espanha, às suas empresas, aos seus serviços e aos seus produtos. E as nossas empresas a fechar e o desemprego a disparar. Mas a tentação será cada vez maior! Eles até nos proporcionam transportes para lá irmos e depois nos trazem as compras a casa… O que custa passar a dispor de uma manhã, ou até uma parte de sábado para poupar uns euros e ser bem servido? E quantos mais forem os euros poupados, maior será a tentação e o ganho! E Portugal ficará cada vez mais estreito… porque a faixa do país em que passa a compensar recorrer a Espanha será cada vez maior. E Portugal vai ficando atrofiado. Os nossos comerciantes, que já não primam pela solicitude nem pela imaginação, cada vez mais definharão, engrossando o coro dos descontentes, dos inactivos e também dos desempregados. E os nossos industriais. E os nossos agricultores. Não se sabe por quanto tempo esta situação se irá prolongar, mas os optimistas falam (pelo menos) em 2009! Será que até lá se consegue resolver o problema de base, isto é, o aumento da produtividade? E sem incentivos nem encorajamento, tudo é mais difícil. Quando as coisas voltarem ao normal, porque um dia terão de voltar, quem sobreviveu terá direito à vida. Mas o mais provável é que muitos tenham ficado pelo caminho. Hoje já é clara a inundação por produtos espanhóis, que tomaram o lugar dos nossos, quantas vezes vendidos com os antigos nomes portugueses. Pelo caminho que as coisas parecem tomar, quando estivermos finalmente com as contas públicas sanadas, a nossa capacidade produtiva poderá estar ainda mais reduzida, tendo cedido muitas das suas posições à potente indústria espanhola. E à agricultura. O mesmo poderá vir a acontecer com o nosso frágil e antiquado comércio tradicional e, quem sabe, até com as grandes superfícies. Se não reagirmos rapidamente, corremos o risco de nos tornar numa vasta Olivença. E tal como no caso de Olivença, deixar que o tempo faça o seu trabalho. A questão é, portanto: ou nós, ou o tempo!