Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-07-27

When I’m sixty-four…

Portugal está velho… Nas próximas eleições presidenciais não haverá candidatos credíveis (enquanto tal) abaixo dos sessenta e quatro anos! Todos os que até agora se perfilaram, já ultrapassaram essa fasquia. Mário Soares até já dobrou os oitenta. Ser presidente da República parece estar a tornar-se uma ocupação para reformados, mesmo entendidos segundo as novas normas… Qualquer dos candidatos que venha a ser eleito, dos que até agora se dispuseram a disputar o cargo, será seguramente o presidente da República mais velho que Portugal já teve desde o fim da Primeira República. Isto, considerando a eventual eleição de Mário Soares como uma primeira eleição, e não como uma reeleição (que na prática não é).
Não poderemos esquecer a candidata Manuela Magno, abaixo dos sessenta anos, mas trata-se de uma candidatura isolada, individual, “fora do sistema”, como outras poderão ainda aparecer, e que não têm expressão material na definição do próximo habitante de Belém. Os “pesos pesados” – Mário Soares, Cavaco Silva e Manuel Alegre – estarão então todos acima dos sessenta e cinco anos. Freitas do Amaral só completará sessenta e cinco em Abril (depois, portanto, das eleições), mas todos os outros já os terão completado nessa altura. Olhando para trás, só o episódico (e designado) General António Spínola tinha também 64 anos quando assumiu o cargo de presidente durante alguns meses de 1974.
Não é que a velhice não seja “um posto” mas em minha opinião, o facto de os candidatos serem cada vez mais velhos é produto do sistema político português, que não incentiva a renovação dos seus próprios quadros. A vida política está assim sujeita a “limitações na progressão na carreira” que deixam poucas expectativas aos jovens que queiram por aí singrar. Só o CDS/Partido Popular parecia contrariar esta tendência (mas a direita nunca foi um reduto tradicional da juventude). A presidência do país será um mero reflexo disto: só velhos candidatos, três deles com pelo menos uma candidatura ao cargo (Manuel Alegre não, que a sua militância poética não lhe deixava tempo para tal). Portugal vê-se na necessidade de recorrer “aos velhos”, de os “empurrar” para as candidaturas como quem quer usufruir deles mais alguma coisinha que ainda não tenham dado, ou como quem precisa de um esteio de segurança.
Sem dúvida que a lei de limitação de mandatos é urgente! Eu arriscaria mesmo a dizer que, se ela não existisse já para os Presidentes da República, Mário Soares ainda hoje seria o Presidente, tal como Alberto João Jardim ainda o é na Madeira e Fernando Caeiros também, em Castro Verde. Ou seja, enquanto um presidente resiste (Abílio Fernandes foi a surpreendida excepção), as forças partidárias que o suportam não vêm necessidade em rejuvenescer os seus quadros e depois, quando precisam deles, não os têm. A limitação de mandatos é urgente para que se comece a renovar o espectro político português, já que os partidos não o fazem naturalmente e de moto próprio. As “cotas de mulheres” são disso prova cabal. Portanto, já sabe… se tem pretensões a Presidente da República e é conservador, espere pelos sessenta e quatro anos. Se não, pugne para que o acesso dos jovens à vida política seja cada vez mais amplo, deixando para os mais velhos aquilo que eles melhor sabem e gostam de fazer: contar estórias morais e tratar dos netos. Entretanto, boas férias!

2005-07-20

O legado do Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian…

Calouste Gulbenkian foi um arménio de grande inteligência, visão estratégica, política e cultural. Participou activamente na partilha do petróleo do Médio Oriente, região do Mundo onde tinha as suas ancestrais raízes. Das companhias que ajudava a formar ficava com 5%, assim acumulando uma imensa fortuna. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, vem para Lisboa em busca da tranquilidade que não conseguia em Londres. Nunca mais abandonou Portugal, onde veio a morrer em 1955. Foi assim que uma boa parte da sua imensa fortuna passou a constituir, por seu testamento, a Fundação Calouste Gulbenkian, com sede em Lisboa. Esse legado, ao longo dos anos, tem-se comportado como um verdadeiro Ministério da Cultura, muito antes mesmo do Governo se ter lembrado de criar um ministério da cultura legal. A vida cultural de Portugal teria sido necessariamente diferente se Gulbenkian nunca tivesse vindo para Portugal e se em consequência disso a Fundação não tivesse cá a sua sede. É assim que hoje Portugal se pode orgulhar de ter um Centro Gulbenkian de Ciência que é uma referência internacional, uma Orquestra Gulbenkian de reputação mundial, e um Ballet Gulbenkian que ombreia com os melhores corpos de bailado do Mundo. Isto, para lá das bibliotecas Gulbenkian, dos Centros Culturais Gulbenkian pelo Mundo e do complexo da sede que engloba salas de espectáculos, salas de exposições permanentes e salas de conferências, para além da rica Biblioteca e do Museu Gulbenkian (onde se pode admirar o espólio cultural do fundador) que durante muitos anos foi considerado o melhor museu do Mundo, dispondo de serviços especializados de conservação e restauro das peças. Tudo isto servido por uma actividade editorial que sem paralelo. É claro que bolsas, subsídios e subvenções para os mais diversos fins científicos e culturais são anualmente distribuídos em Portugal e um pouco por tudo o Mundo.
Uma coisa é comum a todas as actividades da Fundação Gulbenkian: a promoção da cultura e da inteligência. Era portanto essa a matriz do seu fundador, que tinha o petróleo como “argumento”, “pano de fundo” e motor de toda a actividade que pretendeu que se desenvolvesse em seu nome.
É por isso que Portugal está hoje mais pobre: A Administração da Fundação Calouste Gulbenkian extinguiu o famoso e já lendário Ballet Gulbenkian. No ano das comemorações do seu quadragésimo aniversário, o Ballet Gulbenkian foi extinto sem mais explicações. A Fundação enquanto instituição privada, independente e reconhecidamente autónoma, pode decidir o que quiser. Mas pergunta-se: seria essa a vontade do seu fundador, se ele ainda existisse? Já tínhamos assistido à extinção das bibliotecas itinerantes, que durante muitos anos levaram cultura um pouco a todo o país. Mas então, isso foi feito de uma forma calma e ponderada. Os espólios foram passando para as bibliotecas municipais fixas, embora muitas aldeias tenham ficado sem livros para emprestar. Mas a rede portuguesa de bibliotecas, já então em desenvolvimento, de alguma forma supriu essa falha.
Agora com o Ballet foi diferente: de um dia para o outro, sem sequer informar previamente os próprios profissionais do corpo de ballet, a administração declara irrevogavelmente a extinção das actividades de bailado. Parece de propósito para que lhe sintamos a falta, e para que nos demos conta da aparente injustiça da medida. É que acontece no centro da maior depressão económica em que o país está mergulhado, e em que se vivem as condições mais drásticas de quase sempre. E acontece com o maior desrespeito por todos os interessados. Serão isto sinais dos novos administradores e consequentemente de novos tempos na Gulbenkian? O que é certo é que tão cedo não haverá condições para a criação de originais de bailado em Portugal: uma companhia pode-se desfazer numa hora, mas não se forma nem em dez anos. Nem se mantém. E tudo o que se comece a fazer a partir de agora, já vem tarde e sobretudo a más horas.
Lamento a extinção, que deixa o país mais pobre e incapaz de criar neste importante meio cultural. Mas ainda lamento mais a forma como foi feita, que mais parece uma manifestação de força que uma manifestação de respeito pela cultura, pelo espírito da Fundação Gulbenkian e pelo espírito do seu próprio fundador. Acabaram-se os administradores que conviveram com a elegância, a cultura e o espírito refinado do fundador e isso já se nota…

2005-07-13

Vamos legalizar os Lobbies?

Quando, antes do 25 de Abril, se pegava num jornal, em determinadas notícias ou temas ia-se logo à procura do segundo sentido, da mensagem que o jornalista tinha pretendido passar às malhas da censura. Hoje, a censura formal já não existe mas o que é verdade é que os jornais/revistas/rádios/televisões (uns mais que outros) muitas vezes tentam passar mensagens ou de alguma forma condicionar ou manipular os acontecimentos que narram. Como exemplo, recordo as conversas do Prof. Marcelo Rebello de Sousa na TVI, silenciado porque o figurino não agradaria ao grande patrão da estação. Admitir que este fosse um caso isolado seria ser ingénuo: creio mesmo que este caso só viu claramente a luz do dia porque foi desastradamente conduzido. São essas pressões de quem pode influenciar os rumos dos acontecimentos que condicionam a informação em Portugal. Chamamos-lhes lobbies. De facto, trata-se de grupos obscuros de pressão, de interesses económicos inconfessáveis, de influências políticas não identificadas. A chave do seu sucesso é nunca aparecerem à luz do dia e fazerem aparecer o que querem como se de uma verdade de outros se tratasse. Nos Estados Unidos da América, os lobbies têm existência legal. Constituem-se para influenciar esta ou aquela decisão e agem concertadamente e às claras. No caso da independência de Timor-Leste, foi constituído um lobby para influenciar a decisão dos Estado Unidos (negativa, em princípio), essencial nessa matéria. Não terá sido ele a fazer tudo, mas o facto é que terá contribuído para o feliz desfecho que se conhece. Porque será que por cá não se regulamentam os lobbies também? Porque não se lhes dá existência legal? Seria mais fácil estabelecer limites éticos à sua actuação, seria mais fácil detectar “mãos untadas” e outras “oleadelas” que todos sabemos existir. Seria mais fácil até de juntar a nossa à voz do lobby que entendemos mais próximo da nossa forma de pensar… Acima de tudo, creio que tornaria tudo mais ético, mais claro e mais transparente, que é uma coisa de que andamos todos carecidos neste país. Todos conhecemos situações em que uma “forcinha” faria muito jeito… não para ir contra a lei mas tão só para a tornar mais ágil. Ou então leis que estão obsoletas ou não têm aplicação possível e é preciso tornear. A solução é” untar mãos” ou outra medida paralela (a “palavrinha”, o “jeito” do primo da cunhada do motorista da mulher do ministro, etc.), mantendo tudo na mesma e deixando funcionar os poderes paralelos. Quando se tem sucesso, fica uma sensação de impunidade e de “pequeno poder” que, na prática, nunca existiu: é a própria lei, quem é por ela responsável e quem a aplica, que se encarrega de criar pequenos meandros que permitem cumprir o que lá vem e também o seu contrário. Fica assim um poder discricionário a quem a aplica. Não me parecem mal essas excepções: uma lei é sempre imperfeita e estes “escapes” podem então ser legítimos. Só que acho que, sempre que são utilizados os “meandros”, tal deveria ser feito às claras, e com razões expostas. Deixando que os lobbies funcionassem e tentassem provar que tinham razão. O facto é que em Portugal parece haver uma tendência exagerada para o”jeito”, mesmo que seja só para que mais depressa se cumpra a lei. E daí até à ilegalidade, é só mais um “jeito”. Se os lobbies fossem legais, outro galo cantaria…

2005-07-06

E se o G8 resolvesse mudar o Mundo?

Hoje estão reunidos na Escócia os oito homens mais poderosos do Mundo. São os dirigentes máximos dos oito países tradicionalmente mais poderosos dom Mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos da América, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia. Digo tradicionalmente porque nos últimos anos, outros países se têm mostrado economicamente fortes, como a Coreia do Sul ou a China, mas não entraram para esse grupo exclusivo a que se chama normalmente “Grupo dos 8” ou “G8”. O facto de não pertencerem a esse grupo já lhes retira alguma capacidade de decisão, mas deverá ser só uma questão de tempo a sua entrada: os Estados Unidos da América gostam de ter perto de si e saber o que pensam os responsáveis pelas economias mais florescentes do planeta, não vão eles “fazer asneira”… Durante decénios foram o “G7”, mas a Rússia, saída de um regime e de um sistema atípico em relação aos outros, foi admitida como observadora e logo aceite no grupo. Estranhamente, todos juntos, não chegam a representar nem 20 % da população mundial. No entanto, em conjunto, devem “pesar” mais de 80 % da economia desse mesmo mundo. Sem dúvida que este é um mundo assimétrico e desequilibrado, e eles disso são a prova viva. É que deles e das suas decisões dependem as vidas de milhões e milhões de pessoas em todos os continentes, embora na prática só sejam responsáveis pelos escassos oitocentos e sessenta milhões de cidadãos que somam os seus próprios países. E é em nome desses oito países que tomam as decisões que tomam. Foi por isso importante que no sábado passado lhes tenha sido dirigido um apelo de todo esse “outro” mundo. Foi o “Live8live”, um acontecimento que uniu biliões de cidadãos na mais universal das linguagens: a música. Em palcos localizados nos seus próprios países, muitos milhões de pessoas lhes gritaram alto e bom som: “Perdoem a dívida externa de África!” e “Ajudem a África a ser auto-suficiente!”
A África tem sido desde que há indústria, a “vaca leiteira” dos países ricos: dali tem vindo carvão, petróleo, ouro, cobre, diamantes, madeiras preciosas e tantos outros recursos sem os quais o desenvolvimento dos países do “G8” não teria sido possível. E no entanto, essa mesma África é incapaz de comprar aos países ricos os instrumentos, máquinas e medicamentos de que necessita, sem os ficar a dever, pelo menos em parte. Acresce que essas máquinas, instrumentos e medicamentos são-lhe necessários pelo modo de vida que esses mesmos países lhe impuseram e a fizeram necessitar. A destruição do tecido social dos países africanos, atirou-os para situações de miséria e desorganização que nunca existiram antes da chegada das vagas coloniais europeias. É portanto uma situação desumana a que se vive em Africa, fruto da ganância das “metrópoles”, servidas por exércitos organizados e poderosos. Os sistemas de governo tradicionais africanos (geralmente rudimentares, mas eficazes para as pequenas comunidades que serviam) foram destruídos pelas potências europeias. Após o período colonial, foram ali implantados sistemas decalcados dos das próprias potencias coloniais e supostamente democráticos, mas desadequados às lógicas hierárquicas e sociais tradicionais. Na confusão que se gerou de sobreposição de poderes (tradicionais e modernos ou “democráticos”), foi fácil às antigas potências continuarem a mandar ou serem substituídas por cliques que lhes eram favoráveis –geralmente compostas de colonos de segunda ou terceira geração- ou então por chefes locais promovidos a estadistas e facilmente corruptíveis. Quando tal não acontecia e um líder consistente, honesto e nacionalista acedia ao poder, rapidamente era destituído e substituído por um mais “dócil”. E assim se viu desaparecerem líderes como Kwame N’Krumah, Amílcar Cabral ou Patrice Lumumba, para só citar três.
É portanto uma África genericamente desestruturada e corrupta que resulta destes dois ou três séculos de colonialismo. Até as pequenas agriculturas de subsistência foram destruídas para darem lugar a monoculturas industrialmente rentáveis e a alimentação do povo passou a estar dependente da compra de produtos de fora. Quando deixa de haver dinheiro, deixa de haver comida. Assim se entende que em cada três segundos uma criança, seguramente inocente, morra em África (três segundos é pouco mais ou menos o tempo que você levou a ler esta frase…) Um batimento de três em três segundos é exactamente o bater de um coração moribundo. É por isso que é urgente a acção. É por isso que é urgente que todos nos unamos numa única voz: o espírito do LIVE8LIVE! Sabemos que a união faz milagres: basta lembrar Timor! Chegou a hora de contribuirmos para salvar África! Não podemos ser participantes inactivos deste genocídio. E só poderemos ter voz activa na denúncia e condenação dos líderes corruptos de África, se fizermos mais que eles pelo fim da fome e da miséria no continente. E fazer alguma coisa é pressionar os mais ricos do mundo (e quem os possa pressionar) a perdoarem a dívida e aumentarem o esforço da ajuda para tão só 0,7 % do seu próprio Produto Interno Bruto (quanto dele feito à custa de matérias primas africanas…) Nada que tire o pão da nossa boca. Antes pelo contrário, algo que porá um sabor redobrado naquilo que comermos. E nos permita autoridade moral para mandarmos apear os líderes corruptos, congelando as suas faraónicas contas no estrangeiro. Não só a África. Todo o Mundo ficará melhor, e nós com ele.
Não se trata de caridade, mas de justiça. Justiça que já vem tarde, mas mais vale tarde que nunca. Justiça, é tudo o que pedimos!