Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-07-06

E se o G8 resolvesse mudar o Mundo?

Hoje estão reunidos na Escócia os oito homens mais poderosos do Mundo. São os dirigentes máximos dos oito países tradicionalmente mais poderosos dom Mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos da América, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia. Digo tradicionalmente porque nos últimos anos, outros países se têm mostrado economicamente fortes, como a Coreia do Sul ou a China, mas não entraram para esse grupo exclusivo a que se chama normalmente “Grupo dos 8” ou “G8”. O facto de não pertencerem a esse grupo já lhes retira alguma capacidade de decisão, mas deverá ser só uma questão de tempo a sua entrada: os Estados Unidos da América gostam de ter perto de si e saber o que pensam os responsáveis pelas economias mais florescentes do planeta, não vão eles “fazer asneira”… Durante decénios foram o “G7”, mas a Rússia, saída de um regime e de um sistema atípico em relação aos outros, foi admitida como observadora e logo aceite no grupo. Estranhamente, todos juntos, não chegam a representar nem 20 % da população mundial. No entanto, em conjunto, devem “pesar” mais de 80 % da economia desse mesmo mundo. Sem dúvida que este é um mundo assimétrico e desequilibrado, e eles disso são a prova viva. É que deles e das suas decisões dependem as vidas de milhões e milhões de pessoas em todos os continentes, embora na prática só sejam responsáveis pelos escassos oitocentos e sessenta milhões de cidadãos que somam os seus próprios países. E é em nome desses oito países que tomam as decisões que tomam. Foi por isso importante que no sábado passado lhes tenha sido dirigido um apelo de todo esse “outro” mundo. Foi o “Live8live”, um acontecimento que uniu biliões de cidadãos na mais universal das linguagens: a música. Em palcos localizados nos seus próprios países, muitos milhões de pessoas lhes gritaram alto e bom som: “Perdoem a dívida externa de África!” e “Ajudem a África a ser auto-suficiente!”
A África tem sido desde que há indústria, a “vaca leiteira” dos países ricos: dali tem vindo carvão, petróleo, ouro, cobre, diamantes, madeiras preciosas e tantos outros recursos sem os quais o desenvolvimento dos países do “G8” não teria sido possível. E no entanto, essa mesma África é incapaz de comprar aos países ricos os instrumentos, máquinas e medicamentos de que necessita, sem os ficar a dever, pelo menos em parte. Acresce que essas máquinas, instrumentos e medicamentos são-lhe necessários pelo modo de vida que esses mesmos países lhe impuseram e a fizeram necessitar. A destruição do tecido social dos países africanos, atirou-os para situações de miséria e desorganização que nunca existiram antes da chegada das vagas coloniais europeias. É portanto uma situação desumana a que se vive em Africa, fruto da ganância das “metrópoles”, servidas por exércitos organizados e poderosos. Os sistemas de governo tradicionais africanos (geralmente rudimentares, mas eficazes para as pequenas comunidades que serviam) foram destruídos pelas potências europeias. Após o período colonial, foram ali implantados sistemas decalcados dos das próprias potencias coloniais e supostamente democráticos, mas desadequados às lógicas hierárquicas e sociais tradicionais. Na confusão que se gerou de sobreposição de poderes (tradicionais e modernos ou “democráticos”), foi fácil às antigas potências continuarem a mandar ou serem substituídas por cliques que lhes eram favoráveis –geralmente compostas de colonos de segunda ou terceira geração- ou então por chefes locais promovidos a estadistas e facilmente corruptíveis. Quando tal não acontecia e um líder consistente, honesto e nacionalista acedia ao poder, rapidamente era destituído e substituído por um mais “dócil”. E assim se viu desaparecerem líderes como Kwame N’Krumah, Amílcar Cabral ou Patrice Lumumba, para só citar três.
É portanto uma África genericamente desestruturada e corrupta que resulta destes dois ou três séculos de colonialismo. Até as pequenas agriculturas de subsistência foram destruídas para darem lugar a monoculturas industrialmente rentáveis e a alimentação do povo passou a estar dependente da compra de produtos de fora. Quando deixa de haver dinheiro, deixa de haver comida. Assim se entende que em cada três segundos uma criança, seguramente inocente, morra em África (três segundos é pouco mais ou menos o tempo que você levou a ler esta frase…) Um batimento de três em três segundos é exactamente o bater de um coração moribundo. É por isso que é urgente a acção. É por isso que é urgente que todos nos unamos numa única voz: o espírito do LIVE8LIVE! Sabemos que a união faz milagres: basta lembrar Timor! Chegou a hora de contribuirmos para salvar África! Não podemos ser participantes inactivos deste genocídio. E só poderemos ter voz activa na denúncia e condenação dos líderes corruptos de África, se fizermos mais que eles pelo fim da fome e da miséria no continente. E fazer alguma coisa é pressionar os mais ricos do mundo (e quem os possa pressionar) a perdoarem a dívida e aumentarem o esforço da ajuda para tão só 0,7 % do seu próprio Produto Interno Bruto (quanto dele feito à custa de matérias primas africanas…) Nada que tire o pão da nossa boca. Antes pelo contrário, algo que porá um sabor redobrado naquilo que comermos. E nos permita autoridade moral para mandarmos apear os líderes corruptos, congelando as suas faraónicas contas no estrangeiro. Não só a África. Todo o Mundo ficará melhor, e nós com ele.
Não se trata de caridade, mas de justiça. Justiça que já vem tarde, mas mais vale tarde que nunca. Justiça, é tudo o que pedimos!