Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-07-20

O legado do Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian…

Calouste Gulbenkian foi um arménio de grande inteligência, visão estratégica, política e cultural. Participou activamente na partilha do petróleo do Médio Oriente, região do Mundo onde tinha as suas ancestrais raízes. Das companhias que ajudava a formar ficava com 5%, assim acumulando uma imensa fortuna. Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, vem para Lisboa em busca da tranquilidade que não conseguia em Londres. Nunca mais abandonou Portugal, onde veio a morrer em 1955. Foi assim que uma boa parte da sua imensa fortuna passou a constituir, por seu testamento, a Fundação Calouste Gulbenkian, com sede em Lisboa. Esse legado, ao longo dos anos, tem-se comportado como um verdadeiro Ministério da Cultura, muito antes mesmo do Governo se ter lembrado de criar um ministério da cultura legal. A vida cultural de Portugal teria sido necessariamente diferente se Gulbenkian nunca tivesse vindo para Portugal e se em consequência disso a Fundação não tivesse cá a sua sede. É assim que hoje Portugal se pode orgulhar de ter um Centro Gulbenkian de Ciência que é uma referência internacional, uma Orquestra Gulbenkian de reputação mundial, e um Ballet Gulbenkian que ombreia com os melhores corpos de bailado do Mundo. Isto, para lá das bibliotecas Gulbenkian, dos Centros Culturais Gulbenkian pelo Mundo e do complexo da sede que engloba salas de espectáculos, salas de exposições permanentes e salas de conferências, para além da rica Biblioteca e do Museu Gulbenkian (onde se pode admirar o espólio cultural do fundador) que durante muitos anos foi considerado o melhor museu do Mundo, dispondo de serviços especializados de conservação e restauro das peças. Tudo isto servido por uma actividade editorial que sem paralelo. É claro que bolsas, subsídios e subvenções para os mais diversos fins científicos e culturais são anualmente distribuídos em Portugal e um pouco por tudo o Mundo.
Uma coisa é comum a todas as actividades da Fundação Gulbenkian: a promoção da cultura e da inteligência. Era portanto essa a matriz do seu fundador, que tinha o petróleo como “argumento”, “pano de fundo” e motor de toda a actividade que pretendeu que se desenvolvesse em seu nome.
É por isso que Portugal está hoje mais pobre: A Administração da Fundação Calouste Gulbenkian extinguiu o famoso e já lendário Ballet Gulbenkian. No ano das comemorações do seu quadragésimo aniversário, o Ballet Gulbenkian foi extinto sem mais explicações. A Fundação enquanto instituição privada, independente e reconhecidamente autónoma, pode decidir o que quiser. Mas pergunta-se: seria essa a vontade do seu fundador, se ele ainda existisse? Já tínhamos assistido à extinção das bibliotecas itinerantes, que durante muitos anos levaram cultura um pouco a todo o país. Mas então, isso foi feito de uma forma calma e ponderada. Os espólios foram passando para as bibliotecas municipais fixas, embora muitas aldeias tenham ficado sem livros para emprestar. Mas a rede portuguesa de bibliotecas, já então em desenvolvimento, de alguma forma supriu essa falha.
Agora com o Ballet foi diferente: de um dia para o outro, sem sequer informar previamente os próprios profissionais do corpo de ballet, a administração declara irrevogavelmente a extinção das actividades de bailado. Parece de propósito para que lhe sintamos a falta, e para que nos demos conta da aparente injustiça da medida. É que acontece no centro da maior depressão económica em que o país está mergulhado, e em que se vivem as condições mais drásticas de quase sempre. E acontece com o maior desrespeito por todos os interessados. Serão isto sinais dos novos administradores e consequentemente de novos tempos na Gulbenkian? O que é certo é que tão cedo não haverá condições para a criação de originais de bailado em Portugal: uma companhia pode-se desfazer numa hora, mas não se forma nem em dez anos. Nem se mantém. E tudo o que se comece a fazer a partir de agora, já vem tarde e sobretudo a más horas.
Lamento a extinção, que deixa o país mais pobre e incapaz de criar neste importante meio cultural. Mas ainda lamento mais a forma como foi feita, que mais parece uma manifestação de força que uma manifestação de respeito pela cultura, pelo espírito da Fundação Gulbenkian e pelo espírito do seu próprio fundador. Acabaram-se os administradores que conviveram com a elegância, a cultura e o espírito refinado do fundador e isso já se nota…