Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-08-03

O rumo do estado de graça

Todos os governos, quando iniciam funções, têm um período de aceitação quase beatífica de todas as atitudes que tomam. Chama-se a esse período “estado de graça”, e bafeja quase todos os governos, independentemente do quadrante que os origine. Poucos são os que até hoje não gozaram desse período de bondade. O Governo Santana Lopes foi claramente uma das raras excepções: nunca esteve em estado de ter graça. Nisso tem Santana Lopes razão, mas acho que só nisso. Creio que, em vez de se lavar em lágrimas e se desfazer em justificações, entrevistas e recriminações carpindo-se do facto, se deveria perguntar o porquê dessa condição do seu Governo. Só o evidente autismo justificará a recusa de entendimento da realidade. Não é desse governo que eu hoje quero falar, mas veio a talho de foice.
Quando o actual Governo Sócrates iniciou funções, beneficiou do sacrossanto “estado de graça”. De mais a mais, e porque ao Governo Santana Lopes ele não tinha sido concedido, havia esse desejo. Assim, tudo ou quase o que o actual governo disse, decidiu e propôs durante os primeiros meses, foi aceite como bom. Havia algumas objecções relativamente a “detalhes” como o do aumento do IVA, mas o resto, embora nos fosse pesado e penoso, entendíamos. Falava-se no fim dos privilégios por anos intocados dos funcionários públicos de luxo e não só do prolongamento do tempo de serviço dos funcionários públicos “do costume”, no pagarmos todos a crise e não só os “do costume”, no inevitável estreitamento da cintura das calças de ricos e pobres (antigamente, quando havia cintos que servissem, chamava-se “apertar do cinto”), no fim dos tratamentos de excepção e da moralização da vida pública. Falava-se também de ambição e progresso (e aí estavam os “projectos estruturantes” como o TGV ou o novo aeroporto) e isso ajudava a compensar a desesperada imagem que, subitamente a seguir às eleições, nos deram de nós próprios. Mas o tempo foi passando e hoje, no início da cíclica “silly season” deparamo-nos com outra realidade. Levantam-se fumos de suspeitas sobre o porque se quer o novo aeroporto na Ota em vez de Rio Frio, ou até, dada a crise, activar aeroportos que já existem (Montijo, margem direita ou até mesmo Beja) para prolongar a vida do da Portela. Até a oportunidade e eficácia do TGV é colocada em causa e posta em dúvida a bondade da iniciativa. No entanto, para mim, o problema não está nos ataques nem na sua substância. Para mim, o problema está na pobre, frágil e desconexa defesa que o Governo faz desses projectos ditos estruturantes. A ajudar à festa, a demissão do Ministro das Finanças que, se não era o mais querido dos ministros (ninguém se conseguiu esquecer da reforma dele…), era pelo menos tido como credível. De mais a mais, já tinha havido outras alturas em que, pelo menos publicamente, a sua demissão se teria justificado bastante mais. Como se isto não bastasse, o Ministro dos Negócios Estrangeiros desata a questionar o Governo sobre a política interna que estava a ser seguida, como se não fosse membro desse mesmo governo, mas sim candidato à Presidência da República. E subitamente, o Governo, confrontado com questões que nos pareciam a nós de fácil resposta e tranquila justificação, enreda-se num novelo de que não consegue sair, e dando rebuscadas justificações e complicadas respostas. E então tudo soa a requentado, a coisa já vista (ou “déjà vu”, como alguns gostam de dizer), a justificação inconfessável. Pode ser que não seja assim mas o facto é que a ideia de segurança e determinação que o Governo transmitia está a ser substituída por uma surpreendente ideia de casuísmo e errância. Exemplo disso, a história dos candidatos presidenciais a apoiar pelo partido do governo, por mais que alguns activos militantes nos queiram fazer acreditar no contrário. Isto, para já não falar de alguns candidatos autárquicos em cidades-chave que parecem saídos do nada, ou da desadequação técnica de alguns nomeados para lugares-chave de empresas sob tutela estatal. Pode ser que não, mas tudo isto cheira (pelo menos) a feira de vaidades. E não é com vaidades destas que se coloca o país no rumo certo. E que ele precisa urgentemente desse rumo, é o que todos sem excepção concordamos.